Comissão de fábrica mostra raiz da fidelidade à Lula

"Centro da mobilização operária pela liberdade de Lula, a Comissão de Fábrica da Ford é um exemplo de resistência reconhecido pelos trabalhadores e estudiosos da luta social do país" escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. "Não é só o destino pessoal de nosso maior líder que está em jogo", diz José Quixabeira de Anchieta, o Paraíba, coordenador da Comissão. "São conquistas e direitos que acumulamos em décadas de muita luta". Emocionado com a criação de um comitê comprometido com sua libertação, Lula mandou uma carta de Curitiba:"quando fiquei sabendo que vocês fizeram uma assembléia tive certeza de que a luta sempre continua"

"Centro da mobilização operária pela liberdade de Lula, a Comissão de Fábrica da Ford é um exemplo de resistência reconhecido pelos trabalhadores e estudiosos da luta social do país" escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. "Não é só o destino pessoal de nosso maior líder que está em jogo", diz José Quixabeira de Anchieta, o Paraíba, coordenador da Comissão. "São conquistas e direitos que acumulamos em décadas de muita luta". Emocionado com a criação de um comitê comprometido com sua libertação, Lula mandou uma carta de Curitiba:"quando fiquei sabendo que vocês fizeram uma assembléia tive certeza de que a luta sempre continua"
"Centro da mobilização operária pela liberdade de Lula, a Comissão de Fábrica da Ford é um exemplo de resistência reconhecido pelos trabalhadores e estudiosos da luta social do país" escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. "Não é só o destino pessoal de nosso maior líder que está em jogo", diz José Quixabeira de Anchieta, o Paraíba, coordenador da Comissão. "São conquistas e direitos que acumulamos em décadas de muita luta". Emocionado com a criação de um comitê comprometido com sua libertação, Lula mandou uma carta de Curitiba:"quando fiquei sabendo que vocês fizeram uma assembléia tive certeza de que a luta sempre continua" (Foto: Paulo Moreira Leite)

Acompanhando Lula nas lutas sociais por quase 40 anos, a Comissão de Fábrica da Ford agora assume o combate político prioritário de 2018 para defender a libertação do ex-presidente da República, preso político numa solitária da Lava Jato em Curitiba.

"Sabemos que eles querem manter o Lula na prisão pelo menos até a eleição, para impedir que seja candidato. Mas esperamos que ele seja libertado antes," diz o metalúrgico José Quixabeira de Anchieta, 55 anos, coordenador da comissão de fábrica, trabalhador da Ford desde 1983, mais conhecido como Paraíba, em função do local de nascimento, Souzas, a 438 quilômetros de João Pessoa."Não é só o destino dele que está ameaçado. São nossos direitos e conquistas que correm risco". 

Organizada em 1981, com a participação direta do próprio Lula, e desde então objeto de um respeitável conjunto de estudos acadêmicos onde é vista como referência para  organismos de base do movimento operário brasileiro, a Comissão de Fábrica da Ford é um desses instrumentos ao mesmo tempo  essenciais e frequentemente invisíveis na vida política de um país.

Não tem utilidade somente na solução de dramas menores na aparência, como o tratamento intolerável de uma chefia, a melhoria na qualidade da alimentação servida nos refeitórios, sem falar  na negociação de benefícios importantes particulares nas  campanhas salariais, -- como estabilidade no emprego, essencial nos pavorosos dias que correm, assegurada até novembro de 2019, pelo último acordo. Desde os tempos da ditadura militar a Comissão tem um papel histórico como reforço à musculatura dos trabalhadores para buscar reverter uma situação política desfavorável,  na qual não lhes resta outra saída a não ser tentar -- por todos os meios -- inverter uma relação de forças desfavorável ou pelo menos sofrer o menor dano possível.

Autor de estudos indispensáveis sobre as lutas operárias daquele período,  em particular nas empresas do ABC paulista, o sociólogo e professor livre-docente da USP Iram Jácome Rodrigues escreve que "se a classe trabalhadora não tivesse entrado de forma aparentemente abrupta no cenário político no final dos anos 1970 e por toda a década de 1980, talvez a história da transição para a democracia fosse outra".

Dias depois da prisão de Lula em São Bernardo, numa cena dramática  acompanhada de perto por três centenas de militantes mais ativos da comissão da Ford que foram ao Sindicato, as lideranças concluíram que era preciso "fazer um pouquinho mais" conta  Paraíba. Todos concordaram que "a prisão fora demais, um absurdo total", e que dali por diante era preciso pensar com antecedência, para "não resolver as coisas na fogueira, de última hora".  

A proposta de convocar uma assembléia dos 2700 trabalhadores da fábrica, na estacionamento da própria Ford, era uma ideia natural, pois iria atrair mais gente. Quando um executivo da empresa insinuou que a direção da fábrica poderia se proibir o encontro naquele lugar, os operários rebateram dizendo em troca iriam cruzar os braços. A assembléia acabou realizada no lugar que a comissão queria e atraiu 80% dos operários, uma presença como há muito não se via. "O melhor foi a vontade de participação" diz Paraíba. "Todas as seções na fábrica quiseram criar seu material de propaganda e desenhar a própria faixa, seu cartaz, pintar a faixa de seu próprio jeito, deixando claro que todos haviam ficado indignados com a prisão e queriam fazer alguma coisa".

