Como a mídia corporativa constrói narrativas e disputa poder no Brasil
Sob o discurso de neutralidade, a mídia corporativa seleciona, omite e tipifica fatos, influenciando a percepção pública e a própria escolha do voto
Em meio à intensificação do debate político no Brasil, especialmente às vésperas de mais um processo eleitoral, volta ao centro da cena uma questão decisiva, ainda que muitas vezes naturalizada, como o papel da mídia corporativa na construção de narrativas que orientam a opinião pública. Longe de atuar apenas como mediadora dos fatos, parte significativa desses veículos tem operado por meio de seleções, enquadramentos e silêncios que revelam interesses e disputas de poder, influenciando não apenas o que se noticia, mas como e para quem se noticia.
Karl Marx compreendia a imprensa comercial do século XIX não como uma instância neutra de mediação da realidade, mas como um instrumento ideológico funcional aos interesses da classe que detinha o poder econômico. Em sua análise, os veículos financiados pelo capital não apenas informavam, mas manipulavam a consciência social de modo a legitimar e perpetuar as relações de dominação e exploração das classes subalternas. A imprensa, portanto, operava como parte da superestrutura, contribuindo para a manutenção da hegemonia burguesa ao difundir valores e argumentos alinhados à ordem vigente.
Transpostos para o século XXI, esses mecanismos não apenas persistem, como se sofisticam sob as novas configurações do capitalismo financeiro, informacional e digital. A mídia corporativa contemporânea, embora revestida de um discurso de imparcialidade, equilíbrio e compromisso ético, frequentemente reproduz essa mesma lógica estrutural, atuando como porta-voz de sustentação dos interesses da classe dominante. É nessa perspectiva que se deve interpretar a reiteração de práticas jornalísticas que, sob a égide da neutralidade, operam por meio de seleções, omissões e expedientes argumentativos que falseiam a realidade.
O ex governador Leonel Brizola, um dos políticos mais relevantes do país, consolidou-se como uma das vozes mais incisivas contra o poder concentrado dos meios de comunicação no Brasil. Em diversas ocasiões, denunciou a Rede Globo como uma estrutura de influência desproporcional, caracterizando-se como um verdadeiro “monopólio de opinião” capaz de formar percepções coletivas e interferir no processo democrático. Para Brizola, a emissora não apenas informava, mas operava como um poder político, selecionando, enquadrando e, por vezes, distorcendo fatos de modo a favorecer projetos alinhados aos interesses das elites econômicas e à pauta liberal dominante.
Essas críticas não se restringiam a constatações sem comprovação. Brizola embasava suas denúncias em fatos concretos, como a cobertura controversa das eleições e o histórico alinhamento editorial da emissora com setores conservadores e liberais durante momentos decisivos da política nacional, incluindo o apoio à ditadura.
Nesse sentido, essa prática do Grupo Globo tende a reduzir a pluralidade de vozes e a influenciar a formação da opinião pública, sobretudo em um país marcado por desigualdades de acesso à informação qualificada.
A crítica de Brizola classificando a Rede Globo como “monstro” antecipou o debate sobre o papel da mídia corporativa na mediação da realidade social e política. Ao questionar a lisura ética dos veículos corporativos, Brizola chamava atenção para a necessidade de democratização da comunicação, transparência editorial e responsabilidade pública, princípios fundamentais para que a informação não seja instrumentalizada em favor de projetos de poder específicos, mas cumpra sua função social de informar com base na verdade, na diversidade e no compromisso com o interesse coletivo.
Entre o cálculo de custos e benefícios que orienta esse tipo de prática, observa-se que determinados conglomerados midiáticos optam reiteradamente pelo ganho político, ainda que à custa da verdade dos fatos. A atuação da Rede Globo revela esse padrão. Como venho sustentando em minhas análises sobre as mídias hegemônicas, há uma recorrência histórica de condutas que evidenciam essa lógica.
