Ciro perdeu o rumo, o senso e o sonho de chegar à Presidência

Parece que Ciro Gomes "endoidou de vez", afirma o colunista Ribamar Fonseca." "Ele não sabe mais onde está, se à direita, à esquerda ou no centro e atira para todo lado". Ao agredir Lula, diz Fonseca, o ex-ministro "praticamente sepultou o sonho de um dia vir a ocupar o Palácio do Planalto, sem dúvida uma aspiração justa, mas muito mal conduzida"

(Foto: REUTERS/Nacho Doce)

O ex-ministro Ciro Gomes parece que endoidou de vez. Ele não sabe mais onde está, se à direita, à esquerda ou no centro e atira para todo lado. Seu alvo predileto, porém, é Lula, que está preso há mais de um ano e não tem como se defender. Afinal, o que Ciro pretende com essas agressões? Manter-se sob o foco da mídia para não ser esquecido ou desabafar o seu ressentimento contra o ex-presidente por não ter sido apoiado por ele nas últimas eleições presidenciais? O ex-ministro, na verdade, parece que teve o juízo afetado pelo sol escaldante do Nordeste, pois adotou uma estranha estratégia para obter o apoio do líder petista à sua pretensão de ocupar a Presidência da República: agredi-lo de maneira gratuita no período que antecedeu o pleito. Pelo visto, ele achava – e deve achar ainda hoje – que Lula tinha a obrigação de abraçar a sua candidatura. E como o ex-presidente, após impedido de concorrer, escolheu Fernando Haddad para substitui-lo no pleito, Ciro ficou tão magoado que, ao contrário dos outros candidatos de esquerda, preferiu fugir para a Europa a fim de não apoiar o candidato petista no segundo turno, decepcionando e perdendo muitos eleitores. Com essa atitude, que reflete a sua vaidade ferida, ele praticamente sepultou o sonho de um dia vir a ocupar o Palácio do Planalto, sem dúvida uma aspiração justa, mas muito mal conduzida. 

Na verdade, Ciro tinha tudo para ser o candidato de Lula e, com o apoio deste, ser eleito. O ex-presidente chegou a convidá-lo para ser seu vice, o que o tornaria naturalmente seu substituto na corrida sucessória quando se consumasse o seu impedimento, mas a vaidade do ex-ministro não o deixou aceitar o convite. Foi então que o líder petista convidou Haddad que, como previsto, virou cabeça de chapa com o afastamento do ex-presidente. Ciro, portanto, não tem do que se queixar. Até porque em nenhum momento, durante todo o processo de perseguição da Lava-Jato, ele esboçou o menor gesto de solidariedade a  Lula que, em compensação, contou sempre com o apoio dos demais candidatos dos partidos da esquerda, entre eles Guilherme Boulos e Manuela D´Avila, que se mantiveram ao seu lado até o momento da sua prisão.  Ninguém até agora conseguiu entender essa estratégia de Ciro – se é de fato uma estratégia – para conquistar o apoio do maior líder popular deste país, porque com esse comportamento ele acabará perdendo até os seus eleitores e no máximo, nas próximas eleições, com um pouco de sorte conseguirá eleger-se deputado pelo seu Estado. Alguém precisa dizer a ele que se não mudar de tática, evitando agressões gratuitas a quem quer que seja, não conquistará nem mesmo um mandato de deputado, sendo obrigado a abandonar a política, o que será um fim melancólico para quem parecia ter um futuro brilhante pela frente. 

Enquanto Ciro chora a perda das últimas eleições, muita gente já começou a especular sobre o pleito de 2022, inclusive ele próprio, provavelmente acreditando que dessa vez terá possibilidades de chegar ao Planalto. Falar sobre aquelas eleições parece muito prematuro, mas vale a pena uma reflexão sobre o panorama atual. Em 2022 as chances de Ciro serão mais remotas ainda porque Lula deve ser candidato, já que não há ninguém capaz de superá-lo. Se, no entanto, por um motivo inesperado ele não puder concorrer, os partidos de esquerda tem nomes fortes, como Fernando Haddad, do PT; Guilherme Boulos, do Psol; e Flavio Dino, do PCdoB, para disputar a Presidência. Diante do evidente fracasso da direita na condução do país, primeiro com Temer e agora com Bolsonaro, a esquerda ganhou vida nova e vem muito forte nas próximas eleições presidenciais. O PT, ao contrário dos que pretenderam destruí-lo, se fortaleceu com Lula na prisão e deverá liderar a esquerda, que terá tudo para voltar ao poder surfando na onda esquerdista que começará a varrer o continente a partir das eleições na Argentina. A vitória da chapa Alberto Hernandez-Cristina Kishner, já prevista pelas pesquisas, terá inevitáveis reflexos no Brasil, interrompendo a escalada da direita na América Latina.

