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Henrique Pinheiro

Henrique Pinheiro é economista e executivo do mercado financeiro com mais de quatro décadas de atuação no Brasil e no exterior. Trabalhou em instituições como Merrill Lynch e Wells Fargo, e atualmente atua na Bolton Global Capital, em Miami. É autor de Crônicas de um Mercado sem Pudor e produtor do documentário Terra Revolta: João Pinheiro Neto e a Reforma Agrária.

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Central do Brasil: a noite em que o Brasil escolheu reformas — e recebeu um golpe

Comício histórico revelou um projeto de reformas democráticas que seria interrompido duas semanas depois pelo golpe militar de 1964

Militares ocupam as ruas após golpe de 1964 (Foto: Reprodução/TV Brasil)

Há 62 anos, em 13 de março de 1964, o Brasil assistiu a uma das maiores mobilizações populares de sua história republicana. Em frente à Central do Brasil, no coração do Rio de Janeiro e diante do então Ministério do Exército, mais de 200 mil pessoas lotaram a praça para apoiar as Reformas de Base defendidas pelo presidente João Goulart. Em termos proporcionais, aquela multidão equivaleria hoje a milhões nas ruas.

Não se tratava apenas de um comício. Era a apresentação pública de um projeto de país. As Reformas de Base — agrária, urbana, educacional, fiscal e política — buscavam enfrentar estruturas históricas de desigualdade que impediam o Brasil de combinar crescimento econômico com justiça social.

Naquela noite, Jango assinou o decreto que autorizava a desapropriação de terras improdutivas às margens de rodovias, ferrovias e açudes federais, medida concebida como passo inicial de uma reforma agrária gradual e institucional. A execução dessas políticas caberia à SUPRA — Superintendência da Reforma Agrária — então dirigida por meu pai, João Pinheiro Neto, responsável por estruturar, jurídica e operacionalmente, um programa que buscava enfrentar a histórica concentração fundiária brasileira dentro da ordem constitucional.

O governo também avançava em outras frentes das Reformas de Base. Entre as medidas defendidas estavam a encampação das refinarias privadas de petróleo e a regulamentação da remessa de lucros ao exterior, temas que mobilizavam intensamente o debate público e atingiam interesses econômicos poderosos.

Para amplos setores populares, tratava-se de uma agenda mínima para modernizar o país. Para parte das elites econômicas e políticas, porém, aquelas propostas representavam uma ameaça direta à ordem social e ao modelo de desenvolvimento vigente.

O contexto internacional agravava os temores. A Guerra Fria transformava qualquer agenda reformista na América Latina em potencial campo de disputa ideológica. Poucos anos após a Revolução Cubana, setores conservadores passaram a interpretar as reformas brasileiras como um possível caminho para uma ruptura radical.

Mas o que ocorria na Central do Brasil não era uma revolução — era uma tentativa de transformação dentro da ordem democrática. O Congresso funcionava, os partidos atuavam e a Constituição de 1946 estava em vigor. As reformas pretendiam alterar estruturas profundas sem romper as instituições.

Talvez justamente por isso tenham provocado tanto medo. Reformas conduzidas por mobilização popular e legitimidade eleitoral são muito mais difíceis de conter do que mudanças impostas por força externa.

Duas semanas depois, o país assistiria à ruptura institucional de 31 de março. O projeto reformista foi interrompido e substituído por um regime autoritário que permaneceria por 21 anos. A própria SUPRA seria desmantelada, e meu pai, João Pinheiro Neto, cassado e preso pelo Ato Institucional nº 1, encerrando abruptamente a tentativa de implementação de uma reforma agrária dentro da legalidade democrática.

O comício da Central do Brasil passou a ser reinterpretado por seus adversários como prova de radicalização. Para seus apoiadores, permaneceu como símbolo de uma oportunidade histórica perdida — a possibilidade de enfrentar desigualdades estruturais sem abandonar a democracia.

Passadas mais de seis décadas, muitos dos problemas que motivaram aquelas reformas continuam presentes. A concentração fundiária permanece entre as maiores do mundo, as desigualdades regionais persistem e o debate sobre soberania econômica retorna ciclicamente ao centro da política nacional.

A história raramente oferece respostas simples. O que se pode afirmar é que, naquela noite de março de 1964, milhões de brasileiros — representados na praça por mais de duzentas mil vozes — acreditavam que era possível reformar o país sem destruir a democracia.

O golpe militar interrompeu essa experiência antes que seus resultados pudessem ser testados.

Por isso, o comício da Central do Brasil permanece como um marco ambíguo: ao mesmo tempo ápice da mobilização democrática e prelúdio da ruptura que viria logo em seguida.

A praça estava cheia. O país estava dividido. O futuro ainda estava em aberto.

Naquela noite, o Brasil escolheu reformas.

Dias depois, recebeu um golpe.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.