Recentemente, no programa Estúdio i, da GloboNews, canal de televisão por assinatura que opera mediante autorização pública e, portanto, submetido a deveres legais e éticos, a exibição de um PowerPoint associando, sem a devida comprovação, o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Banco Central do Brasil Gabriel Galípolo e o Partido dos Trabalhadores ao escândalo financeiro do Banco Master revelou não apenas uma falha grave, mas um padrão de edição que omitiu deliberadamente personagens centrais, cujas conexões ao banqueiro Daniel Vorcaro são sustentadas por evidências consistentes, tais como: Jair Bolsonaro (PL), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB) e o ex governador do do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL). Podemos mencionar ainda, o ex presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, atualmente executivo no Nubank em que o Grupo Globo tem participação acionária, deputado Nikolas Ferreira (PL), João Carlos Bacelar (PL), Ciro Nogueira (PP), Antônio Rueda, presidente do União Brasil, entre outros do campo da direita e da extrema direita.
A escolha editorial, nesse caso, não se mostrou fortuita, mas orientada por um cálculo que objetivou maximizar o impacto político da exposição, mesmo diante dos riscos reputacionais, jurídicos e institucionais inerentes à veiculação de conteúdo dessa natureza.
Em condições normais, a divulgação de informações dessa gravidade poderia ensejar sanções proporcionais, inclusive a revisão ou suspensão da autorização de funcionamento, uma vez que serviços de comunicação por assinatura não estão imunes ao ordenamento legal que as autoriza. Estão condicionados ao cumprimento de princípios como veracidade, responsabilidade editorial e interesse público. No entanto, a retratação posterior apresentada de forma visivelmente constrangida pela jornalista Andrea Sadi, âncora do programa, ao reconhecer os erros da arte exibida, mostrou-se insuficiente para reparar os danos causados. Isso porque, no plano digital contemporâneo, a desinformação, uma vez disseminada, ganha autonomia. O material indevido continuará a circular e a ser instrumentalizado de forma maliciosa nas redes sociais, perpetuando seus efeitos muito além da pseudo correção formal pelo canal.
Contudo, com a expansão das plataformas digitais e das redes sociais a arquitetura dos meios tradicionais de comunicação vem reduzindo a capacidade de influência unilateral historicamente exercida pela Rede Globo. Se, em décadas anteriores, a emissora operava em um ambiente de forte concentração midiática, na qual a difusão da informação era mais restrita, hoje esse cenário é tensionado por uma multiplicidade de publicações, canais e formatos que disputam a atenção pública em tempo real. O surgimento de aplicativos como WhatsApp, YouTube, Instagram e X ampliou o acesso à produção e circulação de conteúdo, permitindo que usuários e mídias independentes passem a interferir diretamente na formação da opinião pública. Esse processo contribuiu para a fragmentação da audiência e enfraqueceu, em alguma medida, a força do “monstro” Rede Globo.
Todavia, a atual descentralização não eliminou a influência da mídia tradicional, mas a reposicionou. A Globo ainda mantém uma efetiva repercussão entre o povo. Ainda define quais temas entram no debate público, especialmente por meio de seus telejornais e por meio de sua pseudo credibilidade há tempos questionada.
O papel obscuro da Globo não se limita ao seu histórico deletério pelo apoio à ditadura militar. Ele também se manifesta em sua contrariedade recorrente com relação às pautas dos governos democráticos e progressistas, manifestada frequentemente por narrativas insidiosas, bem como pela prática reiterada de afastar jornalistas com viés ideológico progressista. Um exemplo recente desse postura foi marcado pela demissão da competente jornalista Daniela Lima, entre outros profissionais renomados que tiveram o mesmo destino e hoje seguem exercendo seus ofícios em veículos que respeitam a autonomia de pensamento, principalmente nas mídias independentes, democratas e progressistas transmitas pela plataforma do Youtube.
Desta vez, segundo informações do site “Notícia da TV”, a GloboNews está articulando a demissão de até três profissionais por terem elaborado o infográfico exibido, poupando a âncora Andréia Sadi, que o levou ao ar. A decisão levanta questionamentos e sugere possíveis critérios de seletividade na responsabilização. Convém destacar que Sadi, ao longo do tempo, tem apresentado comentários e ilações recorrentes de viés negativo sobre o governo e seu staff.
Observa-se que a poucos meses do processo eleitoral, são intensificadas críticas levianas e insinuações dirigidas ao governo Lula, lideradas pela Globo e por veículos alinhados, como Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, financiados por setores da elite financeira. Esse movimento evidencia, de forma irrefutável, a inclinação política desses grupos.
