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Iara Vidal

Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

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Como é ser analfabeta na China

Entre o português que me formou e o chinês que ainda não decifro, descobri que uma língua não apenas traduz o mundo: ela também ensina a habitá-lo

Como é ser analfabeta na China (Foto: divulgação )
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Por Iara Vidal - Eu tenho 52 anos. Sou jornalista. Escrevo há décadas. Vivo das palavras. E, aqui na China, sou uma analfabeta. Não analfabeta em sentido figurado. Analfabeta mesmo.

Moro em Beijing há pouco mais de seis meses e comecei, há apenas duas semanas, meu curso de mandarim na Beijing Foreign Studies University (BFSU). Ainda estou engatinhando no aprendizado desse novo idioma.

Ao longo dessa minha nova vida por aqui, embora consiga me virar com aplicativos de tradução, continuo incapaz de ler placas, acompanhar uma conversa rápida na rua ou compreender o que um atendente tenta me dizer quando algo foge do roteiro esperado.

A primeira vez que me senti analfabeta

Durante minha primeira visita à China, em 2022, numa ida solitária ao mercado, foi a primeira vez que me percebi como uma “analfabeta” diante de uma língua e de um sistema que eu não dominava.

A experiência, atravessada por cansaço físico, dor e angústia, me levou a refletir sobre a exclusão vivida por pessoas não alfabetizadas e sobre como, hoje, o exercício da cidadania também exige acesso à tecnologia e inclusão digital.

A partir disso, contrastei os avanços chineses nessa área com o abandono da educação pública e da conectividade no Brasil sob o pesadelo que foi o governo Bolsonaro. Registrei essa reflexão no meu Diário da China, publicado na Revista Fórum, onde compartilhava a minha experiência em um país tão distante e diferente do meu.

Recentemente, precisei resolver um problema simples. Pelo menos parecia simples. Expliquei. Mostrei o tradutor. Repeti. O atendente respondeu. Eu não entendi. Ele falou de novo. Continuei sem entender. Ao final, a única coisa que ficou clara foi a negativa.

Voltei para casa frustrada. Não porque alguém tivesse me tratado mal, mas porque fui atravessada pela sensação de não conseguir existir plenamente dentro de uma língua que ainda não sei habitar.

Pensar com o português

Foi então que me lembrei de um texto que circulou no Dia da Língua Portuguesa, celebrado em 5 de maio, publicado aqui no Substack por uma brasileira. O perfil se chama Sintaxe à vontade, é assinado por Sharon Reis, e trouxe uma reflexão que ficou ecoando em mim por vários dias.

“Você não pensa em português. Você pensa com o português.”

A frase parece poética, mas talvez seja mais literal do que imaginamos.

Na postagem, Sharon cita um artigo da linguista Lera Boroditsky, professora da Universidade Stanford, que há anos estuda como diferentes idiomas moldam a maneira como percebemos o mundo.

No texto, publicado na Scientific American, Boroditsky relata o caso dos falantes da língua Kuuk Thaayorre, de uma comunidade aborígene australiana que não usa “direita” e “esquerda” para se orientar. Eles utilizam apenas direções cardeais: norte, sul, leste e oeste.

Uma criança de cinco anos daquela comunidade consegue apontar o norte com precisão. Professores universitários, cientistas premiados e pesquisadores de Stanford frequentemente não conseguem. Eu, particularmente, nem mapa sei ler.

A explicação é simples e fascinante: para falar aquela língua corretamente, é preciso saber o tempo todo onde está o norte.

A língua treinou o cérebro.

O português tem curvas

Quando li isso, comecei a pensar no português.

O português brasileiro é uma língua cheia de curvas, como define Sharon.

Raramente dizemos “não” diretamente. Preferimos “vamos ver”, “quem sabe”, “depois a gente conversa”.

Temos múltiplos tempos verbais para organizar o passado. Construímos frases longas. Adoramos contexto. Explicações. Justificativas.

O chinês funciona de outra maneira.

Os verbos não se conjugam como no português. O contexto faz muito do trabalho que, em português, entregamos à gramática. Uma mesma palavra pode mudar completamente de significado dependendo do tom. A escrita não representa sons por meio de um alfabeto, mas caracteres que carregam histórias, associações e camadas culturais acumuladas ao longo de séculos.

Não é apenas uma língua diferente.

É uma arquitetura mental diferente.

Uma realidade que ainda não sei habitar

Quando estou diante de um caractere que não consigo ler (ou seja, praticamente todos), não estou apenas diante de uma palavra desconhecida. Estou diante de uma forma de organizar a realidade que ainda não aprendi a habitar.

Talvez por isso a sensação seja tão intensa.

No Brasil, eu nunca precisei pensar sobre a língua. Ela era invisível. Como o ar.

Aqui, ela está em toda parte.

Ela aparece quando peço comida. Quando tento resolver um problema burocrático. Quando entro em um táxi. Quando leio uma placa na rua.

E, principalmente, quando percebo que minha inteligência continua intacta, mas minhas ferramentas desapareceram.

Há algo de profundamente humilhante nisso.

Mas também há algo libertador.

Porque viver como estrangeira me obrigou a enxergar algo que eu jamais teria percebido dentro do conforto da minha língua materna: não existe pensamento totalmente separado da linguagem.

As palavras não são apenas instrumentos para descrever o mundo.

Elas são parte do mecanismo que o constrói.

Talvez seja por isso que aprender uma nova língua seja muito mais do que decorar vocabulário.

É aceitar que existem outras maneiras de organizar o tempo, o espaço, a memória, as relações humanas e até a própria realidade.

Eu ainda não falo chinês.

Mas a China já começou a mudar a maneira como penso.

E talvez esse seja o primeiro passo para deixar de ser analfabeta.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.