Como a Alemanha deveria servir de exemplo ao Brasil no universo da informação

Conforme se aproximam as eleições municipais brasileiras e presidenciais norte-americanas, cada vez mais vemos os estragos que a internet pode trazer às sociedades. Facebook, Twitter, Instagram, inundados de fake news, mensagens de ódio e todos os tipos de negatividades



Conforme se aproximam as eleições municipais brasileiras e presidenciais norte-americanas, cada vez mais vemos os estragos que a internet pode trazer às sociedades. Facebook, Twitter, Instagram, inundados de fake news, mensagens de ódio e todos os tipos de negatividades. Além disso existem as “correntes” passadas pelos novos sistemas de telefonia, sobretudo o Whatsapp, que também atingem milhões de pessoas independentemente do quão absurdas e esdrúxulas sejam as informações veiculadas.

Quem não se lembra da multidão bolsonarista gritando “Whatsapp! Whatsapp!” à cara dos jornalistas em Brasília após o atual presidente ser eleito? E a participação dos youtubers na ascensão do Neonazifascismo no Brasil? Quantos milhares de postagens com informações falsas e destrutivas, produzidas de forma calculada e industrial, atingiram a população que as consumia cegamente?

Mentiras sempre existiram no mundo eleitoral, mas a nova máquina de fake news apresentada ao mundo no século XXI é algo que ainda está completamente fora do controle. E a disseminação do discurso de ódio idem. Os comandantes das redes sociais ora por incompetência ora por má-fé (ou os dois juntos) permitem há anos que todos os dias inverdades ligadas à História e à Ciência sejam propagadas por todo o planeta.

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Os que possuem um compromisso para com a verdade e a honestidade em termos de informação são uma gota d’água em um mar de mentiras e de conteúdo preparado para dirigir o povo aos interesses dos grupos que financiam toda esta nova indústria. Por mais que nós antifascistas utilizemos também as redes sociais, ainda assim nosso poder nelas é incomparável ao dos produtores de desconhecimento e ódio. Os números estão aí para quem quiser averiguar.

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Mas tudo isso que descrevi acima – e que não é novidade para ninguém que possua mínima consciência sobre o mundo que vivemos – é só introdução. O que quero trazer hoje à cara leitora e ao caro leitor é uma reflexão sobre como todo este universo da informação poderia e deveria ser. Para tanto, vou comparar o cenário brasileiro ao alemão, uma vez que ambos se encontram em lados opostos no espectro desta temática.

Para começar, temos de lembrar que o conceito brasileiro de “notícia” já nasceu errado, muito antes de sonharmos com algo chamado internet. Quando uma empresa privada como a Globo domina o mundo da informação em um país, se está condenado à tragédia social. Uma multinacional comandada por uma família bilionária que dirige a informação e a desinformação da maneira que bem entende, unicamente em nome dos interesses seus e das elites? Sim, era a receita ideal para que o país chegasse onde chegou. E, é claro, embora a Globo seja o gigante maior de toda a catástrofe, outras televisões privadas menores também são cúmplices nos crimes, como SBT e Record, por exemplo, cada qual com suas peculiaridades.

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Bem, este é o primeiro problema: a informação em mãos privadas, no controle de empresários, sendo trabalhada por décadas em nome do capitalismo e do elitismo. Aqui na Alemanha ocorre exatamente o oposto. As duas TVs nacionais e a central de rádio (as três fundadas após a Segunda Guerra Mundial) são instituições plenamente públicas, dirigidas pelo governo alemão. São financiadas em parte por impostos e em parte através de taxas específicas pagas pela população (com a exceção de pessoas que não possuem condições financeiras e de portadores de deficiências físicas ou mentais). Desta forma, ainda que estas três instituições estejam longe da perfeição, elas são de fato neutras e respondem ao estado e à população, ao invés dos interesses de uma minoria bilionária, como no caso do Brasil.

