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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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China como âncora: estabilidade ou instabilidade em um mundo em crise?

O papel chinês na economia global sustenta o sistema, mas aprofunda desequilíbrios monetários, conflitos geopolíticos e dilemas para o Brasil já

Ilustração com chips semicondutores e bandeira chinesa - 5/7/2023 (Foto: REUTERS/Florence Lo)

A economia mundial atravessa, desde a crise financeira de 2008, um período prolongado de instabilidade estrutural. Choques financeiros, sanitários, energéticos, climáticos e geopolíticos deixaram de ser episódios excepcionais e passaram a integrar o funcionamento regular do capitalismo global. Nesse ambiente, as economias centrais perderam capacidade de coordenação, e a governança multilateral construída no pós-guerra revelou limites profundos.

É nesse vazio que a China passou a exercer, na prática, um papel central na sustentação do sistema econômico internacional. Não por assumir formalmente uma liderança global, nem por compromisso com a ordem liberal, mas pela escala de sua economia, pela centralidade nas cadeias globais de valor e por uma estratégia de desenvolvimento fortemente ancorada no Estado, na indústria e no controle macroeconômico.

A China e a estabilização do lado real da economia mundial

Após 2008, enquanto Estados Unidos e Europa enfrentavam crises bancárias, desemprego elevado e políticas de austeridade, a China respondeu com expansão do investimento público, crédito direcionado e preservação da capacidade industrial. Esse movimento sustentou a demanda global por commodities, evitou um colapso mais profundo do comércio internacional e contribuiu para conter pressões inflacionárias ao garantir oferta abundante de bens manufaturados.

Durante a pandemia, esse papel tornou-se ainda mais visível. Em meio à ruptura das cadeias produtivas globais e ao colapso logístico internacional, foi a capacidade industrial chinesa que permitiu recompor rapidamente a oferta de equipamentos médicos, insumos estratégicos e bens intermediários. Enquanto as economias centrais recorriam a políticas monetárias ultra expansionistas, aprofundando desequilíbrios financeiros, a China sustentava o funcionamento do lado real da economia mundial.

Estabilização sem coordenação

Essa forma de estabilização, no entanto, ocorreu sem reformas institucionais correspondentes. A arquitetura monetária internacional permaneceu praticamente inalterada, incapaz de lidar com superávits e déficits persistentes entre grandes economias. Não houve coordenação cambial, nem mecanismos multilaterais eficazes de ajuste.

O sistema seguiu funcionando, mas de maneira assimétrica. A estabilização passou a depender crescentemente de um polo produtivo superavitário, enquanto os desequilíbrios estruturais se acumulavam. O que foi solução emergencial converteu-se em padrão permanente, sem governança capaz de administrar seus efeitos.

O superávit chinês como fato político

O encerramento de 2025 tornou esse quadro incontornável. A China registrou um superávit externo de magnitude histórica — superior a US$ 1 trilhão — em um contexto de desaceleração do comércio mundial e fragmentação geopolítica. Esse resultado não é conjuntural. Ele expressa um padrão estrutural: capacidade produtiva elevada, demanda interna ainda insuficiente e forte orientação exportadora.

Nesse contexto, a política cambial chinesa cumpre papel central. O renminbi (yuan) segue sendo tratado como instrumento estratégico de competitividade externa, integrado a uma estratégia mais ampla de desenvolvimento. A discussão relevante não é se o yuan se valorizou ou se desvalorizou em determinados momentos, mas o fato de que a taxa de câmbio real permanece favorável à manutenção de superávits persistentes.

A partir daí, o debate deixa de ser técnico e se torna político: quem absorve o custo do ajuste quando uma economia desse porte opera continuamente no superávit?

Estados Unidos, déficits e política do confronto

O outro polo desse desequilíbrio é a economia norte-americana. Os Estados Unidos operam há décadas com déficits externos crônicos, sustentados pela centralidade do dólar no sistema monetário internacional. Essa posição permite financiar consumo, investimento e poder militar por meio do endividamento externo.

É nesse contexto que a política econômica de Donald Trump deve ser compreendida. Tarifas, sanções e pressões comerciais não visam reformar a ordem monetária internacional nem corrigir desequilíbrios globais. Buscam conter o avanço da China na economia mundial, preservar espaço para a indústria americana e impedir que Pequim converta sua potência produtiva em influência tecnológica e geopolítica duradoura. Trump não combate o déficit em si — combate o fato de que o déficit americano corresponde, cada vez mais, ao sucesso econômico chinês.

