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Michel Zaidan

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Cinema e nostalgia

Entre a memória local e a ambição universal, o cinema nostálgico se afirma como reflexão crítica sobre identidade, tempo e transformação social

Sala de cinema (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Luchino Visconti, célebre cineasta italiano (aristocrata e comunista), construiu uma filmografia baseada na nostalgia de formas de vida social em extinção ou em transformação. Chama a atenção o tom nostálgico e melancólico com que trata seus personagens, sejam individuais ou coletivos. O Leopardo, Morte em Veneza, Rocco e Seus Irmãos, O Inocente e outros: a temática recorrente do autor era esse olhar preocupado em descrever a agonia ou o fim de uma determinada classe ou sociedade. E o fez de forma magistral, como registro histórico e saudoso. A nostalgia está também em outros cineastas italianos ou americanos.

No Brasil, surgiu recentemente a questão dos filmes que retratam nossa paisagem urbana e social. Realizar filmes sobre a sua cidade, sua cultura, seus cinemas, pontes e praças de outrora é fazer um cinema nostálgico e melancólico, a ponto de um crítico já falecido chamar de “provinciano”, “local”, “telúrico” e não universal?

Seria a nostalgia pela sua aldeia uma forma recorrente de voltar às origens, valorizá-las ou relembrá-las?

Ariano Suassuna, que nunca negou as origens picarescas de sua obra, nunca deixou de repetir a fórmula de Tolstói: pinte sua aldeia e serás universal. Mas Ariano não era cineasta nem tinha a pretensão de ganhar o Oscar. Ele se contentava em extrair os elementos picarescos da literatura de cordel para arrancar gargalhadas do público; nunca se preocupou com a dimensão humanista e mais geral de seu trabalho.

Mas os filmes atuais nada têm de picarescos; possuem outra intenção, mais séria, social, histórica e documental. O ponto dolens é este: o cinema que está surgindo vai além da narrativa nostálgica e regional para se tornar, não mero divertimento, reconhecimento ou rememoração, mas uma genuína obra de arte?

PS. Devemos lamentar o fim ou a mudança de uma forma de vida que se confunde com a nossa identidade e fazer uma catarse ou sublimação através de uma narrativa fílmica ou literária e reconhecer nela um significado universal?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.