Com uma câmera na mão e uma máscara de gás na cara

"Com uma câmera na mão e uma máscara de gás na cara", mostra a visão de cinco jovens que documentaram os protestos de rua em 2013 no Rio de Janeiro, permeado o tempo todo por imagens dos manifestantes (...) A questão aqui não está fechada com uma determinada ideia, o que certamente causou incômodo a segmentos da política brasileira

Com uma câmera na mão e uma máscara de gás na cara
Com uma câmera na mão e uma máscara de gás na cara

Dando continuidade ao texto anterior sobre as jornadas de junho de 2013, em que destaco os principais pontos do ensaio “O 18 de brumário brasileiro” de Bruno Cava, queria trazer pra discussão um curta de um jovem diretor, Ravi Aymara.

"Com uma câmera na mão e uma máscara de gás na cara", mostra a visão de cinco jovens que documentaram os protestos de rua em 2013 no Rio de Janeiro, permeado o tempo todo por imagens dos manifestantes. O curioso título remete à frase símbolo da nouvelle vague (com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça), ao mesmo tempo que estabelece uma diferença fundamental em relação ao movimento francês da década de 60. A questão aqui não está fechada com uma determinada ideia, o que certamente causou incômodo a segmentos da política brasileira.

Como nos informa um dos jovens, Victor Belart, o importante é registrar, com o que estiver ao seu alcance, o acontecimento - neste caso, o material bruto torna-se mais importante que o editado. Ao mesmo tempo, Filipe Peçanha, que filmou as manifestações através de celular para a mídia ninja, ressalta o que ele chama de "baixa qualidade e alta fidelidade": os celulares seriam o modelo de uma visão subjetiva, ao contrário da estabelecida pela grande mídia com o seu olhar de fora; ainda que com uma edição rudimentar em relação à grande imprensa, no próprio processo de olhar, apontar e escolher, segundo Peçanha, já estaria implícita uma certa edição, ao contrário do puro registro. Essa perspectiva subjetiva contribuiria para o que Peçanha vai chamar de "mosaico de parcialidades". O próprio Daniel Peralta, outro envolvido no registro dos acontecimentos, no caso, para uma empresa de grande mídia, ressalta a questão da diferença desses registros ao comentar a liberdade do telespectador de mudar de emissora, caso não venha a concordar com o que está sendo veiculado. Por outro lado, ao contrário de Peçanha, Peralta admite, como cinegrafista, a dificuldade de ver as movimentações das ruas como um todo, e que sua preocupação está em registrar o que está acontecendo na hora a sua frente, eliminando assim a perspectiva subjetiva, conforme havia sido indicada por Peçanha.

Fabian Cantieri, autor de "Balão Negro", média metragem que também documenta os protestos, vai colocar algumas reflexões, dentre as quais, a diferença entre cinema e internet. Para Cantieri, seria importante construir imagens de uma natureza diferente da internet, de maneira que pudesse estar implícito o tempo de maturação das ideias, próprio do cinema. Por outro lado, segundo Cantieri, ao contrário do olhar da grande mídia, a importância de presenciar o fato, como fazem esses novos cinegrafistas, implicaria uma outra perspectiva, um novo ângulo.

Sobre a questão do quebra-quebra, que o próprio Peçanha reconhece como um ponto de discórdia dentro do movimento de ocupação das ruas, mas que, segundo ele, teria sido responsável pela maior visibilidade do protesto, Daniel Peralta entende como o fato mais relevante das manifestações, ainda que, pessoalmente, discordasse do ato. Peçanha coloca a questão clássica sobre o vandalismo efetuado diariamente pelo Estado contra o cidadão comum, e Michel de Souza, autor do curta "No Olho do Furacão", comenta o fato de que o quebra-quebra na ALERJ, ao contrário do que teria sido alardeado pela secretaria de segurança, não foi obra de vândalos profissionais, e sim de trabalhadores do centro e moradores de rua.