Dito isso, a credibilidade destas televisões é muito grande perante o povo da Alemanha. Uma pesquisa publicada esta semana (Infratest-Dimap) indica que exatamente 80% da população considera a TV e a rádio alemãs confiáveis e fidedignas. E eu me coloco nesta maioria. Ainda que eu tenha muitas críticas, reconheço que o trabalho é feito de maneira decente e honesta.

Então esta é a primeira questão: o Brasil já no século XX não possuía meios de informações confiáveis, por serem privados. Sabemos de toda a culpa que a Globo carrega na Ditadura Militar, no Golpe de 2016, na demonização do PT e na prisão de Lula, entre muitos outros eventos. Chegamos assim ao século XXI e um novo mundo se abriu aos nossos olhos. A Globo rapidamente virou “ponto com” e prosseguiu ininterruptamente com suas intenções de sempre. Mas surgiram também as redes sociais e aí o que já era podre foi de uma vez por todas ao esgoto. A falta de educação do brasileiro que o impede de discernir o verdadeiro do inverdadeiro, o real do irreal, o histórico do anti-histórico e o científico do anticientífico, gerou o campo ideal para que o país se tornasse hoje uma das capitais do Neonazifascismo no planeta.

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Pois bem, aqui na Alemanha a internet obviamente chegou da mesma forma. Entretanto, graças a um sistema de Educação forte e inteiramente público, o povo do país não é suscetível à corrosão mental que destruiu grande parte da sociedade brasileira. Os neonazistas bem que tentam utilizar as estratégias de Trump e Bolsonaro, mas seu sucesso é muito limitado. Isso é comprovado pela mesma pesquisa que citei acima. Perguntadas se acreditam que as redes sociais Facebook, Instagram e Twitter merecem sua confiança em termos de informação veiculada, apenas 6,3% das pessoas disseram que sim. Com relação a vídeos no Youtube o número é um pouco maior, mas ainda assim configura absoluta minoria: 18% confia no que assiste. O WhatsApp nem ao menos foi abordado na pesquisa, pois a “cultura das correntes”, que muitos brasileiros prezam tanto, não chegou aqui – e acredito que não chegará.

Ou seja, não há segredos: existem dois pontos basilares para que um povo não se transforme em gado seguidor de quem lhe prepara o abate. E estes pontos devem caminhar lado a lado. Um deles é obviamente a Educação. Em meus estudos de análise política, abordo quatro países: Alemanha, Brasil, EUA e Israel. E é impressionante a diferença na questão da consciência política entre os povos dos países que possuem boa Educação (Alemanha e Israel), e os países que possuem péssima Educação (Brasil e EUA). É claro, não necessariamente o povo consciente vota pela Democracia, pela Justiça Social e pelos Direitos Humanos. Este é o caso de Israel, que permite que um monstro como Netanyahu governe há 12 anos. Mas lá o problema é outro, muito mais complexo. Não é inconsciência política, não é ignorância eleitoral, como é em grande parte no Brasil e nos EUA.

E o segundo ponto é a máquina de informação que paira sobre a sociedade. Se ela é privada e trabalha antes de mais nada em nome de seus próprios interesses, inclusive colocando-se acima da verdade, o povo certamente sucumbirá diante de tal bombardeio de informação ilegítima. Se a máquina é estatal e minimamente decente e honesta, o povo estará a salvo de cânceres bolsonaristas, trumpistas e outros, que vimos se alastrar em suas respectivas sociedades. (Aproveito para lembrar que nos EUA a situação neste âmbito é semelhante à do Brasil. FOX, CNN, NBC já fizeram e ainda fazem danos imensos à sociedade estadunidense).

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Por fim, fica a pergunta: agora que o estrago está concretizado no Brasil, como devemos proceder? O que devemos almejar? Ora, precisamos derrubar o governo neonazifascista, eleger um governo que trabalhe pelo e para o povo, como foram os governos de Lula e Dilma. Mas desta vez é necessário que haja ainda mais investimento em Educação e muito combate às famílias bilionárias que comandam a informação no país. Árduo e longo caminho? Sim. Mas esta é a realidade. Afinal, já foi provado que a equação “ignorância mais desinformação” resulta em Nazifascismo.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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