Civilização e barbárie

O linguista e colunista do 247 Gustavo Conde afirma que nós estamos diante de um impasse civilizatório; para ele, o processo eleitoral deste momento não diz respeito a um embate entre esquerda e direita, mas sim entre civilização e barbárie; ele indaga: "o que é ser de esquerda? Ser a favor de inclusão social? Ser a favor de uma cobertura universal de vacinação de crianças e trabalhar por isso? Ser contra o racismo? Ser contra a homofobia? Ser contra o genocídio de índios? Ser contra o genocídio de presos? Isso é ser de esquerda?"

Civilização e barbárie
Civilização e barbárie

As eleições sempre marcaram no Brasil um momento de reflexão. Bem ou mal, é o período em que se faz algum tipo de avaliação do mandato vigente para que se possa apontar a continuidade de um projeto ou a interrupção deste projeto.

A eleição, a rigor, é um processo mais simples do que parece ser ou do que a elite brasileira quer que ele seja. Para os políticos conservadores de direita, a eleição é uma provação, uma tortura, até porque políticos conservadores de direita têm certa dificuldade em sua relação com o voto. Por isso eles tentam sempre truncar a eleições. Por isso, eles a subestimam, por isso, eles a violentam, por isso eles a desprezam, por isso eles as tratam como um ‘mal necessário’.

Há muita gente que poderia contestar o pressuposto “políticos conservadores têm dificuldades com o voto”. Mas eu o reitero. Reitero e pergunto: quando se teve voto, qual político conservador foi eleito para a presidência? Por mais que FHC seja hoje um ente folclórico, tomado de frustração e ressentimento, em 1994 ele não era propriamente um reacionário.

Volte-se um pouco atrás – porque o ‘depois de FHC’ nem é preciso mencionar – e temos políticos progressistas sendo eleitos pelo povo e tirados pelos golpes, em meio a nossa ‘maldição do vice’: Jango foi um Temer ao contrário, pois seu cabeça-de-chapa era o habitual político higienista anti-corrupção (Jânio Quadros), figura solitária e levemente desequilibrada.

Juscelino Kubitchek encarnou a felicidade e a autoestima como premissas básicas de seu ethos político e de seu projeto, tomado de fragilidades e delírios, mas legitimados pelo voto, afinal. O capítulo Getúlio é assaz complexo para meio parágrafo, mas é inédito o fato de um ditador voltar pelo voto – e depois cometer suicídio por perseguição política da elite –, basta que se diga isso.

A magra democracia brasileira não teve muitas chances de eleger quem ela sempre desejou: líderes populares e progressistas com o mínimo domínio linguístico do português falado pelo povo. Afora a maldição do vice, temos a maldição do Odorico Paraguaçu, a ideia falsa e fajuta de que o povo humilde gosta de quem fala ‘difícil’ – ou de quem é flagrantemente demagógico como Alckmin, só para citar um exemplo.

O que elege políticos como Alckmin ou Doria ou FHC é o medo. Eles não têm e nunca tiveram voto consolidado de conceito. São votos ‘negativos’, votos do ‘não’, votos calcados na ‘repulsa ao outro’. É o sistema político brasileiro, tão arraigado e tão menosprezado por analistas décadas a fio: a esquerda afirma e a direita nega, a esquerda se expõe e a direita se esconde, a esquerda formula e a direita faz fichamento das teses econômicas anglo-saxônicas.

A direita sempre menosprezou o povo, para ela uma espécie de ‘efeito colateral’ da democracia – e sempre foi aristocraticamente elogiada por nossa imprensa secular que, nada mais é que um ‘braço’ em seu espectro de ação.

A esquerda, por sua vez, sempre aprofundou sua conexão com o povo, para ela a essência máxima da democracia – e sempre foi violentamente criticada por isso, sob a ótica destrutiva e negativa daqueles que, diante da soberania, enxergam ‘populismo’.

O processo político brasileiro – no entanto e a despeito dessa simplicidade olímpica que deveria ser respeitada, a saber: a eterna escolha entre dois projetos evidentes e ‘chapados’, como diria o ministro Luiz Fux – tem suas complexidades subscritas. E não são poucas. Se se quiser a análise técnica –  advirto – dotada de metodologia e procedimento leitor, até uma simples cebola se torna um emaranhado de sentidos.

