Censura a esmo

"Para Bolsonaro o mundo não mudou, tanto é que, agora que foi eleito por uma armadilha do destino volta a estabelecer regras e condutas que começaram a ser abolidas justo em 1968", escreve p chargista MIguel Paiva, do Jornalistas pela Democracia.

(Foto: Miguel Paiva - Charge - artigo - Censura a esmo)
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Por Miguel Paiva, para o Jornalistas pela Democracia - Quando em maio de 1968 a frase "É proibido proibir" saiu das ruas de Paris para o mundo, carregou com ela o desejo de todos os jovens que queriam transformar a realidade. Essa mesma Paris que hoje homenageia o preso político Luís Inácio Lula da Silva, assistiu nas suas ruas nascer a contestação política criativa que visava não só o progresso social mas uma transformação cultural de verdade. Aquela revolução, aparentemente, não deu certo como se sonhava, mas acabou transformando a sociedade para sempre.

Quer dizer, para sempre, mas não para todos. Jair Bolsonaro e sua turma, por exemplo, acham que o mundo não se transformou. Tudo continua como naquela década mesmo  a juventude tendo feito valer seus desejos e as pessoas, trabalhadores, pensadores, mulheres e gêneros variados, saído para as ruas e gritado o que queriam e o que detestavam. 

Para Bolsonaro o mundo não mudou, tanto é que, agora que foi eleito por uma armadilha do destino volta a estabelecer regras e condutas que começaram a ser abolidas justo em 1968. Mesmo aqui no Brasil, apesar do AI-5 que estava se armando para acontecer no final deste mesmo ano, as coisas mudaram. A juventude acordou, a arte deslanchou e os trabalhadores começaram a se articular para alguns anos mais tarde pararem o país. 

Mas Bolsonaro insiste que nada mudou. O Brasil conseguiu, depois de anos de sofrimento, acabar com a censura prévia às informações. 

Eu vivi a censura no Pasquim, censura explícita de ter que fazer o referente a 3 números do jornal para poder aprovar material suficiente para um. Haja produção. Haja paciência, mas essas eram as regras. Durante o governo Figueiredo quando Paulo Henrique Amorim era editor do JB ouvi dele: "Só não pode falar de duas coisas aqui no jornal, da Usina de Angra e da mulher do presidente. O resto pode". Era a censura que sobrevivia já meio estrebuchando. Mas deixou marcas dentro de todos porque, principalmente, não enterramos de vez a ditadura.

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Agora acontece coisa parecida nos dois sentidos. Nos resultados econômicos desse governo fajuto que não satisfazem os grupos que o apoiaram e na censura que começa a ocupar os porões das estatais e das empresas prestadoras de serviço para o governo. A censura a esmo ataca e por prevenção e medo sai cortando tudo. Falou em gênero, falou em ideologia, falou qualquer coisa que não esteja na cartilha do governo, eles cortam. O SESC corta, o Banco do Brasil corta, a Petrobrás corta. Todas as empresas que ajudavam, através das leis de incentivo à cultura, subiram nos muros que separam a ignorância delas do desenvolvimento cultural e social do Brasil. 

Estão apostando que a História não vai perceber tamanha covardia e falta de caráter. Vai sim. Vai empurrar todas elas mais ainda para o próprio lixo. Até o Geraldinho Carneiro, amigo e  imortal foi censurado num texto sobre Shakespeare, sua especialidade. Peças foram tiradas de cartaz antes de estrear, filmes ficaram no projeto porque o cinema acabou. Não é por acaso. E se a grande imprensa não está dando a devida importância, apesar das exceções, o perigo aumenta. 

A censura é como uma doença que vai se alastrando justamente por não encontrar resistência. Se ela sair das estatais e criar um temor fake de tal envergadura que as pessoas fiquem com medo de pensar, aí sim, ela vai ocupar e silenciar o país inteiro. 

A arte se faz antes de tudo com liberdade,  com inquietação e transformação. Tem lugar pra todo mundo mas é preciso que esse lugar esteja livre que não haja a velha mania de marcar o lugar com a bolsa para sentar depois. Tem que ter lugar para todos e se não acordarmos agora para a censura ela vai não só proibir como derrubar todas os lugares, acabar com todas as plateias, os palcos, os jornais e o pensamento. É preciso estar atento e forte, como dizia Caetano mais ou menos na mesma época do "É proibido proibir! "

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