Ciro Gomes e o peso das companhias (ou más companhias)
O sobralense de segunda categoria - ele é nascido em Pindamonhangaba - até ontem se dizia ideologicamente situado no espectro ideológico da centro-esquerda
“O líder que mostra incoerência naquilo que faz arrasta a sua liderança para o fundo poço.” Cláudia Di’Pigalle, pensadora italiana do século passado.
Os anos eram de chumbo grosso. A origem, o inolvidável 1964, quando um golpe-civil militar apeou do poder da República o gaúcho João Goulart no dia 2 de abril daquele ano. Goulart caiu não por seus defeitos. Muito pelo contrário. A queda se deu em função de suas qualidades. Um presidente rico e herdeiro político do trabalhismo Varguista, que ao ousar implementar as reformas de base mexeu num vespeiro. Desse modo, atraiu para si a fúria do governo Norte-Americano ( o contexto era de guerra fria), da elite nativa (miliares, plutocracia, Igreja, classe média despudorada, grande imprensa – ela, sempre ela: emissoras de rádio, jornalões, revistas e congêneres – e grandes e reacionários latifundiários. Castelo Branco, primeiro presidente do ciclo da ditadura, foi eleito de forma indireta no dia 11 de abril de 64 – o golpe ainda estava bem fresquinho – e tomou posse 4 dias depois.
No discurso de investidura no cargo, o marechal cearense garantiu que entregaria o poder aos civis no dia 31 de janeiro de 1966, lembrando que a eleição presidencial estava prevista para ocorrer em outubro de 1965. Ou seja, o milico sem pescoço e sem palavra atropelou o próprio discurso sem esquecer o que dissera em oratória inaugural do período despótico. Os fatos, para quem achava que o período militar seria tal e qual uma chuva de verão ei-los. Em julho, também do mesmo ano, o parlamentar paraibano, João Agripino, apresentou emenda ao Congresso propondo a dilatação do mandato do golpista Castelo. As cortinas do teatro de horrores foram descerradas. A seguir veio o AI-2, decreto draconiano de 1965 que, entre muitas maldades, acabou com o voto popular direto para presidente e vice-presidente da República, transferindo a escolha para o Congresso Nacional; extinguiu todas as agremiações partidárias existentes - a partir de então, o sistema passou a operar sob o bipartidarismo com a criação da ARENA (pró-governo) e o MDB (oposição consentida); autorizou o presidente da República a decretar Estado de Sítio por até 180 dias sem a necessidade de aprovação ou aval prévio do Congresso; ampliou o número de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) de 11 para 16 ministros, o objetivo, claro, era alinhar a corte aos interesses do regime; também transferiu o julgamento de civis acusados de crimes políticos para a Justiça Militar; e concedeu ainda ao Executivo o poder de cassar mandatos parlamentares e suspender direitos políticos.
A ditadura arrochou o torniquete de vez com a edição, em 13 de dezembro de 1968, do AI-5, mais conhecido como o golpe dentro do golpe. Bom, mas voltemos a Ciro Gomes ( é bom não esquecer que o primeiro partido dele foi a Arena, por isto esta digressão necessária). Pois bem, Ciro jogou de vez toda sua biografia na lata de lixo da história parafraseando o ministro da ditadura militar, Jarbas Passarinho, que ao assinar o AI-5, confessou: “às favas com todos os escrúpulos de consciência.
O sobralense de segunda categoria – ele não nasceu na capital da zona Norte do Ceará e sim em Pindamonhongaba, São Paulo – até ontem se dizia ideologicamente situado no espectro ideológico da centro-esquerda. Como prova da conversão à social-democracia, ele alegou seu apoio aos governos de esquerda de Lula e Dilma, estava filiado ao PDT de Leonel Brizola e, antes, havia sido militante do PSB, legenda do lendário Miguel Arrais.
Movido, segundo seus adversários no estado, por combustíveis explosivos – Ciro total flex – que expelem da política quem os utiliza: ódio e inveja. O ex-governador e ex-quase tudo deu uma guinada repentina e virou o herói da extrema-direita cearense. O cara mergulhou fundo nos braços do bolsonarismo tupiniquim e anunciou, 16 último - o evento ocorreu no Centro Educacional Evandro Aires de Moura, no bairro Conjunto Ceará, bairro de periferia de Fortaleza) - sua pré-candidatura a governador, tendo como coadjuvantes em sua chapa senatorial o capitão Wagner (ex-deputado e, num passado recente, acusado pelo próprio Ciro de ser o mentor dos motins da PM daqui, que trouxeram os caos para a segurança local) e o deputado Alcides, um pastor neopentecostal, cuja única façanha malsinada foi ser pai do ultradireitista André Fernandes, mais conhecido pela alcunha de “raspa cu.”
Num palanque apinhado de seguidores de Bolsonaro, o cheiro forte de enxofre deixava o público presente nauseabundo. O vento que vinha de fora enchia e asfixiava os pulmões da assistência com a enxurrada de informações sobre as falcatruas de Flávio Bolsonaro, que se valeu da grana de Vorcaro para rodar o filme Dark Horse, película biográfica, ou melhor dossiê de um facínora, do pai. Ao fundo, a figura indefectível, nos últimos 40 anos, do empresário Tasso Jereissati, que talvez não se eleja mais nem vereador em Fortaleza. Um autêntico pato manco eleitoral.
O resumo da ópera bufa: Ciro Gomes sabe que sua chance de ser governador é menor que a possibilidade de se encontrar um bolsonarista honesto. Sua missão única e exclusiva: jogar sua bile azeda e ressentida contra Lula e Camilo. Para quem já foi candidato a presidente em quatro oportunidades servir de linha auxiliar da extrema-direita me faz lembrar o livro do gênio Lima Barreto: O triste fim de policarpo Quaresma. Na política, o mundo não gira, capota.
PS.: Uma pergunta Freudiana que grita: o que leva uma mente brilhante com verniz de Harvard a se juntar a um agrupamento político de elevado grau de indigência mental e moral? Se vivo fosse, nem o honrado José Euclides saberia responder. Muito menos a ínclita professora Maria José Santos Ferreira Gomes. Finalmente, a candidatura do Ciro bem poderia ser batizada de Dark Horse (pangaré). Ele iria se sentir em casa.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

