Cinema: Pequenos eventos, grandes desequilíbrios
“O Acidente” costura uma trama sutil até que cada linha se entrelace com as outras de maneira nunca explícita, mas que pode ser intuída
O acidente que dá título a este filme de Bruno Carboni é uma variação do conhecido “patriota do caminhão”. Joana (Carol Martins), tradutora e ciclista temerária, é cortada por um carro e resolve tomar satisfação da motorista. Irritada, esta a arrasta pendurada no capô do carro enquanto o filho, no banco do carona, filma a ocorrência com seu celular.
Está lançada uma rede de rebatimentos que, no início, parecem não se conectar muito bem. Joana vive com sua companheira (Carina Sehn) e está grávida por inseminação artificial. Num impulso algo maternal, ela passa a seguir o menino, um pequeno lobo solitário que filma pequenos acontecimentos para confirmar que “as coisas existem”. Assim, Joana acaba interagindo com uma família disfuncional em que os pais disputam a guarda e a formação do filho “estranho”.
Tendo Porto Alegre como pano de fundo e a partir dos seus três semiplots (o acidente, a ideia de família e a maternidade), O Acidente costura uma trama sutil até que cada linha se entrelace com as outras de maneira nunca explícita, mas que pode ser intuída. Eventos mínimos, como um descolamento de azulejos ou as rachaduras numa tela de celular, podem indicar o desequilíbrio fundamental a que estamos constantemente expostos, seja no trânsito, seja em casa.
É preciso dar o desconto para algumas pequenas incongruências no roteiro, assim como para o ritmo às vezes compassado demais. Carboni, porém, consegue impor seu estilo seco, elíptico, baseado numa câmera geralmente imperturbável na captação de ações e conversas. O garoto Luis Felipe Xavier é um fenômeno de adequação ao papel. A trilha musical discreta e austera de Maria Beraldo serve bem às emoções comedidas do filme, que vez por outra me lembrou o cinema do japonês Hirokazu Kore-eda.
>> O Acidente está nos cinemas.
O trailer:
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

