Com novo partido, Bolsonaro ampliará conflitos no Congresso

Colunista Tereza Cruvinel avalia que, "ao optar por um partido com a marca genética da extrema-direita, congregando o bolsonarismo mais sectário e radical, Bolsonaro nos diz que não está interessado na normalidade política, mas em seu oposto, na radicalização do processo, no fortalecimento dos bolsões mais exaltados e na imposição da pauta conservadora"

Jair Bolsonaro é, desde ontem, o primeiro presidente sem partido de que se tem notícia. Nada o impede, mas o presidente de um país às voltas com tantos problemas que decide criar e presidir um novo partido para chamar de seu passa a ideia de que pouco trabalha para o bem geral, dedicando a maior de seu tempo à politicagem.  A criação do partido bolsonarista deve ampliar os conflitos de Bolsonaro com o Congresso e prejudicar os projetos de interesse do governo, a começar pelo pacote fiscal de Paulo Guedes. Ontem o Senado alterou, via PEC paralela, um ponto importante da reforma previdenciária e hoje alguns vetos de Bolsonaro devem ser derrubados em sessão bicameral.

Muito já se falou sobre as dificuldades que Bolsonaro terá para coletar as 500 mil assinaturas, mesmo com a ajuda da Igreja Universal do bispo Edir Macedo. São conhecidos os trâmites burocráticos exigidos pelo TSE e a demora na concessão do registro, processo que tem levado de um a três anos. Para poder lançar candidatos à eleição municipal, o partido Aliança para o Brasil terá que estar registrado até abril do ano que vem.

Mesmo conseguindo o registro em tempo hábil, haverá o problema da perda do mandato pelos deputados que trocarem de sigla fora da janela partidária que precede as eleições gerais. E dificilmente o TSE concordará com o projeto dos dissidentes do PSL, de ficarem com parte do tempo de televisão e dos recursos dos fundos partidário e eleitoral, que somam quase R$ 800 milhões.

Parece também claro que ao optar por um partido com a marca genética da extrema-direita, congregando o bolsonarismo mais sectário e radical, Bolsonaro nos diz que não está interessado na normalidade política, mas em seu oposto, na radicalização do processo, no fortalecimento dos bolsões mais exaltados e na imposição da pauta conservadora. Ele também nos diz que está pouco interessado na governabilidade convencional, que pressupõe maioria no Congresso para tocar a agenda governamental, e isso reforça o receio de que, em algum momento, seu pendor autoritário falará mais alto e ele tentará alguma forma de golpe, se tiver força e apoio para isso, inclusive entre os militares da ativa, o que hoje não está no campo das probabilidades.

Mas é precioso também notar que, com a criação do novo partido, Bolsonaro ampliará seus conflitos como Congresso, criando alvoroço entre os partidos que lhe são mais próximos, embora não constituam exatamente uma base parlamentar. Ele promete levar para a APB 30 deputados do PSL e buscar outros 70 para formar uma bancada de 100. Para isso, terá que pescar nos partidos do Centrão, tais como DEM, PP, PR, PRB, PTB e similares.  Estar no partido do presidente é tentador para políticos alpinistas, apesar das incertezas que cercam a criação da Aliança pelo Brasil. Quando a pescaria começar, nada mais será votado, e o pacote de Guedes pode pagar o pato.

Até onde a vista alcança, Bolsonaro está dando um tiro no pé com a criação do novo partido. Ou é tão sábio que não conseguimos enxergar aonde ele quer chegar.  Façam suas apostas.

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