Com décadas de atraso os militares vão descobrir que o mundo mudou

As declarações de alguns dos militares que compõem o governo Bolsonaro assustam. Lendo ou ouvindo o que falam, cresce a níveis estratosféricos o temor pela saúde da democracia brasileira

Com décadas de atraso os militares vão descobrir que o mundo mudou
Com décadas de atraso os militares vão descobrir que o mundo mudou

As declarações de alguns dos militares que compõem o governo Bolsonaro assustam. Lendo ou ouvindo o que falam, cresce a níveis estratosféricos o temor pela saúde da democracia brasileira. Alguns pronunciamentos de oficiais de alta patente, que formam a espinha dorsal do poder instalado em Brasília, articulam ideias fossilizadas, de eras perdidas no tempo. Há uma forte impressão de que os quarteis e bases, onde essas pessoas passaram a maior parte da vida são redomas isoladas do mundo real, feitas para conservar artefatos arqueológicos de algum museu.

É um cenário que traz à memória o último livro do notável historiador francês Marc Bloch, "Uma estranha Derrota", escrito poucas semanas após o debacle da França, na Segunda Guerra Mundial. Bloch havia servido no exército do seu país na Primeira Guerra Mundial; quando foi promovido de praça a capitão, por bravura, além de ter recebido inúmeras condecorações. Quando a ameaça de um novo conflito contra a Alemanha, então sob o nazismo, se tornou séria, Bloch não teve dúvidas em se voluntariar para um novo período se serviço, apesar dos seus 50 anos. Como coronel destacado para o Estado Maior do Exército do Norte e integrado ao grupo responsável pelo abastecimento de combustível às unidades na frente de batalha, o historiador estava em um ponto de vista privilegiado para a análise sobre os acontecimentos, que gerou o livro escrito poucos dias depois da rendição francesa.

A avaliação dos militares da França, pelo historiador, é acida. Seu texto possui ásperas críticas aos militares profissionais de carreira, que segundo ele estavam mais preocupados com um sentimento de ordem inútil, bonito de ver em paradas ou em arquivos bem organizados, mas absolutamente ineficazes na dinâmica imprevisível, enganosa, fluida e mutável de uma batalha.

Em um trecho do seu livro, o historiador descreve como as atividades de treinamento, o cerimonial e a rotina de um quartel, onde os militares passam a maior parte de suas vidas, esconde uma vida ociosa, improdutiva e avessa à criatividade. Nos quarteis, os militares passam a vida se preparando para uma guerra imaginária e isso destrói os espíritos criativos, ao mesmo tempo em que forma pessoas presas a paradigmas (muitas vezes ultrapassados), preconceituosas, incompetentes e despreparados para o imprevisto.

"Todos os estados-maiores que conheci praticavam, às vezes com irritante minúcia, o culto à 'bela papelada'. As frases devem estar dispostas com grande nitidez. As fórmulas de estilo devem obedecer às leis de uma tradição rigorosa. Nos quadros, as linhas devem ser dispostas em colunas, como numa parada. As pastas devem estar cuidadosamente classificadas; as peças, tanto na partida quanto na chegada, devidamente registradas. Trata-se, em suma, daquilo que poderíamos chamar de forma burocrática da ordem. Nada mais natural do que vê-la florescer entre homens destinados, em tempos de paz, a um tipo de vida eminentemente burocrático. (...) Apresentar cotidianamente uma papelada de boa aparência não exige um esforço tão considerável quanto o exige o domínio de si, necessário para estabelecer, com grande antecedência, aplicação e flexibilidade, planos de ação que só serão colocados em prática numa data ainda incerta e que terão de se adaptar às necessidades de um tempo tumultuado" ("A estranha derrota", de Marc Bloch).

O historiador se espanta, ao perceber a incapacidade dos militares profissionais de superar o choque sofrido, quando se viram em uma guerra diferente da que esperavam.

