China tenta impedir que a dominação tecnológica amplie a hegemonia financeira global a partir de suas Big Techs

“O fato é que a Comissão de Regulação de bancos e Seguros da China e mesmo o Banco Central perceberam os imensos riscos de deixar que a dominação tecnológica avançasse para a hegemonia financeira controlada até aqui pelos bancos estatais chineses”, escreve o professor Roberto Moraes

(Foto: REUTERS/Aly Song)
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Há várias razões para se compreender a decisão regulatória tardia do governo chinês sobre a megacorporação chinesa do grupo Alibaba desde outubro, quando foi suspenso a autorização para o lançamento de ações (IPO) que seria o maior da história do mundo, estimado em quase US$ 40 bilhões. [1]

A partir desta decisão, o Ocidente de forma geral, passou a acusar Xi-Jiping de arbitrariedade econômica do partido único chinês, que inclusive já ganhou o apelido de Xi-nomics. Porém, o fato é que a Comissão de Regulação de bancos e Seguros da China e mesmo o Banco Central perceberam os imensos riscos de deixar que a dominação tecnológica avançasse para a hegemonia financeira controlada até aqui pelos bancos estatais chineses.

Controles e regulações similares sobre as corporações tecnológicas têm sido acenadas pela UE e pelos EUA, mas ainda se encontram circunscritos aos debates legislativos e judiciários, sem decisões finais que acabam envoltas em pressões e lobbies poderosos.

No meu livro sobre “A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo” eu abordo de passagem (p.166), um relatório do FSB (Financial Stability Board, órgão de finanças do G-20), em 2018, cujo título é "FinTech and market structure in financial services: Market developments and potencial financial stability implications" que trata dos riscos inerentes à capacidade de atuação das Big Techs sobre o setor financeiro a nível global. [2] [3]

Outros relatórios posteriores foram divulgados pelo FSB, ampliando as preocupações, num contexto, que já considerava a ampliação do uso de tecnologias digitais e plataformas informacionais (Inteligência Artificial, Big Datas, algoritmos, robôs de mineração, etc.) no sistema financeiro, que cresciam com as fintechs, à margem do chamado sistema financeiro existente (privado e/ou estatal). A FSB insistia para o G-20 que esses riscos seriam razões urgentes de intervenções contra a explosão do sistema. Assim, se percebe que é nessa linha que a China resolveu agir para proteger seu sistema econômico, contra esse monopólio com poder de ação sobre os demais setores econômicos (frações do capital).

O capitalismo de estado chinês permitiu a liberdade de ação e de competição de mercado entre corporações dentro de seu planejamento (ou planificação, como queiram chamar). No caso das corporações de tecnologia (suas Big Techs) esse avanço nos últimos anos (em especial última década) foi colossal e, de certa forma, até superior ao que se vê na dominação das cinco Big Techs americanas com ação sobre todo o Ocidente e parte do Oriente.

Neste percurso, no final de 2019, as holdings chinesas Alibaba e a Tencent alcançaram um valor de mercado superior a US$ 700 bilhões cada uma delas que atuam em áreas distintas e complementares, desde o comércio de varejo e às redes sociais, jogos, etc., porém, ambas com atuação crescentes e ampliadas nos serviços financeiros e meios de pagamento.

As empresas AliPay da Alibaba e o We Chat Pay da Tencent oferecem empréstimos, corretagens, vendem seguros de todos os tipos e articulam fluxos financeiros os mais variados possíveis, a partir do uso dos meios de pagamentos que desenvolveram e que hoje atende a mais de 700 milhões de chineses. Estes mecanismos de pagamentos geram fluxos financeiros que superam o uso de cartões de crédito no ocidente. Cartões que na China não chegaram a ser usados de forma maciça, sendo logo superados por estes meios de pagamento digitais móveis usados até para gorjetas e esmolas nas ruas.