Em tempo: o embate que está em curso hoje no Brasil, mais do que nunca, é civilização versus barbárie. Não é esquerda versus direita, não é progressismo versus conservadorismo, não é status quo versus renovação: é civilização versus barbárie.

É o nosso encontro com o presente sempre adiado pela história. A luta interna por soberania que caracteriza todo e qualquer país – ou pelo menos, um país dotado de autoestima republicana – não aconteceu no Brasil. Nosso processo de independência foi fake. Nosso processo de transição do império para a república foi fake. Ambos foram conduzidos pela elite escravocrata, violenta e assassina.

É muito curioso que, mesmo depois de um processo tão desvirtuado de construção de soberania, ainda se tivesse no Brasil alguma cifra de nação, que se arrastou valentemente durante todo o século 20, a despeito de todos os golpes.

Que se tenha havido golpes em profusão em nossa história é ainda mais um sintoma de que habita aqui, neste solo em que se plantando tudo dá (inclusive provas judiciais contra inocentes), um povo poderoso e investido de imensa humanidade e consequência. O povo brasileiro não é qualquer povo. É único, é forte, é resistente, é bonito, é insinuante, é democrático, é utópico, é solidário, é valente.

Mitos como o do povo “burro”, “violento” e “preguiçoso” são o simulacro que a elite nos projeta, como forma de controle, indiferença e auto compensação libidinal. Na verdade, quem é burro, preguiçoso e violento é o nosso eterno consórcio golpista, também chamado de elite escravocrata. Isso já está posto pela história e pela realidade impiedosa do presente.

Senão, vejamos: o que é ser de esquerda? Ser a favor de inclusão social? Ser a favor de uma cobertura universal de vacinação de crianças e trabalhar por isso? Ser contra o racismo? Ser contra a homofobia? Ser contra o genocídio de índios? Ser contra o genocídio de presos? Isso é ser de esquerda?

Continuo: o que é ser de esquerda? Ser a favor de um regime de partilha social de uma riqueza mineral que pertence ao país e ao povo deste país? Ser a favor de uma população universitária robusta e qualificada? Ser a favor de um programa que permita estudantes no exterior agregando valor, cultura e conhecimento tecnológico para o país em que vivemos e crescemos? Isso é ser de esquerda?

Prossigo: o que é ser de esquerda? Ser a favor dos direitos LGBTT e do casamento gay? Ser a favor da emancipação da população carente através de projetos sociais? Ser a favor da internacionalização da nossa indústria, da nossa cultura, da nossa marca? Ser a favor de um sistema de saúde que atinja toda a população brasileira? Isso é ser de esquerda?

Respondo: não. Isso não é ser de esquerda. Isso é ser civilizado. Isso é o mínimo que um ser humano deveria sentir e acreditar com todo o seu corpo e sua alma em um século também chamado de século 21. É o básico, o ponto de partida, o pontapé inicial.

A sociedade brasileira foi tomada por um fenômeno de linguagem muito precário e primitivo chamado ‘simulacro’, que nada mais é do que a distorção acelerada e brutalizada dos fatos concretos que pertencem aos sentidos da história e da civilização.

Acreditou-se, por alguma razão infeliz, que aqueles valores minimamente virtuosos ali postos fossem propriedade da esquerda, quando, na verdade, são apenas processos civilizatórios.

Não há ‘contrário’ possível para valores como a inclusão social. O contrário é a ‘barbárie’. Isso matou o debate qualificado em solo brasileiro, sob o testemunho cúmplice e preguiçoso de muitos intelectuais agraciados com os favores editoriais da imprensa secular.

A prova de que a resposta da direita derrotada à ação vitoriosa da esquerda brasileira foi primitiva e dotada de profunda ignorância (e precariedade de interpretação de texto) atende pelo nome/sigla Michel Temer/PSDB.

Coadjuvantes infames dessa aliança grotesca são os ‘Bolsonaros’ (peões avançados da truculência sub intelectual) e ‘Marinas Silvas’ (elementos de contenção e omissão, prepostos inertes para vitimizações melodramáticas).