Com o fracasso na viabilização de uma chamada “terceira via”, representada por nomes como Tarcísio de Freitas e Ratinho Junior preferidos da Faria Lima, o chamado Partido da Imprensa Golpista (PIG) parece redirecionar seu apoio para Flávio Bolsonaro. Em muitos casos, esse reposicionamento vem acompanhado de uma estratégia de suavização de sua imagem, ao destacá-lo apenas como “Flávio”, numa tentativa de dissociá-lo do peso funesto de seu sobrenome. Ainda assim, tal esforço não apaga sua irrisória trajetória parlamentar, marcada por limitações políticas e por sucessivas controvérsias envolvendo suspeitas de práticas de corrupção, amplamente noticiadas e investigadas.
Quanto aos demais nomes da direita e da extrema direita, como Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Romeu Zema, observa-se um tratamento complacente por parte desses mesmos veículos. Em nenhuma circunstância destacam, com o mesmo rigor, as limitações de suas gestões estaduais, frequentemente marcadas por resultados aquém do necessário em termos de desenvolvimento sustentável e inclusão social.
Em contraste com essa cobertura enviesada, a realidade dos fatos sobre o governo demonstra o melhor momento da economia do país com crescimento sustentável, expressivas políticas de redistribuição de renda, com ampliação de programas sociais e redução de desigualdades. Destaca-se a adoção de medidas de isenção fiscal voltadas às camadas de menor renda, aliviando o peso tributário, além de um cenário de alta empregabilidade. Soma-se a esses êxitos, o fato dos índices de inflação mantidos dentro do teto da meta e a reestruturação de políticas públicas em áreas essenciais, como saúde e educação, com investimentos e iniciativas que buscam recompor estruturas e ampliar o acesso a direitos básicos, avanços que, embora relevantes e verificáveis, recebem visibilidade desproporcionalmente reduzida diante do destaque dado às narrativas críticas.
Diante dessa materialidade, torna-se evidente que a disputa política no Brasil não se dá apenas no campo institucional, mas também no terreno da comunicação. A persistência de práticas seletivas, omissões e análises tendenciosas reforça a necessidade de um olhar crítico por parte da sociedade e de um compromisso mais incisivo com a democratização e a ética da informação. Em um ambiente assinalado pela pluralidade de vozes, cabe ao cidadão discernir, questionar e confrontar as informações a que tem acesso, reconhecendo que a qualidade da democracia está diretamente vinculada à integridade e à responsabilidade dos meios de comunicação.
É justamente nesse cenário de disputa de versões, em que a informação se converte em instrumento de poder que os dados mais recentes da realidade eleitoral brasileira devem ser analisados.
Segundo a pesquisa do Instituto Atlas Intel, publicada em 25/03, o candidato de extrema direita Flávio Bolsonaro aparece em uma simulação de segundo turno numericamente um pouco acima do candidato do presidente, Luís Inácio Lula da Silva. O dado, por si só, não pode ser lido de maneira isolada. Ele expõe uma fratura profunda entre projetos de país. De um lado, um programa marcado por traços autoritários e por um ultra neoliberalismo que tende a agravar a desigualdade social, de outro, um projeto democrático e progressista, orientado à redução dessas desigualdades e à reconstrução institucional após o período de desmonte conduzido por Jair Bolsonaro.
Diante dessa realidade, cabe questionar: até que ponto os resultados das pesquisas expressam escolhas realmente conscientes do eleitorado? E em que medida são influenciadas por perspectivas de uma realidade invertida imposta por narrativas enganosas da direita fisiológica e da extrema direita contra o atual governo progressista, somadas a um ambiente informacional marcado pela desinformação recorrente e por abordagens seletivas da mídia corporativa, especialmente do Grupo Globo?
Mais do que uma constatação numérica, os dados da Atlas Intel funcionam como um alerta indicador de que as forças democráticas e progressistas precisarão ir além da mera articulação institucional, consolidando maior coesão política e social, fortalecendo sua presença nos territórios e reativando sua capacidade de diálogo e mobilização junto à população.
Nesse horizonte, para reverter esse quadro e ampliar suas chances de reeleição, o governo Lula precisa combinar comunicação eficaz com resultados concretos percebidos no cotidiano. Isso implica melhorar a tradução das políticas públicas em linguagem acessível, disputar ativamente as narrativas nas redes digitais. Ao mesmo tempo, é fundamental reconstruir pontes com setores populares hoje permeáveis à desinformação, investindo em presença territorial, escuta ativa e campanhas que evidenciem, de forma clara, os contrastes entre projetos de país em disputa.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
