Com a palavra, os imbecis 

"Todos foram nivelados por baixo numa divisão que coloca em risco o futuro pacífico das sociedades presenciais. Esse fenômeno na internet ocorre em todo o planeta, mas no Brasil ele é ainda mais beligerante", diz Florestan Fernandes Jr., do Jornalistas pela Democracia; ele destaca "um rebanho incalculável de seres humanos totalmente desconectados e sem lugar no mundo do Facebook e do Instagram" e diz que "a direita orgânica soube atrair esses excluídos virtuais fornecendo a eles conteúdos ideológicos, muitas vezes falsos, mas com potencial explosivo para detonar as relações nas chamadas redes sociais"

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Com a palavra, os imbecis  (Foto: REUTERS/Adriano Machado)


Por Florestan Fernandes Jr, do Jornalista pela Democracia - Ainda durante o primeiro turno da eleição do ano passado, Mônica Bergamo e eu nos encontramos em Curitiba no dia primeiro de outubro para fazer cumprir nosso direito como jornalistas de entrevistar o ex-presidente Lula na carceragem da PF. A autorização foi dada pelo ministro do STF Ricardo Lewandowski e cassada no mesmo dia pelo presidente da corte, ministro Dias Toffoli, que justificou a decisão atendendo o pedido do ex-ministro da Segurança Publica, Raul Jungmann. Antes de voltarmos para São Paulo, Mônica me consultou se poderia publicar em sua coluna que um parente próximo de meu pai estava apoiando Bolsonaro em sua página no Facebook.

Respondi que ela tinha todo o direito de publicar, mas já que me consultou, queria deixar claro que a referida pessoa era voz dissonante dentro da minha família. Em respeito à memória de Florestan Fernandes, Mônica preferiu não dar nada sobre o assunto. Mas o caso me aborreceu e fui pesquisar a página dessa Fernandes que decidiu apoiar o capitão fascista e desqualificado. Fiquei horrorizado com as fake news e os posts de ódio reproduzidos na página. Me veio a lembrança dos anos de chumbo, quando meu pai foi punido pelo Ato Institucional número 5. Tempos em que Florestan foi privado do convívio diário com a própria família como professor expatriado dando aulas em universidades da América do Norte, como Yale, Columbia, Harvard e Toronto.

Como pode alguém que teve a oportunidade de ver e viver de perto todo esse sofrimento apoiar um candidato cujo o ídolo é o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, único brasileiro declarado pela Justiça torturador na ditadura? Mas racionalizei a situação me apegando à noção de que na democracia cada um faz o que bem entende com seu voto e sua consciência. Bolsonaro eleito e empossado, fui conferir a página que quase foi parar numa coluna da Folha. Fiquei passado ao verificar que o parente, mesmo com o país ladeira abaixo, continuava sua cruzada de ódio totalmente descolada da verdade dos fatos históricos. Em um dos posts, uma fotomontagem para atacar ex-presidentes do Brasil.

Caí na tentação de fazer a provocação, lembrando que o facebookiano tinha sido responsável pela eleição da grande maioria daquelas pessoas. Mal dei o enter e um maluco agressivo, provavelmente da tropa de choque do Bolsonarismo, entrou me chamando de psicopata (termo que certamente ele não saiba o significado) e fazendo ataques totalmente fora da verdade histórica. Disse, entre outras coisas, que Mandela tinha sido terrorista perigoso e comunista. Justamente Mandela, um líder que recebeu o Prêmio Nobel da Paz e foi responsável direto pelo fim do apartheid de maneira pacifica na África do Sul. Mas, na época de pós-verdade, um sujeito apoiar um governo no qual o chanceler não tem vergonha de virar galhofa internacional ao afirmar que o nazismo foi um movimento de esquerda todas as maluquices do mundo passam a ser permitidas no mundo virtual e fora dele.

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Mas, afinal, quais os motivos que levaram esse meu parente a participar do salto no abismo das trevas? Uma possibilidade é a invisibilidade virtual de bilhões de pessoas em todo o planeta que não conseguem pelas suas limitações se expressarem e produzirem textos com ideias e análises mais aprofundadas da nossa realidade. São pessoas que ficaram à margem nas redes sociais pela falta de condições intelectuais e de compreensão de textos e da produção pessoal de ideias e análises instigantes para serem compartilhadas nas redes. Durante muito tempo essas pessoas ficaram restritas às postagens de pequenos textos de autoajuda retiradas do Google.

Suas páginas eram um mosaico de frases expressadas pelo senso comum e também de fotos pessoais, da família e dos animaizinhos de estimação. Posts totalmente inofensivos, mas desinteressantes para merecer uma curtida ou um comentário. Não deve ter sido fácil para essas pessoas passarem despercebidas numa rede que estimula o narcisismo. Ficar invisível nessas redes é mortal. Trata-se de um rebanho incalculável de seres humanos totalmente desconectados e sem lugar no mundo do Facebook e do Instagram. A direita orgânica soube atrair esses excluídos virtuais fornecendo a eles conteúdos ideológicos, muitas vezes falsos, mas com potencial explosivo para detonar as relações nas chamadas redes sociais. Hoje poucos são os invisíveis. A rede deu notoriedade aos grandes assassinos da racionalidade e do conhecimento. Este caldo gosmento de falta de civilidade abriu um fosso profundo intransponível entre parentes, amigos e conterrâneos.

Uma situação impossível de se chegar a um entendimento. Todos foram nivelados por baixo numa divisão que coloca em risco o futuro pacífico das sociedades presenciais. Esse fenômeno na internet ocorre em todo o planeta, mas no Brasil ele é ainda mais beligerante. Nesse mundo da pós-verdade vale terminar meu texto citando dois grandes pensadores. Umberto Eco disse: "Normalmente os imbecis eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel" e George Orwell, que falou muito antes da chegada da internet: "Quanto mais uma sociedade se distancia da verdade, mais ela odeia aqueles que a revelam". Vai ser difícil sobreviver defendendo a verdade num mundo onde a maioria não tem nenhum compromisso com a razão e o conhecimento. Bom seria se o lema do capitão fosse razão acima de tudo e verdade acima de todos.

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