Uma outra questão trazida à baila foi a repressão por parte dos manifestantes. Se Victor Belart, conforme comentou, ao registrar o quebra-quebra na ALERJ, não sofreu nenhum tipo de repreensão por parte dos manifestantes, tendo observado inclusive o rosto descoberto deles, a sinalizar uma certa transparência por parte dos que estavam depredando o patrimônio público, no caso de Michel de Souza, ao fotografar a tentativa de incêndio de uma agência bancária, acontece o contrário: é abordado com violência por parte desses manifestantes. Michel de Souza comenta também a violência sofrida pela grande imprensa, tendo observado, por exemplo, um câmera de TV sendo chutado pelos manifestantes (sua conclusão é que esses manifestantes viriam a fazer com a grande imprensa a mesma violência que reclamam sofrer por parte desta, e que, se não fosse essa imprensa, as manifestações não teriam ganho o mesmo peso).

Sobre a questão da repressão policial, Peçanha sentiu, por parte da polícia, a falta de um representante que pudesse negociar com os manifestantes, de modo a conduzir a manifestação, ao invés de partir para o ataque - e que, maior ato de vandalismo não foi o impetrado a uma propriedade por parte dos manifestantes, e sim, ao corpo humano através de balas de borracha, gás lacrimogênio e spray de pimenta por parte da polícia.

Michel de Souza, no tocante à reação policial, viu um mix de amor e ódio, tendo percebido que muitos deles nem gostariam de estar ali. Já Cantieri observa que a preocupação policial não era só dispersar: "muitas vezes dispersavam e continuavam a correr atrás". Nesse momento, a perspectiva de Daniel Peralta é a que vai mostrar maior perversidade (o fato de estar trabalhando para uma empresa de grande mídia não se fará isenta de consequências): "para mim tanto faz se a polícia vai bater ou não; quanto mais coisas acontecerem, melhor pra mim; há exageros por parte dos policiais, mas eles estão cumprindo o papel deles".

Já Michel Belart alega o mal preparo dos policiais (o fato de serem mal remunerados) para a falta de respeito por parte deles em relação aos manifestantes; e que, numa manifestação de 100 mil pessoas, a fronteira entre o protesto pacífico e o caos, é realmente mínima.

A cena mais marcante para cada um deles, deixa claro esse mosaico de parcialidades que o curta de Ravi Aymara vai mostrar, sublinhando um cinema constituído por várias vozes, muitas vezes destoantes entre si, formando mini-narrativas dissonantes:

para Michel de Souza, a cena mais marcante foi a invasão da ALERJ, em que a polícia sai correndo dos manifestantes, fazendo entrever a fragilidade do Estado diante da força popular; para Filipe Peçanha foi a manifestação diante da tv globo, empresa que encarnaria o monopólio das comunicações; já para Daniel Peralta, o momento mais marcante sempre é a primeira pedra, rompendo o silêncio e instaurando o caos; para Fabian Cantieri, o mais marcante é o fato de que as cenas violentas cada vez mais impactam menos - como se à medida que fôssemos levando porrada, fôssemos ficando menos sensíveis; por fim, para Victor Belart, a cena mais marcante foi a polícia indo pra cima de 1 milhão de pessoas nas ruas.

Concomitante a esse mosaico de pontos de vistas, as cenas das manifestações vão se transcorrendo, chamando-nos atenção para dois momentos distintos: quando um policial se dirige a um manifestante, dizendo - "Tá com a identidade? Tu é um viciado maldito!"; e num outro momento, quando um manifestante se dirige a um policial - "quebrou a câmera dele; eu perguntei que homem era você; você é um covarde!".

Sejam nas imagens, sejam nas declarações dos cinegrafistas, o curta de Ravi Aymara vai explorar sobretudo as diferenças de vozes, de matizes, transformando a polarização maniqueísta da grande mídia num enfoque mais rico e menos imediatista. Equidistante da internet e da grande imprensa, o cinema, retomando a sugestão de Fabian Cantieri, talvez seja o lugar mais adequado para a construção de uma imagem que requer uma maior maturação das ideias.

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