Hierarquia monetária e impasse sistêmico

O sistema monetário internacional é hierárquico. O dólar permanece no topo não apenas por fundamentos econômicos, mas por poder político, institucional e militar acumulado. O yuan ocupa posição intermediária. Apesar de avanços pontuais em acordos bilaterais e regionais, não reúne condições para disputar a hegemonia monetária no curto ou médio prazo.

Paradoxalmente, o yuan subvalorizado não ameaça o dólar — ele o reforça. Os superávits chineses continuam sendo reciclados em ativos denominados em moeda norte-americana, financiando déficits externos dos Estados Unidos e sustentando a centralidade do sistema financeiro global.

O risco, portanto, não é a substituição do dólar pelo yuan, mas a convivência prolongada entre um centro financeiro deficitário e uma potência produtiva superavitária, sem mecanismos eficazes de coordenação. Nesse cenário, o câmbio deixa de ser variável técnica e passa a ser percebido como instrumento explícito de poder, alimentando tarifas, subsídios defensivos e políticas de fragmentação produtiva.

Por que esse debate é estratégico para o Brasil

Para países como o Brasil, essa discussão não é abstrata nem acadêmica. Ela incide diretamente sobre a estrutura produtiva, o padrão de especialização externa e as margens reais de uma estratégia de desenvolvimento.

A combinação entre superávits chineses persistentes e elevada competitividade industrial exerce pressão contínua sobre a indústria manufatureira brasileira, especialmente nos segmentos de média intensidade tecnológica. Mesmo quando o Brasil mantém superávits comerciais com a China, esses resultados se concentram em commodities, enquanto o déficit em bens industriais e tecnológicos se aprofunda. O efeito líquido é a consolidação de uma inserção externa assimétrica, que limita o adensamento produtivo e a geração de empregos industriais qualificados.

Além disso, a política cambial chinesa afeta indiretamente o espaço de manobra da política macroeconômica brasileira. Em um sistema internacional no qual grandes economias operam com câmbio administrado e superávits estruturais, países periféricos ficam mais expostos a ciclos de apreciação cambial, desindustrialização precoce e dependência de fluxos financeiros voláteis. A tensão recorrente entre estabilidade macroeconômica, competitividade externa e desenvolvimento de longo prazo reaparece de forma crônica.

Esse quadro se torna ainda mais sensível no contexto da transição ecológica. A China ocupa posição dominante nas cadeias globais de energia renovável, minerais críticos, baterias, veículos elétricos e equipamentos de baixo carbono. Para o Brasil, isso cria uma encruzilhada estratégica: ou permanece como exportador primário de recursos naturais, reproduzindo um padrão dependente, ou constrói políticas industriais e tecnológicas capazes de internalizar etapas mais complexas dessas cadeias. A forma como o câmbio, o comércio e o investimento chineses operam no sistema global condiciona diretamente essa escolha.

Por fim, o debate é estratégico porque redefine alianças e conflitos no sistema internacional. A intensificação da disputa entre Estados Unidos e China tende a pressionar países como o Brasil a assumir posições, padrões regulatórios e arranjos produtivos. Sem uma leitura clara da hierarquia monetária global e dos efeitos estruturais dos superávits chineses, o risco é responder de forma reativa, subordinando decisões de desenvolvimento a choques externos e disputas entre grandes potências.

O dilema de 2026

Nada indica que 2026 será um ano de acomodação. Com a demanda doméstica chinesa ainda incapaz de substituir plenamente o motor exportador, a pressão competitiva externa tende a continuar. Isso implica maior propensão a conflitos comerciais, intensificação da fragmentação econômica e crescente politização das políticas cambiais.

Se no passado recente a China funcionou como âncora de estabilidade de um sistema em crise, hoje essa mesma âncora começa a expor os limites de uma ordem monetária incapaz de se reformar. A questão que se impõe não é cambial, nem monetária em sentido estrito. É sistêmica: até quando o mundo suportará um arranjo no qual a principal potência manufatureira global opera com superávits crescentes, enquanto o ajuste recai sobre desemprego, desindustrialização e instabilidade política em terceiros países?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.