Cidadão à altura de tempos terríveis

"Sempre que o país recordar a tragédia Guararapes, será preciso lembrar a reação corajosa de um catador de material  reciclado que  entrou na linha de tiro de uma patrulha do Exército para ajudar inocentes e acabou fuzilado", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. "Personagem da camada que se encontra no patamar mais baixo da desigualdade brasileira, que só teve sua dignidade reconhecida pela postura solidária de Lula, Luciano tentou fazer a coisa certa mesmo numa hora terrível"

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Num país que enfrenta um cotidiano de dificuldades sem fim, o catador de material reciclável Luciano Macedo, 27 anos, nos mostrou que é possível tentar fazer a coisa certa mesmo numa hora terrível, entre 83 tiros de Guadalupe. Em vez de se esconder e até fugir, reações prováveis num cenário de tamanha violência, Luciano fez o necessário -- ajudar as vítimas. Apanhou a criança de 7 anos que se encontrava a bordo do Ford Ka branco e conseguiu levá-la para longe.

Também tentou socorrer Evaldo Rosa, o cavaquinho fuzilado logo no início do massacre, mas era tarde demais. Luciano foi morto com três tiros no peito -- região  própria para execuções, incomum no caso de mortes acidentais. O sangue escorreu pelo seu corpo, encobrindo uma tatuagem com o nome da mãe, Aparecida, uma senhora combativa que não foi ao velório do filho para fazer figuração: "o Exército matou meu filho", disse para o país inteiro ouvir.   

Quando perguntaram à mãe Aparecida por que o filho era "daquele jeito", ela respondeu com verdades que ninguém gosta de ouvir -- recordam a responsabilidade de todos e de cada um -- dizendo que nunca lhe deram emprego nem uma boa escola.    

Considerando o lugar central que o destino de Lula ocupa no atual momento político brasileiro, não deixa de ser curioso recordar que ele ajudou o Brasil a reconhecer a dignidade de homens e mulheres que lutam pela sobrevivência submersos no lixo de nossas cidades grandes e desiguais. Lula fazia questão de estar em sua companhia às vésperas do Natal. Ficava emocionado e chorava sempre. Era uma demonstração daquela  solidariedade que atravessa preconceitos e derruba atitudes mesquinhas, a começar pelo costume sempre confortável de responsabilizar os miseráveis pela própria miséria.

Autor de reflexões essenciais sobre o cotidiano da Alemanha nazista, Bertolt Brecht deixou um pensamento conhecido: "Infeliz é o povo que necessita de heróis".A importância dessa visão é lembrar que o povo de cada país é o sujeito de sua história, num processo coletivo que permite avanços e recuos em toda tentativa de resistência e mudança política.

Mas, em algumas conjunturas, como no Brasil de abril de 2019,  quando o poder de Estado utiliza soldados capazes de atirar a esmo na direção de uma família a caminho de um chá de bebê no domingo à tarde, a reação de indivíduos capazes de colocar a solidariedade acima da própria vida assume uma importância incomum. Recorda a atualidade de valores de peso histórico (solidariedade é o nome atualizado da "Fraternidade" que os franceses ensinaram ao mundo a partir de 1789), que não podem ser esquecidos.

Personagem do degrau mais baixo da desigualdade brasileira, Luciano Macedo perdeu a vida e deixou um filho que nascerá órfão. Entre atiradores irresponsáveis e familiares em compreensível desespero, sua atitude deixou um raro momento de dignidade que o país tem o dever de celebrar. 

Sempre que se falar de uma tragédia que envergonhará o país pela eternidade, será preciso lembrar a reação corajosa de um cidadão que não tinha endereço fixo, nem casa para morar nem um prato de comida quente para saciar a fome -- e mesmo assim entrou na linha de tiro de uma patrulha do Exército para ajudar quem estava estava em dificuldade.

 

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