Como escrever sobre Maradona sem ser poeta?

O relato deste episódio reflete o meu orgulho e privilégio de ter visto Maradona em campo presencialmente, mas, sobretudo, é a maneira simples que este escriba encontrou para abrir a homenagem a um gigante eterno como ‘”El pibe de oro”. Sim porque a alegria e o encantamento proporcionados por ele a milhões de corações são pura poesia

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Abalado pela notícia da morte de Maradona, decidi começar este texto relembrando a única vez que o vi jogar em um estádio de futebol. O bravo jornalista esportivo Mauro Cesar abriu sua coluna desta quarta-feira (25), no Portal UOL, também citando esta partida, acompanhada profissionalmente por ele.

O ano era 1989. Se não me engano, o mês era julho. A Copa América disputada no Brasil naquele ano previa uma rodada dupla noturna no Maracanã: Argentina x Uruguai fariam o primeiro jogo e Brasil x Paraguai o segundo. Programa imperdível para os amantes do futebol, dado o grande número de craques que desfilariam pelo gramado nos dois jogos, especialmente Maradona.

Engarrafado no trânsito do Rio, cheguei ao estádio já com a bola rolando. No exato instante em que olho para o campo, Maradona protagoniza uma dos incontáveis lances geniais de sua carreira.

Do meio de campo, ele encobre o goleiro uruguaio, mas a bola caprichosamente toca na trave. Presenciei um momento histórico: Diego tentara a única modalidade de gol que Pelé confessa não ter logrado êxito ao longo dos tantos anos em que deslumbrou o mundo com seu futebol extraordinário.

O relato deste episódio reflete o meu orgulho e privilégio de ter visto Maradona em campo presencialmente, mas, sobretudo, é a maneira simples que este escriba encontrou para abrir a homenagem a um gigante eterno como ‘”El pibe de oro”.

Sim porque a alegria e o encantamento proporcionados por ele a milhões de corações são pura poesia. No fundo, penso ser uma petulância escrever sobre Maradona sem ser poeta. Mas vamos em frente. 

“O mais humano de todos os deuses”, segundo a pena brilhante de Eduardo Galeano, amado pelo povo argentino talvez até mais do que Eva, Domingo Perón e Carlos Gardel o foram, Maradona foi além do reconhecimento de todo o planeta como um dos maiores jogadores de futebol da história.

Ele rompeu com o establishment e assumiu corajosamente suas posições políticas.

Escolheu ficar ao lado dos pobres, da justiça social, da igualdade, da soberania popular e da integração dos povos e nações latino-americanos. Portador da doença da dependência química de álcool e drogas, se viu obrigado a enfrentar o conservadorismo estúpido e moralista, para o qual  o cosumo de drogas é apenas uma questão de mais ou menos força de vontade, de mais ou menos vergonha na cara.

A ignorância e o preconceito cegam essas pessoas até para o fato de  a dependência química ser uma doença reconhecida como tal pela Organização Mundial de Saúde.

Voltando aos gramados, ficarão para sempre gravadas na parte da minha memória dedicada às coisas lúdicas e ao refinamento estético as jogadas de Diego com a camisa do Nápoli (devo a ele inúmeros domingos alegres, quando assistia pela TV a dupla maravilhosa que formava com o brasileiro Careca), da seleção argentina (sua performance espetacular na Copa do Mundo de 1986 tem lugar cativo na galeria dos grandes feitos do esporte), do Argentino Juniores e do Boca Júnior.

Tomo  emprestada a declaração do presidente da Argentina, Alberto Fernández: “Obrigado por ter existido, Diego Armando Maradona.”

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