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Regina Zappa

Jornalista, escritora, criadora e apresentadora do Estação Sabiá, da TV 247. Trabalhou mais de 20 anos no Jornal do Brasil

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Chico Buarque quis gravar com Silvio Rodrigues em Havana

Compositor, cantor e escritor levou para Cuba medicamentos e grava “Sueño con Serpientes” com os músicos cubanos

Chico Buarque e Silvio Rodrigues (Foto: Francisco Proner)

A ideia de viajar a Cuba partiu do próprio Chico Buarque. Pouco antes de tomar essa decisão, fazia planos com o amigo cubano de décadas, o músico Silvio Rodrigues, de gravarem juntos uma nova versão de “Sueño con Serpientes”, clássico do repertório de Silvio Rodrigues, um dos expoentes da Nova Trova Cubana. Com toda a tecnologia disponível, Silvio poderia gravar uma parte da música em Cuba e Chico completaria a gravação no Brasil. Os músicos cubanos fariam a base. Outra opção seria Silvio e os músicos virem gravar no Brasil.

Mas não. No dia seguinte à conversa com Silvio, num estalo, Chico pensou: por que não gravar em Cuba? “Vamos gravar em Cuba. O que acha, Carol”, perguntou à mulher, que se emocionou. “Modéstia à parte, a ideia foi minha”, afirmou Chico, por telefone, de Havana, orgulhoso.

Viajar para Cuba não foi, porém, uma simples decisão. A ideia de Chico envolvia muito mais que uma gravação musical. Neste momento, Cuba sofre a maior ameaça à sua integridade e soberania desde a Revolução de 1959. Bloqueios, tentativas de assassinato de Fidel Castro, sabotagem, nada foi tão grave quanto a declaração do presidente Donald Trump de que “Cuba é a próxima”, e de que “terá a honra” de tomar a ilha para “fazer o que quiser”.

Pois o cantor, compositor e escritor brasileiro, de 82 anos, se deslocou para Havana para levar sua solidariedade quando os cubanos mais precisam de apoio internacional. Em meio à forte crise econômica e energética, provocadas pelo endurecimento das sanções norte-americanas, com bloqueio de petróleo, Chico desembarcou com medicamentos para serem entregues ao ministério da Saúde cubano.

Mais que isso: Chico levou a Cuba o amor que muitos brasileiros têm por esse país que sobrevive até hoje com a coragem e a força de seu povo. E levou sua voz para gravar uma música com um dos ícones da cultura cubana. Não uma música qualquer. “Sueño con Serpientes” fala da resistência e da luta permanente contra um inimigo que ao ser destruído, volta ainda maior. Um inimigo na forma de serpentes, as forças opressoras que tentam “roubar o amor” e a liberdade.

Vejam a letra de “Sueño con Serpientes, que abre com um trecho de um texto de Bertolt Brecht. (Abaixo, a tradução)

Hay hombres que luchan un día

Y son buenos

Hay otros que luchan un año

Y son mejores

Hay quienes luchan muchos años

Y son muy buenos

Pero hay los que luchan toda la vida

Esos son los imprescindibles

Bertolt Brecht

Sueño con serpientes

Con serpientes de mar

Con cierto mar, ay, de serpientes, sueño yo

Largas, transparentes

Y en sus barrigas llevan

Lo que puedan arrebatarle al amor

Oh, oh, oh

La mato y aparece una mayor

Oh, oh, oh

Con mucho más infierno en digestión

No quepo en su boca

Me trata de tragar

Pero se atora con un trébol de mi sien

Creo que está loca

Le doy de masticar una paloma

Y la enveneno de mi bien

Oh, oh, oh

La mato y aparece una mayor

Oh, oh, oh

Con mucho más infierno en digestión

Esta al fin me engulle

Y mientras por su esófago paseo

Voy pensando en qué vendrá

Pero se destruye

Cuando llego a su estómago

Y planteo, con un verso, una verdad

Oh, oh, oh

La mato y aparece una mayor

Oh, oh, oh

Con mucho más infierno en digestión

Oh, oh, oh

La mato y aparece una mayor

...............................

Sonho com Serpentes

Há homens que lutam um dia

E são bons

Há outros que lutam um ano

E são melhores

Há aqueles que lutam muitos anos

E são muito bons

Porém há os que lutam a vida toda

Esses são os imprescindíveis

Bertolt Brecht

Eu sonho com serpentes

Com serpentes do mar

Com um certo mar, ai, de serpentes, sonho eu

Grandes, transparentes

E em suas barrigas carregam

O que possa tirar-lhe o amor

Oh, oh, oh

Eu a mato e aparece uma maior

Oh, oh, oh

Com muito mais inferno em digestão

Não caibo na sua boca

E ela trata de me engolir

Mas se engasga com um trevo na minha cabeça

Eu acho que ela está louca

Dou uma pomba para ela mastigar

E a enveneno com o que há de bom em mim

Oh, oh, oh

Eu a mato mas aparece uma maior

Oh, oh, oh

Com muito mais inferno em digestão

Essa enfim me engole

E passeio no seu esôfago

Vou pensando no que virá

Mas ela se destrói

Quando chego ao seu estômago

E planto, com um verso, uma verdade

Oh, oh, oh

Eu a mato mas aparece uma maior

Oh, oh, oh

Com muito mais inferno em digestão

Oh, oh, oh

Eu a mato mas aparece uma maior

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.