Como a literatura fez de mim um atleta
Homenagem ao Dia Mundial do Livro, 23 de abril
Tudo começou com Monteiro Lobato.
Caçadas de Pedrinho foi a primeira grande leitura da minha infância. Depois vieram Reinações de Narizinho, A Chave do Tamanho, O Picapau Amarelo e todos os outros. Ainda hoje, tantos anos depois, lembro com muita nitidez da alegria intensa e concentrada com que eu lia estes livros, das tardes inteiras que passei com eles, sem esforço ou cansaço.
Júlio Verne veio em seguida e foi então o tempo das aventuras em lugares distantes e maravilhosos: Miguel Strogoff, A Ilha Misteriosa, Vinte Mil Léguas Submarinas... O mundo ficava maior e eu crescia.
Os Meninos da Rua Paulo, do húngaro Ferenc Molnár, foi o último livro da minha infância e, à época das aventuras, sucedeu o tempo da ternura: quem poderia jamais esquecer de Clarissa, do Érico Veríssimo? Ou de O Amanuense Belmiro, do Cyro dos Anjos? Ou ainda de O Feijão e o Sonho, do sempre admirável Orígenes Lessa?
E aí aconteceu o encontro decisivo com Machado de Assis. Lendo Memórias Póstumas de Brás Cubas, eu tive, pela primeira vez, a certeza instintiva e imediata de que aquilo era algo grandioso e incomum, um acontecimento novo e inesperado no mundo.
Depois, muito depois, já adulto, percebi que não conseguia mais ler com aquela mesma intensidade. O interesse pelos livros continuava o mesmo, embora, com o trabalho e as outras obrigações, eu tivesse agora bem menos tempo. O problema não era a falta de tempo, era a qualidade da atenção, que antes era tão mais completa. Bastavam alguns minutos sentado e lá me vinha uma inquietação que não me deixava ler sossegado. Achei que devia ser falta de exercício e comecei a nadar todo dia pela manhã. A mudança foi surpreendente: aquela inquietação desapareceu e eu recuperei a qualidade da minha atenção, podendo ficar de novo lendo por horas sem interrupção.
Foi nesse período que eu li todos os romances e contos de Lima Barreto, as deliciosas Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antonio de Almeida, e que comecei a ler Dickens e Balzac. Tudo parecia ir muito bem até que eu decidi ler os autores russos. Já nas primeiras páginas de A Morte de Ivan Ilitch senti um cansaço enorme. Eu não estava preparado para ler Tolstói. Além de nadar, passei a fazer 150 flexões e 250 abdominais todos os dias e, graças a esse treinamento adicional, em pouco tempo eu pude ler não só Tolstói, mas também Turguêniev e Gogol.
Quando eu comecei a ler Crime e Castigo, porém, voltaram o cansaço e uma enorme dificuldade de manter a atenção. Novamente senti que meu preparo não era suficiente: Dostoiévski exigia mais, porém o quê? Não demorei a encontrar a resposta: halterofilismo. Entrei numa academia e comecei a levantar pesos pelo menos três vezes por semana. O halterofilismo me ajudou a conseguir finalmente ler Os Irmãos Karamázov, Os Demônios e O Idiota.
Não tive problemas depois para ler Os Buddenbrook, A Montanha Mágica e O Doutor Fausto, de Thomas Mann. As leituras fluíam e eu passei a adorar os domingos de chuva, que me davam o pretexto ideal para ficar em casa lendo por horas a fio, sem culpa.
Por causa de O Doutor Fausto e de todas as alusões à vida de Nietzsche que Thomas Mann colocou nessa sua maior obra, fiquei curioso de ler alguma coisa desse solitário pensador alemão. Desta vez me preparei bem antes. O que mais se precisa para ser um bom leitor de filosofia é elasticidade, por isso passei a dedicar pelo menos meia hora todos os dias a fazer alongamento, e só depois de algumas semanas dessa prática é que decidi tentar ler Assim Falou Zaratustra. O esforço valeu a pena: senti ainda algumas dores, Nietzsche não é fácil, mas consegui ler até o fim e acho que entendi alguma coisa.
Na vida de todo leitor chega o triste momento de decidir o que não ler. Não dá para ler tudo e há que fazer escolhas, ainda mais porque, além de ler, é preciso reservar tempo para reler, o que é tão importante quanto ler. E, para continuar mencionando autores de língua alemã, dois escritores que eu já sei que não vou ler são Robert Musil e Hermann Broch. Para quem tem vontade de ler O Homem sem Qualidades ou A Morte de Virgílio, acho que a preparação ideal seria uma combinação de tai chi, alpinismo e ginástica olímpica.
Marcel Proust, por outro lado, é um autor que eu tinha muita vontade de conhecer e, quando chegou o dia de me lançar a Em Busca do Tempo Perdido, tive que enfrentar um novo problema. Se Dostoiévski exige força, Marcel Proust requer sobretudo resistência, muita resistência. Para aumentar a minha resistência, passei também a correr. Terminei O Caminho de Guermantes na mesma semana em que completei a minha primeira meia maratona.
Por esse tempo eu já tinha me tornado um atleta-leitor ou um leitor-atleta. Eu sentia vagamente, no entanto, que alguma coisa faltava na minha vida e nas minhas leituras, mas eu não sabia o quê. Nietzsche veio em minha ajuda e eu descobri a dança. Todos os fins de semana eu ia dançar – forró, gafieira, samba. E, graças à dança, eu pude finalmente ler a poesia de Jorge de Lima, a prosa de Guimarães Rosa e a mágica literatura latino-americana que até então eu desconhecia. Pude ler Jorge Luis Borges e Juan Carlos Onetti, García Márquez e Augusto Roa Bastos. A dança abriu para mim todo um novo mundo de leituras e trouxe a poesia para a minha vida.
Ler não é simplesmente ler. É um aprendizado permanente, que exige dedicação e preparo, esforço e ritmo. Aliás, como tudo na vida.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