Assim, com a enorme capilaridade que as plataformas destas corporações de tecnologia chinesas conquistaram junto aos seus usuários, a partir da captura dos dados e da tecnologia dos algoritmos (IA), que se alimentam das informações sobre os interesses e as rendas dos clientes, foi se efetuando essa potente aliança entre a dominação tecnológica e as centenas de mecanismos financeiros espalhados globalmente.

Tudo isso, foi potencializando os riscos, que tanto o FSB (G-20) quanto as autoridades chinesas foram percebendo, na medida em que o setor das finanças perpassa os demais setores da economia, ao exercer uma hegemonia que cada vez é mais evidente no capitalismo contemporâneo.

É preciso compreender claramente que não há como analisar a dominação tecnológica das plataformas digitais (plataformismo), sem observar as relações e o processo que reforça a hegemonia financeira na dinâmica contemporânea. Essa articulação une a reestruturação produtiva a um modo de produção capitalista de base monopolista, que amplia a utilização do sistema informacional e financeiro transfronteiriço e desregulado.

É disto que trata a disputa que se vê na geopolítica cibernética atual. A disputa pelo poder tecnológico que se desenvolve em várias dimensões. O uso exponencial e quase total das plataformas digitais traz repercussões para além da dimensão econômica e passa pela política e geopolítica. A dimensão economia é onde se tem a extração de valor do trabalho que sofre enorme precarização e à captura da riqueza pelo setor dominante da tecnologia e seus controladores. Assim, digitalização e financeirização andam juntas.

Neste processo se vive hoje também o que chamo de “startupização” com inúmeras empresas-plataformas criadas em incubadoras e universidades. Essas startups são depois adquiridas e/ou controladas por fundos financeiros criados exclusivamente para ficar com as ideias-negócios que já passaram pelo teste e crivo do mercado. Assim, os donos dos dinheiros (investidores) reduzem os riscos de empreender e ainda capturam a mais-valia do trabalho dos jovens mais qualificados e recém formados.

Só no Brasil em uma década (2011-2020) o número de startups cresceu vinte vezes. No Brasil da depressão (entre 2018 a 2020), os fundos financeiros captaram e investiram cerca de US$ 7,5 bilhões nas startups em diferentes classes de aplicação e controle acionário. Só no desastroso 2020, ano da pandemia, foram fechados 450 contratos de investimentos em startups com aporte de US$ 3,1 bilhões (R$ 16 bilhões), cerca de metade destes recursos alocados, exatamente, para criação e desenvolvimento das fintechs (startups financeiras). [4]

Porém, a digitalização dos negócios e a plataformização vai muito além da dimensão econômica. Hoje já é conhecida a enorme manipulação que as plataformas digitais exercem na política, através do uso expansivo das redes socais, que hoje já é acessível a quase metade da população do planeta, mas por quase todas as pessoas dos países considerados desenvolvidos, embora com ainda enormes desigualdades.

Neste cenário é natural que os Estados-nações busquem se proteger, com todas as limitações e interesses que estão embutidos nos Estados, sejam os controlados diretamente pelos mercados, seja pelas experiências de modelos híbridos do capitalismo de Estado ou socialismo de mercado.

Referências:

[1] CAMPOS, José Roberto. Negócios da China. Artigo Valor, 04 jan. 2020. Disponível em: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/negocios-da-china.ghtml

[2] PESSANHA, Roberto M. A ‘indústria’ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo. Rio de Janeiro: Consequência, 2019.

[3] Relatório publicado em 14 fev. 2018 pela FSB. FinTech and market structure in financial services: Market developments and potential financial stability implications [FinTech e es- trutura de mercado em serviços financeiros: evolução do mercado e possíveis implicações para a estabilidade financeira]. Disponível em: http://www.fsb.org/wp-content/uploads/ P140219.pdf

[4] Matsuura, Sérgio. Apetite para o risco: após captação recorde de US$ 3,1 bi em 2020, start-ups segue a mira dos investidores. Matéria em O Globo 4 jan. 2021, p. 21.

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