Civita: anti-Lula sempre foi pró-FHC

Duas cenas do livro "Civita -- O dono da banca" comprovam a diferença de tratamento da editora Abril, responsável pela revista VEJA, para Lula e Fernando Henrique. Numa delas, Civita chegou a interromper uma noite de amor para atender a um telefonema de FHC, então presidente da República. Na campanha de 2002, quando Lula falava das viagens da Caravana da Cidadania para explicar as prioridades de seu programa de governo, um executivo da Abril o interrompeu para questionar: "Podemos dizer que um motorista da Cometa também está preparado para ser presidente?". Na verdade, VEJA atacou Lula até em 1981, quando ele foi condenado pela Lei de Segurança Nacional, a mesma usada pela ditadura militar para censurar a revista

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01/03/2010 - S�o Paulo - Roberto Civita, durante o 1o. F�rum Democracia e Liberdade de Express�o realizadopeli Instituto Millenium em S�o Paulo. (Foto: Paulo Moreira Leite)
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A preferência política da VEJA por Fernando Henrique Cardoso é um desses fatos sabidos por todas as pessoas interessadas em estudar as conexões preferenciais entre a revista e as personalidades políticas que marcaram a história brasileira recente. É um traço tão marcante como a rejeição perpétua -- acentuada nos últimos 20 anos -- por Luiz Inácio Lula da Silva. Lembrando que Lula e FHC foram os líderes que estiveram a frente das principais famílias políticas do país há décadas, é sempre instrutivo registrar as diferenças de tratamento reservadas a ambos.

No livro "Civita -- O dono da banca," Carlos Maranhão dá uma  contribuição para que essa visão deixe  o campo das análises dedutivas para ser comprovada com fatos e exemplos, com palavras, datas e episódios.  

Em vários momentos, Maranhão mostra que o apoio de Roberto Civita a FHC ia muito além da simples opinião de empresário -- chegava ao deslumbramento.

Na página 320, revela que Civita "não continha sua alegria" diante da edição de VEJA de 12 de outubro de 1994, recém saída da gráfica, que mostrava a vitória de Fernando Henrique no primeiro turno da eleição presidencial. "Folheou a revistas devagar, saboreando na primeira olhada as linhas gerais das matérias sobre a vitória do candidato -- o seu candidato." Na página 406, Maranhão escancara o acesso de Fernando Henrique ao  principal acionista da editora Abril e responsável maior pela orientação política de suas publicações.

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O filho primogênito,  Giancarlo Civita enxergava no pai um "sentimento de profunda admiração, quase reverência," por FHC. Com acesso às páginas da agenda de Roberto Civita, Maranhão faz uma revelação íntima e surpreendente. Conta que no dia 8 de março de 2001, quando ingressava num novo relacionamento amoroso, o empresário deixou a seguinte anotação, em inglês, para registrar que atendera uma chamada de Fernando Henrique, então no penúltimo ano de governo. "Coitus interruptus: FHC phone call ".

Há um caso instrutivo sobre Lula que o livro não debate  mas está disponível nos arquivos da editora. Retrata que a prioridade anti-Lula e contra aquilo que ele representa é mais antiga e profunda do que se poderia imaginar, sendo capaz de superar  eventuais compromissos com a democracia no tempo da ditadura.

Em 1980, Lula e demais líderes de uma greve em São Bernardo foram presos por 31 dias. Em março de 1981,  já fora da cadeia, Lula foi condenado em primeira instância a  três anos e meio de prisão com base na Lei de Segurança Nacional. Mesmo numa editora  conservadora em assuntos políticos, mas longe do caráter panfletário que adquiriu nas duas últimas décadas, teria sido  razoável assumir uma postura esclarecida, pelo menos. Afinal, Lula fora vítima da mesma legislação de exceção usada para justificar  a censura prévia a  119 edições consecutivas da própria VEJA, prazo equivalente a dois anos e dois meses de uma publicação que em 1981 acumulara apenas 13 anos de existência. É um desses momentos em que cada um tem a oportunidade de dizer de que lado está. VEJA disse.

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Na Carta ao Leitor de 4/3/1981, que cumpria a função de dar a opinião política sobre os acontecimentos da semana, o texto dava sustentação a ação do governo Figueiredo e condenava a luta dos operários. "O novo sindicalismo tem bem pouco de novo," diz." Seus adeptos queixam-se da incompreensão de que seriam vítimas, pois, segundo dizem, queriam apenas promover com vigor os interesses dos operários. Mas o que dizem não esconde a realidade do que fazem. E a realidade que se vê a sua volta, aberta e publicamente, é a costumeira balburdia de grupelhos extremistas, clérigos de esquerda, políticos oportunistas e teóricos diversos tentando, da qual a seu modo, influir e mandar no movimento sindical." Sem recordar, em nenhum momento, que se tratava de uma medida típica de um país submetido a um  regime de exceção, no qual grandes decisões judiciais tem um óbvio defeito de origem, em outro trecho a  Carta  diz que a condenação dos sindicalistas "mostra com eloquência o quanto as coisas vão mal nesta área. O 'novo sindicalismo"', supõe-se, deveria ser algo útil para os trabalhadores, um instrumento eficiente para melhorarem de vida. Em vez disse, acabou por se transformar numa versão diferente do velho jogo político que opõe de um lado, dirigentes sindicais e grupos ideológicos radicais que se formam a sua volta, e de outro, o outro e sua força."

