Como em 1984, a sociedade civil se mobiliza na resistência democrática

"A página 3 da Folha desta quarta-feira me fez lembrar o jornal de 35 anos atrás, onde eu trabalhava, quando a sociedade civil se organizou na resistência democrática à ditadura militar que então vivia seus estertores", diz Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia, em referência à matéria intitulada "Comissão Arns, em defesa dos cidadãos _ Conquistas estão sob ameaça de retrocesso"; "Nenhum democrata deverá ficar omisso. Amanhã, a vítima pode ser você. Só a sociedade civil, mais uma vez organizada e mobilizada, poderá evitar o pior que já se desenha ameaçadoramente no horizonte"

Como em 1984, a sociedade civil se mobiliza na resistência democrática
Como em 1984, a sociedade civil se mobiliza na resistência democrática

Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia

A página 3 da Folha desta quarta-feira me fez lembrar o jornal de 35 anos atrás, onde eu trabalhava, quando a sociedade civil se organizou na resistência democrática à ditadura militar que então vivia seus estertores.

Sob o título “Comissão Arns, em defesa dos cidadãos _ Conquistas estão sob ameaça de retrocesso”, um artigo anuncia a nova mobilização da sociedade civil, desta vez para impedir que o Brasil seja novamente golpeado por um regime de exceção.

Em 1984, o país inteiro saiu às ruas em defesa das eleições diretas para a presidência da República, depois de 20 anos de generais presidentes, na maior campanha cívica da nossa História.

E a Folha foi o jornal das “Diretas Já”, desde o primeiro momento, acompanhando por todo o país as grandes manifestações pela volta da democracia.

Assinado por Maria Hermínia Tavares de Almeida, Luiz Felipe de Alencastro e Luiz Carlos Bresser Pereira, o artigo é um libelo contra o retrocesso que ameaça o país, cada dia mais, sob o novo governo, que ainda não completou nem dois meses.

O primeiro passo da Comissão Arns, criada por advogados, acadêmicos, intelectuais e jornalistas em defesa dos direitos humanos, será dado hoje, às 11 horas, na Sala dos Estudantes da Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, com a participação de vários ex-ministros dos governos FHC e Lula.

Não por acaso, a comissão será presidida pela minha grande amiga Margarida Genevois.

Prestes a completar 97 anos, essa grande líder da sociedade civil continua incansável na luta para denunciar as violações de direitos sob o governo do capitão Jair Bolsonaro.

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Margarida foi o braço direito e esquerdo de dom Paulo Evaristo Arns na presidência da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo nos mais tenebrosos períodos da ditadura militar.

Na solenidade do Largo São Francisco, será lido o manifesto com os preceitos que guiarão o trabalho da comissão.

Para quem não puder ir lá, seguem abaixo alguns trechos do artigo da página 3 da Folha em que os autores justificam a criação da Comissão Arns:

***

“Eleitos pelo sufrágio democrático, o novo governo federal e governos de alguns estados, bem como integrantes da base parlamentar situacionista, têm revelado compreensão acanhada dos direitos da cidadania e visão preconceituosa em relação a valores e comportamentos aceitos em qualquer sociedade diversa e complexa. Sem falar nas suas ideias simplórias, por vezes brutais e ilegais, para atender os justos anseios da população por segurança e paz.

“As instituições do Estado democrático são fortes e sólidas, mas nem por isso necessariamente aptas, por si sós, a se contrapor à propensão ao retrocesso do novo governo. Elas dependem, para tal, da mobilização ativa de todo quantos aspiram a que as promessas da Constituição de 1988 se realizem de forma plena.

“Essa é a motivação dos 20 fundadores da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos D. Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns – que nasce com o compromisso de identificar e denunciar aquelas ações do governo que firam a integridade física, a liberdade e a dignidade humana nesses tempos difíceis”.

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Nestas horas, nenhum democrata deverá ficar omisso. Amanhã, a vítima pode ser você.

Só a sociedade civil, mais uma vez organizada e mobilizada, poderá evitar o pior que já se desenha ameaçadoramente no horizonte.

Desta vez, eles não passarão.

Vida que segue.

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