Chico e Gil definem país da Lava Jato ao denunciar vinho tinto de sangue

"Em 1973, Chico Buarque e Gilberto Gil falaram do 'cálice de vinho tinto de sangue' para denunciar a violência que jorrava nos porões da ditadura militar", lembra Paulo Moreira Leite, articulista do 247. Vistos como expressão da consciência do Brasil e da maioria dos brasileiros, os dois reconstruíram a parceria para celebrar, no Festival Lula Livre, a vontade de mudança dos brasileiros, já registrada na canção de 45 anos atrás: 'atordoado permaneço atento/na arquibancada pra a qualquer momento/ver emergir o monstro da lagoa"; vídeo  

Chico e Gil definem país da Lava Jato ao denunciar vinho tinto de sangue
Chico e Gil definem país da Lava Jato ao denunciar vinho tinto de sangue (Foto: Mídia Ninja)

Abençoado país onde a música expressa o melhor da cultura, no qual dois gigantes com a estatura Chico Buarque e Gilberto Gil se uniram nos arcos da Lapa carioca para cantar os rumos e as dores do momento atual e gritar Lula Livre!

Numa nação de 207 milhões, com um aparato de comunicação ocupado em amortecer a resistência e distrair consciências, poucos homens e mulheres tem a capacidade de mostrar o que está no centro de nossas urgências mais sérias e graves. Poucos tem tanta credibilidade, merecem tanto respeito. Há mais de meio século expressam a consciência do Brasil e da maioria dos brasileiros 

Repetiram o gesto ontem, ao subir ao palco, para denunciar a prisão de Lula em Curitiba. Histórico.       

Cantando "Cálice," a corajosa parceria nascida no período em que a tortura e o assassinato eram métodos  usuais de eliminação de adversários políticos, mais uma vez Chico e Gil lembraram a importância de se rejeitar "este cálice, de vinho tinto de sangue".

Em 1973, num show na Politécnica da USP, quando se apresentou só, Gil denunciou o "vinho tinto de sangue" pela primeira vez. Levantou o protesto dos estudantes contra a morte de um colega da Geologia,  Alexandre Vannuchi Leme,  massacrado dias antes no DOI-CODI paulista. Naquele espetáculo improvisado e caseiro, pobre, com problemas de som que há muito tempo não enfrentava em sua carreira de artista consagrado, Gil venceu os receios naturais da repressão bruta do momento para encantar uma juventude que se destacava na luta contra a ditadura. Assim cantou os versos desesperados de quem olha para os horrores do presente e pergunta

"De que vale ser filho da santa

Melhor ser filho da outra"

 

Mesmo assim, é preciso olhar para a frente e dizer:

 

"Atordoado eu permaneço atento

na arquibancada pra a qualquer momento

Ver emergir o monstro da lagoa".

Foi este horizonte que os dois ajudaram o país a abrir os olhos, na noite de sábado. Lembraram que a existência de povos e países pode ter muitos elementos passageiros -- mas  obras-primas da cultura podem ser eternas:

"Mesmo calada a boca resta o peito

Silêncio na cidade não se escuta"

 No Brasil de 2018, mais uma vez entre "tanta mentira, tanta força bruta",  até o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável pelo porão militar que assassinou Alexandre Vannuchi, é celebrado  celebrado em camisetas de propaganda da campanha presidencial. Mais do que nunca, ensinam Gil e Chico, em forma tortuosa, também torturada:

"Talvez o mundo não seja pequeno

Nem seja a vida um fato consumado

Quero inventar o meu próprio pecado

Quero morrer do meu próprio veneno" 

Alguma dúvida?

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