Marc Bloch observou que os soldados cidadãos, que eram os civis recrutados para as forças armadas, tanto na Primeira, como na Segunda Guerra Mundial geralmente saiam-se melhor, quando as circunstâncias exigiam criatividade, flexibilidade e improvisação, para superar as situações inesperadas, que caracterizavam o conflito. Para ele os cidadãos eram os melhores soldados, porque transferiam a experiencia da imprevisibilidade da vida para os campos de batalha.

Antes de Marc Bloch, outro francês já havia percebido as limitações dos militares profissionais. Na Primeira Guerra Mundial o premiê francês, Georges Clemenceau, viu que o comando do Exército era incompetente e sacrificava milhares de soldados em ataques frontais contra as trincheiras alemãs. Ele forçou mudanças e disse uma frase que fez história: "A guerra é importante demais pra ser deixada na mão dos militares". As táticas foram descongeladas pela liderança civil, se tornaram mais eficientes, menos sangrentas, e a França venceu a guerra.

A mesma sensação de obsolescência, observada por Bloch nos exércitos franceses, ocorre com relação às falas e dos militares brasileiros. Ao que parece, a vida improdutiva da maioria nos quarteis e bases militares, congelou sua forma de pensar da oficialidade em um mundo que não existe mais.

Provavelmente há militares que foram cooptados por interesses estranhos ao país, podem também existir alguns oportunistas que consideram o poder uma oportunidade pessoal; entretanto é possível que a maioria acredita sinceramente estar fazendo o melhor para o país.

Na França, em 1940 certamente a maioria dos oficiais também pretendia fazer o melhor para o seu país, porém fizeram de forma equivocada, o que gerou o desastre.

Os militares são imprescindíveis em um país com a importância territorial, populacional, econômica, natural e geopolítica do Brasil. Lula nunca teve dúvida sobre isso e investiu para colocar as Forças Armadas Brasileiras entre as mais poderosas do planeta, com respeitável poder de dissuasão. Os governos do petista regularizaram as verbas para o Ministério da Defesa, retirando a tropa da humilhante situação de não ter dinheiro nem para o almoço; foi encomendado o Plano Nacional de Defesa, que previa um reequipamento inédito da força, somente comparável ao que ocorreu no governo Geisel, a modernização de doutrinas e, principalmente, o estabelecimento de uma retaguarda constituída por uma poderosa base industrial de defesa.

A Lava jato praticamente exterminou a indústria bélica nacional, mas isso é assunto para outro momento.
Infelizmente a relevância que Lula conferiu às forças armadas não foi suficiente, para romper a redoma dentro da qual estava confinada a mentalidade militar nos quarteis. O presidente que mais levou a sério os militares continuou sendo um inimigo a ser derrotado.

A impressão ao observar o cenário é que os militares brasileiros ficaram "atocaiadas", esperando o momento certo para atacar.

Agora, os militares saíram dos quarteis. Entraram no governo e serão obrigados a conviver com o mundo real. Para cumprir suas novas funções, eles deverão ser executivos de políticas públicas, portanto se transformarão em políticos. Será necessário que compreendam qual o propósito de um governo em uma república, que é bem diferente de uma ditadura.

Por enquanto, os militares se comportavam como um time que treina há anos, mas nunca joga. E, como disse Didi, "jogo é jogo, treino é treino". Agora, eles vão sair para o jogo, o que não é a mesma coisa que o treino. Além disso, vão jogar um jogo que os militares não jogam há mais de 30 anos: o jogo do governo.

Os militares que de fato estão bem-intencionados – e eles existem – vão aprender com a experiencia, desde que não mantenham seus cérebros presos em redomas de paradigmas ultrapassados e possuam sinceridade intelectual e ética suficiente, para avaliar com franqueza o impacto das suas ações. Algumas canetadas vão beneficiar os brasileiros e outras poderão prejudicar milhões de pessoas.

E um governo em uma república existe para os cidadãos, se ele não assegura benefícios para toda a população deixa de ter razão de existir.

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