Celas frias não brotam flores (Lula, viva)

Haverá um amanhã, para cada injustiça cometida e dor acumulada, porque a história a tudo vê e a nada se cala. Traca seus sinais, e não os esconde as novas gerações

Celas frias não brotam flores (Lula, viva)
Celas frias não brotam flores (Lula, viva) (Foto: REUTERS/Leonardo Benassatto)

Se justica fosse feita, as pessoas poderiam pensar. A elas caberia o beneficio da duvida.

Nao existiriam grandes corporacoes, nem teriamos, eu e voce, brigado.

Caso as forcas fossem as mesmas, a natureza nao se revoltaria contra alguns, deixando outros incolumes. Eu nao saberia de seu cancer, porque voce estaria pura.

Justica houvesse, e nao haveria becos soltos, e a agonia de quem ja acordou para um grito. Porque, no mundo dos homens, vale o arbitrio de quem ja e predestinado.

A juventude conheceria seu ardor, a diferenca sua singularidade, e o pobre nao seria apenas mais um. Carentes de espirito sao os que se sentem privilegiados, acossados do alto de suas certezas. Magnanimos, se ousam ao direito de cercear e prender sonhos.

Mas ao sonho nao existe dimensao. Ele nao tem corpo, e por isso so esta. Pode ser alimentado por acalentos de sangue, mas sobrevive e nao morre. A presenca fisica de torturadores nao aniquila o pensamento, muito menos apaga as vozes do amanha.

Seu cancer nao valeu de nada, porque nao obscurece seu espirito. A todas as criancas que nao vao conhecer seu futuro, um pedido para que se pare. Escute-se o ruido da vida, que ja caminha, imberbe, por entre as fronteiras do nao conhecimento.

Mate-se um sonho, mas ele nao esmoecera. Demorara anos, mas surgira como um calice, pronto e aberto a receber.

Aos que ouvirem vozes que nao se sabem existentes, o nao perdao. Aos usurpadores, caladores do senso comum e traidores da raca humana, o destino e o silencio de um jazigo. Onde todos se encontram, alguns em flores que nao sao minadas.

Que nao se pratique a injustica e o desamor. Que se conservem viventes os pedidos para que sejamos livres. Nao ha duvida maior do que a de quem pensa que nao a tenha.

Amanha e um outro dia, e nao sera de alegria. Mas tampouco de tristeza, porque havera a luta de quem dormiu, e chorou. Daquele que nao respeita os senhores que adestram o gado, na furia de controlar suas ambicoes desmedidas.

Havera um amanha, para cada injustica cometida e dor acumulada, porque a historia a tudo ve e a nada se cala. Traca seus sinais, e nao os esconde as novas geracoes.

A cada golpe desferido, maior sera a dor dos que o cometam, e tambem a alma dos que o vivam.

Lembrem-se das palavras, gestos, ternura e solidariedade. Abram seus olhos, e gritem forte um coro de uniao. Um pais abalado em suas conviccoes, mendigando um pouco de igualdade.

Nao o permitam que se va. Respeitem o sonho de que um dia ja se foi.

Em nome de uma parte presente em cada um de nos ou, ao menos, dos que saibam cultiva-la.

Choremos pelos nossos erros, mas conservemos nossa dignidade.

A cela de uma prisao e lugubre, triste e abandonada. A ela bastariam seus algozes.

Deixo-o viver.

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