Ao se ver em um beco sem saída civilizatório, esse segmento apodrecido da sociedade brasileira resolveu optar pela barbárie. Resolveu facilitar – por extrema preguiça em oferecer um projeto alternativo de país.

É um segmento que não sabe ‘formular’, não sabe propor, não saber debater. Por isso, ele é violento. Por isso, ele é omisso. Por isso, ele se vitimiza. Por isso, ele opera nos interstícios da destruição do cinturão de proteção social, espaço que, para eles, são trincheiras de resistência da esquerda (quando na verdade, são trincheiras de resistência da civilização).

Por isso, o debate da Band foi um vexame. Por isso, o povo brasileiro vem reafirmando dia pós dia o que ele quer. Ter um debate paralelo na internet, de resistência, com mais de 3 milhões de acessos é um soco na imprensa secular e obsoleta. Sem a civilização presente, os debates com os candidatos ‘anões’, ovelhas desgarradas da democracia, serão rechaçados pela população brasileira e figurarão como usina de memes de internet, nada mais.

A direita, encurralada pela própria preguiça e por sua emblemática má formação intelectual – subserviente, anacrônica, interrompida, tecnocrata, carreirista – decidiu fazer o simulacro raivoso da civilização que lhe acossou o traseiro. Chamou a civilização de ‘esquerda’ e perdeu o bonde e o trem da história.

A direita-barbárie brasileira, tomada por Kins Kataguiris, Alexandres Frotas, Generais Mourões, Anas Amélias, Michéis Temers, Lucianos Hucks e tucanos mil – os seres dotados dos mais profundos déficits de leitura que a história brasileira já testemunhou – afunda-se dia após dia mais e mais na lama da cena política.

Eles erodem a soberania de um povo, exterminam os investimentos, fazem vista grossa a genocídios, usam o exército como peça publicitária, entregam a cultura e a tecnologia de uma nação inteira sem a menor cerimônia (Embraer, Pré-sal, Base de Alcântara), assassinam o pouco de direitos que o povo trabalhador detinha desde a criação da CLT, implodem programas universais de vacinação de crianças, fazem voltar doenças do século 19.

Isso é barbárie.

Isso não é alternativa de poder, não é alternativa de nada. Isso é apenas barbárie.

O povo brasileiro já entendeu isso. O povo brasileiro ‘é’ o Brasil. Não existe Brasil sem povo. A população está deixando o seu recado todos os dias, nas pesquisas de intenção de voto e de opinião. O povo está avisando que não quer o prosseguimento deste processo golpista.

O povo brasileiro não quer a continuidade da barbárie. Ele quer a civilização de volta. Ele quer cuidar dos seus filhos, do seu futuro, do seu trabalho. O povo brasileiro é, sim, pacífico, e extrai dessa vocação à vida, toda a sua força que não cessa de se inscrever em nossa história.

O povo brasileiro quer se manifestar, ele quer a eleição, ele respeita o restinho de institucionalidade que sobrou deste processo agônico de auto destruição.

O momento de o Brasil se encontrar consigo mesmo chegou. É a eleição mais importante da história. Tentemos não fulanizá-la com a pior geração de candidatos que um sufrágio já assistiu. Tampouco com as divergências internas no campo da civilização (ou da esquerda, como preferirem, a essa altura do campeonato das palavras).

É hora de fazer o que nossos antepassados não tiveram a oportunidade de fazer: construir a soberania definitiva de um povo. Isso exige coragem e autoestima, mas também inteligência e humildade.

Encaremos essa missão de restituir a civilização nesta sociedade tão espancada por sua elite covarde, sociedade esta que merece a chance de construir um sonho mais uma vez.

Afinal, nossa memória não pode negar: enquanto durou, a democracia foi uma experiência maravilhosa.

Vamos trazê-la de volta. Sem medo.

*

P.S.: este escriba recebeu uma mensagem carinhosa do escritor Raduan Nassar e agradece publicamente a honra e a responsabilidade de ser lido por um dos maiores escritores da história. Um beijo, querido Raduan. 

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