Do lado da direita o candidato natural às eleições presidenciais de 2022 é o atual presidente Bolsonaro que, acreditando em suas próprias fakes, imagina reeleger-se. Com menos de um ano de governo, porém, ele já conseguiu afugentar grande parte do seu eleitorado, além de aliados, e deverá perder o que sobrar se permanecer no Planalto até o final do seu mandato. Não tem chance. Afora ele, quem poderia concorrer pela direita? João Dória, que enganou o paulistano fantasiando-se de gari e chegou ao governo do Estado? Não tem cacife e não consegue enganar a mais ninguém. Sobra, então, o ex-juiz Sergio Moro que, nas mais recentes pesquisas, revelou alto índice de popularidade e o Podemos anunciou que pretende lança-lo candidato. Acontece que o ex-juiz está bem nas pesquisas porque ainda goza da fama que lhe concedeu a mídia, em especial a Globo, mas certamente começará a perder a cobertura e o prestígio após deixar a vitrine do Ministério da Justiça, de onde poderá ser exonerado a qualquer momento. E longe dos holofotes e desmascarado pelo The Intercept seu destino será o ostracismo. Nos três anos que nos separam do pleito ele fatalmente será esquecido, a exemplo do ministro aposentado Joaquim Barbosa, que chegou a ser apresentado como “o menino pobre que mudou o Brasil” e hoje é apenas uma lembrança no Supremo Tribunal Federal.

Esse panorama, no entanto, tem bastante tempo para mudar, até porque as eleições presidenciais sofrerão grande influência das eleições municipais que serão realizadas no próximo ano. Este pleito, portanto, deverá ser o foco principal dos partidos que desejam disputar o Planalto, pois quem fizer a maioria dos prefeitos e vereadores terá melhores chances de eleger o novo Presidente. Até lá haverá, também, uma rearrumação nos partidos, com mudanças nas bancadas da Câmara Federal, onde o PSL, partido de Bolsonaro, por exemplo, vem se esfacelando por conta de brigas internas. Na verdade, tudo leva a crer que muita gente eleita pelo PSL, na esteira do discurso de ódio do capitão, não conseguirá a reeleição em 2022, pois não tem liderança e muito menos votos, sendo beneficiada pelo humor do eleitorado no momento, consequência da enxurrada de fake News que invadiu as redes sociais. Entre os que terão apenas um mandato estão os governadores Witzel, do Rio de Janeiro, e Zema, de Minas Gerais, ilustres desconhecidos que foram arrastados pelo fenômeno Bolsonaro, sem nenhuma experiência política e da administração pública. Também existem senadores e deputados igualmente beneficiados pelo efeito Bolsonaro que não retornarão ao Congresso. E a partir de 2023 deverá haver outra renovação no cenário político brasileiro, especialmente no Parlamento. 

Uma coisa, porém, é certa: depois do desastre Bolsonaro, hoje reconhecido pelos seus próprios aliados, o eleitorado estará menos vulnerável às fake News, não cometendo os mesmos erros das últimas eleições. E os novos governantes terão muito trabalho para recuperar o país, que deve chegar em frangalhos em 2022 se o capitão permanecer no Planalto até o final do mandato. Isso se não perder parte do seu território, porque a julgar pela submissão de Bolsonaro a Trump e as providências anunciadas para entregar a base de Alcântara e terras da Amazônia aos americanos, cresce a cada dia o risco de intervenção internacional na região amazônica, sobretudo após o estímulo às queimadas que levaram o mundo inteiro a questionar a politica ambiental do governo brasileiro. As perspectivas, na verdade, são bastante sombrias. A esperança é o Supremo voltar a ser Supremo, reassumir o papel de guardião da Constituição Federal, recuperar o senso de justiça e barrar todas as iniciativas que ameaçam a nossa soberania. A libertação de Lula pode ser um grande passo, cuja repercussão internacional deverá começar a reabilitar o Brasil aos olhos do mundo.

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