Os operários gravaram e mandaram  um vídeo para Curitiba, com a mensagem "Bom Dia, Lula". Organizaram uma caravana de representantes para o 1o de Maio na capital do Paraná, além de convocar os demais a comparecer vão participar de uma caminhada do Sindicato de Metalúrgicos até a matriz de São Bernardo.  Informado da assembléia na Ford, Lula enviou ao sindicato uma carta de três parágrafos: "quando fiquei sabendo que vocês fizeram uma assembléia na Ford, para conversar com os trabalhadores sobre minha prisão injusta, a situação do país, e que inclusive resolveram criar um comitê em minha defesa; aí sim tive a certeza de que a luta sempre continua".

Nos oito anos em que passou na presidência da República, Lula teve três contatos diretos com os trabalhadores da Ford e a Comissão. Em 2006 e 2010, apareceu na empresa para conversar com os operários e pedir pedir votos. Em 2005, quando a Ford Mundial formulou um plano de reestruturação que suspendia a produção do modelo Ka, com a eliminação de empregos em nível pornográfico, Lula sentou-se com executivos e sindicalistas para negociar uma solução menos sangrenta.  A produção do Ka prolongou-se até 2013.

A história da formação da Comissão de Fábrica da Ford guarda uma intrigante semelhança com o país de hoje, quando a população enfrenta o mais agressivo retrocesso da história brasileira em 80 anos, seja nos ataques aos direitos do trabalho, seja nos riscos que envolvem nossa democracia.

Embora elementos essenciais da paisagem tenham se modificado, seja nos locais de trabalho, nos hábitos e comportamentos de todas as pessoas, sem falar em mudanças tecnológicas impensáveis há quatro décadas, a começar pela força da internet, um personagem central não se modificou -- e é impressionante que seja assim.

Aos 72 anos, quase inteiramente calvo, barbas brancas, Luiz Inácio Lula da Silva continua no centro da vida política de  um país que, apesar de inúmeras melhorias e progressos, em grande parte estimulado pelos governos que ele construiu e inspirou, abriga os mesmos dramas e tragédias daquela nação onde emergiu como uma liderança única, capaz de cumprir um destino que até hoje surpreende a todos.

Aos 34 anos, cabelos negros, barbas imensa e desgrenhada, há três décadas e meia a compreensão de que a "luta sempre continua"  representou um papel essencial na constituição da comissão de fábrica da Ford. Em 1980 Lula foi preso por 31 dias, num esforço da ditadura para quebrar a espinha de um movimento sindical que se transformara na principal peça de resistência contra o regime. Seu mandato de dirigente sindical foi cassado com base no pretexto de que havia dirigido uma greve considerada ilegal pela Justiça trabalhista mas a medida não atingiu sua liderança real. Fora da entidade, ajudou a eleger uma nova diretoria e, nessa condição, mantinha a posição de liderança maior da luta social brasileira.

Em março de 1981, Lula e outros dez dirigentes sindicais também foram condenados a três anos e meio de prisão. A decisão foi celebrada num editorial da revista VEJA, que comemorou a punição da "costumeira balburdia de grupelhos extremistas, clérigos de esquerda, políticos oportunistas e teóricos diversos, tentando, cada qual a seu modo, influir e mandar no movimento sindical". O texto era assinado pela iniciais JRG,  de José Roberto Guzzo, o que demonstra que Lula também enfrenta adversários com muitos anos de estrada. Em abril de 2018, quando é colunista da mesma revista, Guzzo empregou palavras tenebrosas em seu twitter para  condenar os ministros do STF que afastaram as delações de executivos da Odebrecht sobre o Sitio de Atibaia das mãos de Sérgio Moro: "Toffoly, Lewandovski e Gilmar, reforçados pelo colega Marco Aurélio Mello, são um convite permanente à intervenção militar -- ou golpe, como se queira."

Em 1981, a festa dos adversários durou pouco, porém. Autorizado a cumprir pena em liberdade, pois se tratava de réu primário, três meses depois de condenado Lula estava presente numa assembléia da Ford que aprovou uma greve de seis dias.Conforme uma reportagem da Folha de S. Paulo, Lula "pediu aos operários para entrar na fábrica, perfurar os cartões de ponto e permanecer de braços cruzados". A reivindicação principal dos trabalhadores, que consistia na readmissão de 457 demitidos, não foi atendida. Mas a mobilização garantiu quatro meses de estabilidade no emprego -- conquista respeitável numa conjuntura de recessão brutal -- e permitiu o reconhecimento da comissão de fábrica, até então perseguida pela empresa.

Em 2018, eles celebram os filhos que puderam entrar na faculdade, o crediário que permitiu lotar o estacionamento da empresa de automóveis zero km e outros benefícios que só podiam invejar, de longe, na vida dos brasileiros melhor classificados na nossa pirâmide. Sabem que uma coisa tem a ver com a outra e tudo remete, por um ou outro caminho, a uma história de muita luta. A comissão nasceu de enfrentamentos por causas básicas, quando os trabalhadores faziam até greve de fome para garantir refeições mais nutritivas para suportar o trabalho pesado.

Não é difícil entender por quê Lula pode estar recolhido numa solitária -- mas uma parcela cada vez maior de brasileiros e brasileiras entende seu lugar e luta por sua liberdade. Para aqueles homens e mulheres que conhecem o lado mais difícil da existência num país tão rico e tão desigual, luta representa um combate civilizatório. Concorda?

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