Assim, num episódio que há 36 anos marcava uma linha divisória na afirmação  da principal liderança popular construída depois de 1964, a revista assumia uma opção clara. Tomou a mesma  postura que, com todas as diferenças, chegaria a nossos dias, quando se tornou ponta de lança dos ataques que levaram ao enfraquecimento da democracia e à "encenação" que, nas palavras de Joaquim Barbosa, produziu a queda de Dilma. Há três décadas e meia, o julgamento de Lula foi um termômetro da democratização, um limite.

"A abertura não pode ser uma aventura", dizia um porta-voz do regime citado pela revista, tentando definir um padrão clássico de mudança pelo alto, com o menor espaço possível às lideranças populares, categoria de que Lula já se tornara a expressão maior. (Em 1982, ano em que a Arena seria enxovalhada nas urnas, Lula e demais sindicalistas foram vitoriosos em segunda instância, livrando-se de uma pena absurda de 42 meses de prisão para 41 dias de greve.)

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Em 2002, os tempos eram outros e aqui o livro conta uma história significativa. Lula estava em campanha presidencial, com chances reais de vitória, o que poderia representar  uma mudança como poucas na história brasileira. Liderando todas as pesquisas de opinião, foi recebido num almoço em companhia de Civita e vários dirigentes da empresa, inclusive Maurizio Mauro, o executivo mais importante, que, conforme Maranhão, costumava valer-se de sua autoridade na área econômica para cobrar mudanças na linha editorial. Naquele dia, repetindo o refrão permanente dos adversários políticos do candidato do PT, Maurizio Mauro perguntou a Lula se ele se considerava "preparado para ser presidente da República." Habituado a enfrentar toda carga de preconceito armazenada numa pergunta que usava  a "falta de diploma" para  esconder discordâncias políticas de fundo, Lula começou a falar da Caravana da Cidadania,  quando percorreu os pontos mais distantes do país, ouvindo homens e mulheres de locais pobres e esquecidos por todos. Era uma forma de dizer que se considerava preparado para assumir a presidência porque conhecida melhor os problemas sentidos pela maioria dos brasileiros. Maurizio cortou a fala no meio:  " Então você viajava e por isso está preparado? Podemos dizer que um motorista da Cometa também está preparado para ser presidente?"

No ano seguinte, haveria um novo encontro, já em Brasília, na casa de José Dirceu -- na presença de Lula, Civita e Maurizio Mauro. No voo de volta Maurizio Mauro disse a Civita uma frase que anunciava  o tratamento que  boa parte da mídia grande -- e não apenas a VEJA -- daria  ao ministro chefe da Casa Civil dali por diante. "Se ele (Dirceu) for o sucessor, estamos fritos", disse o executivo, numa frase que ajuda a entender o tratamento persecutório que o número 2 do governo Lula passaria a receber nos anos seguintes. O temor estava claro: "estamos fritos."

No capítulo das reportagens não-publicadas, o livro não explica casos que se tornaram emblemáticos. Não há uma menção a jornalista Miriam Dutra, namorada de Fernando Henrique, que falou de seu filho com o ex-presidente em entrevistas gravadas. O livro também não não faz referências a Paulo Henrique Cardoso, filho do presidente, envolvido em rumores cabeludos durante o governo do pai. Nem Mirian nem Paulo Henrique são citados no livro. Em nenhum momento o leitor fica sabendo se Roberto Civita atuou a favor do silêncio -- ou se este era responsabilidade de editores e diretores de redação.  

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Maranhão recorda que o banqueiro Joseph Safra, um dos credores da Abril, conseguiu retirar uma reportagem de capa da revista Exame que continha um parágrafo que não o agradava. "A Abril sofria uma de suas maiores crises de endividamento e o Banco Safra era um de seus maiores credores," escreve Maranhão. Disposto a atender ao banqueiro, Civita paralisou a edição quando ela se encontrava a caminho da gráfica. Como José Roberto Guzzo, diretor geral da revista, não concordasse com o pedido, ficou decidido que a reportagem simplesmente seria retirada da edição e substituída por um texto de ultima hora, sobre outro assunto. Mas Civita nem sempre agiu assim, com tanta determinação.

Tempos depois, ele também não queria a publicação de uma reportagem de capa sobre Fábio Luiz, o Lulinha, pronta para ser publicada na mesma semana do segundo turno das eleições presidenciais de 2006, quando Lula derrotou Geraldo Alckmin. Anos mais tarde, nos últimos dias de vida, internado no Sírio Libanês, o próprio Civita repetiu a opinião durante uma visita de cortesia feita por Lula, que encontrava-se no mesmo hospital para tratar-se de um câncer. Ainda que os  diálogos transcritos por Maranhão confirmem a versão de Civita, o fato é que desta vez ele cedeu aos argumentos do diretor de redação, Eurípedes Alcântara -- e a reportagem sobre Lulinha foi publicada.

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