Censura, o argumento do autoritarismo

A diferença entre o vivido na ditadura militar e o que acontece no golpe de 2016 é, até o momento, a inexistência de uma sinistra engrenagem de moer gente, chamada DOI-CODI. É esperar para ver

marcela temer
michel temer
marcela temer michel temer (Foto: Enio Verri)

A diferença entre o vivido na ditadura militar e o que acontece no golpe de 2016 é, até o momento, a inexistência de uma sinistra engrenagem de moer gente, chamada DOI-CODI. É esperar para ver. Um governo ilegítimo não se mantém, senão por meio de autoritarismo de todas as formas e em todos os níveis. A censura é uma ferramenta comumente utilizada por governos sem representatividade popular, para fazer valer a vontade de quem ele representa, a elite.

Desde a tomada do poder, o governo cortou verbas publicitárias para veículos de comunicação divergentes, bem como tem pressionado empresas privadas para retirar anúncios feitos em veículos independentes e críticos. Temer não suporta ter o golpe, toda política de supressão de direitos, a condenação da população à miséria, bem como a entrega para o mercado financeiro das riquezas naturais e das empresas brasileiras, como a Petrobras, contestados.

Por força das redes sociais na internet e contratos já estabelecidos, basicamente, a imprensa resistente ao golpe ainda tem algum fôlego e consegue provocar o debate, atrapalhando os interesses da imprensa hegemônica. Sem argumentos e com a extrema necessidade de manter as aparências para aprovar sua agenda lesiva e entreguista, Temer lança mão do que conhece e tem destreza, a censura. Haja vista a proibição à primeira dama, Marcela Temer, de se pronunciar.

Três recentes fatos revelam o nebuloso abissal diante do qual brinca com a nação, um grupo traidor de toda a população brasileira. Uma intervenção direta do Palácio do Planalto na livre rotina de um veículo de comunicação. Outra, por um ex-Executivo e atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e uma terceira autoritária interferência determinada por um parlamentar federal.

A primeira intervenção foi no jornal “Folha de S. Paulo”, censurado por Temer sobre o hacker que invadiu o telefone celular de Marcela. A segunda censura foi imposta por Alexandre Moraes, a uma entrevista do ex-ministro da Justiça, Eugênio Aragão, concedida à Agência PT de Notícias, na qual ele critica a atuação autoritária arrogante do atual supremo ministro, na Secretaria de Segurança de São Paulo e pela denunciada negligência durante a crise das penitenciárias.

No início do mês de março, um juiz do Rio Grande do Sul atendeu a um pedido de um deputado federal e apreendeu todos os exemplares de uma edição do jornal da Central Única dos Trabalhadores (CUT-RS), na qual, uma das pautas, era a Reforma da Previdência. Para a sorte de milhares de pessoas, 100 mil exemplares já haviam sido distribuídos. A censura se estendeu ao site, de onde o assunto foi retirado do ar.

Desde a supressão da Constituição Cidadã de 1988, com a participação dos poderes do Estado, mercado financeiro e imprensa, o autoritarismo e a repressão estão instalados e não há a quem recorrer contra as arbitrariedades do Judiciário e do Ministério Público, por exemplo. A Folha de S. Paulo, um dos conglomerados de comunicação que apoiou o golpe, sentiu na carne a censura do governo para quem colabora diariamente.

Qual será o próximo passo contra quem contestar o “tropeço da democracia”, prisão, tortura e morte? A jovem democracia brasileira é, também, precária e superficial. Foi instalada numa nação cujo o analfabetismo político grassa por toda a sociedade, independente de classe social ou nível de escolaridade. Para piorar, é moldada pela elite brasileira, uma das mais excludentes e truculentas do mundo que, ao menor sinal de desenvolvimento e ascensão social da classe operária, ela interrompe o processo democrático com um golpe de Estado.

A Operação Lava Jato tem revelado a quem pertencem Executivo, Legislativo e Judiciário, nos três níveis de governo. O Congresso Nacional está cada vez mais autoritário e distante da população, cuja presença é constante e violentamente rechaçada das dependências da Casa do Povo, onde estão sendo aprovadas medidas de extremo prejuízo para os mais pobres, como as reformas da Previdência e trabalhista, que remetem o Brasil há mais de cem anos.

Portanto, a censura nada mais é que a falta de argumentos, o “cala a boca”, o tapa na cara. É sob esse atual estado que vive a nação brasileira. Contra a arbitrariedade da censura dos aparelhos do Estado, a desobediência civil criativa e mobilizadora é uma das maneiras de driblar o autoritarismo, sem colocar a vida em risco. Um governo que age para matar o povo de seu país de fome e miséria, mata por qualquer coisa e de qualquer forma.

Do Blog do Esmael

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