Como faz bem rever um Roda Viva de 1988 com o bispo Pedro Casaldáliga

"Não é porque eu estava na bancada, mas aquele programa foi mesmo um inspirador exemplo de jornalismo, debate respeitoso de ideias e de crenças, com bom humor e momentos de muita emoção e polêmica", relembra o jornalista Ricardo Kotscho sobre um dos expoentes da Teologia da Libertação

Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia 

Para quem perdeu a fé no nosso jornalismo depois de ver o Roda Viva de segunda-feira com Glenn Greenwald, quero lembrar que nem sempre foi assim. E não precisa ser.

Por uma feliz coincidência, fui rever hoje a entrevista com dom Pedro Casaldáliga, de 1988, postada pela minha filha Mariana Kotscho no meu Face e no dela, que foi reapresentada pela TV Cultura na série “Roda Viva Retrô – Entrevistas Inspiradoras”, em fevereiro de 2018. Me fez muito bem voltar um pouco no tempo.

Não é porque eu estava na bancada, mas aquele programa foi mesmo um inspirador exemplo de jornalismo, debate respeitoso de ideias e de crenças, com bom humor e momentos de muita emoção e polêmica.

Casaldáliga, hoje com 91 anos e sofrendo do mal de Parkinson, um dos expoentes da Teologia da Libertação e bispo de São Félix do Araguaia, onde continua vivendo, apesar de todas as ameaças, estava no centro de uma polêmica com o Vaticano que queria cortar as suas asas e lhe pedira um “silêncio obsequioso”.

Mas esse homem nunca foi de guardar silêncio e soltou o verbo no programa, denunciando todas as injustiças dos grandes donos de terra contra posseiros, índios e agentes pastorais na sua região.

Éramos oito na bancada (hoje são apenas cinco), de diferentes pensamentos políticos e experiências profissionais, todos ainda jovens, mas já bem vividos na profissão.

Com a moderação do Augusto Nunes (então diretor da sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo), estavam lá:  William Waack (editor chefe do Jornal da Tarde, ex-global e hoje na CNN); Sergio Rondino (editor de política do Jornal da Tarde); Alex Solnik (da Folha da Tarde, hoje meu colega no portal Brasil 247); José Carlos Bardawil (da Istoé); Jan Rocha (correspondente da BBC); Marco Antonio Moraes (chefe de redação da TV Globo em São Paulo), Dermi Azevedo (da Folha) e eu, que era repórter especial do Jornal do Brasil em São Paulo.

Foi mesmo uma agradável roda viva de conversa, que certamente ajudou os telespectadores a conhecer melhor a vida e a obra deste bispo que batia de frente com o papa João Paulo 2º e a União Democrática Ruralista (UDR), de Ronaldo Caiado, hoje governador de Goiás, antigo líder da bancada ruralista no Congresso.

Perguntou-se a dom Casaldáliga tudo o que era possível nos 90 minutos de programa, sem deixar nada de lado, deixando o entrevistado falar, sem tomar partido nas respostas.

Afinal, o Roda Viva era uma espécie de entrevista coletiva, em que o repórter pergunta e o convidado responde, deixando para que cada um forme a sua própria opinião em casa _ exatamente o contrário do que aconteceu na segunda-feira.

Claro que nestas três décadas de intervalo _ na época, eu tinha 40 anos, menos do que as minhas filhas têm hoje _ mudaram os jornalistas e os bispos, o Brasil e o mundo, mas isso não quer dizer que naquele tempo os repórteres eram melhores ou piores.

Temos hoje excelentes jornalistas em todas as redações, mas nenhum deles foi convidado para entrevistar o editor do The Intercept que denunciou as maracutaias da Lava Jato.

Não sei quais foram os critérios para escolher uma bancada de desconhecidos, tão despreparados, mas foi algo esquisito.

Os cinco jornalistas, se é que podemos chamá-los assim, passaram o tempo todo fazendo os mesmos questionamentos, como num interrogatório policial, demonstrando um pensamento político único, de hostilidade ao entrevistado, que defendeu seu trabalho com altivez e fez uma profissão de fé na profissão.

Não se trata de comparar gerações, já que muitos daquela época continuam em atividade. E nós naquela época também éramos jovens.

Também não gosto dessa história de velho dizer que “no meu tempo era melhor”, essas bobagens.

Todo tempo pode ser bom, só depende da honestidade e da competência de quem exerce o sagrado ofício de informar a sociedade e fazer perguntas de seu interesse, com toda liberdade.

Quando fizemos a entrevista com dom Pedro, o país tinha acabado de sair da ditadura e havia uma grande demanda por conhecer melhor os personagens da nossa história recente, vetados pela censura.

Por isso mesmo, mais do que nunca, precisamos defender essa liberdade e a democracia, combater a intolerância, aceitar a diversidade e lutar por nossos direitos duramente conquistados.

Esta série do “Roda Viva Retrô” deveria ser exibida nas escolas de jornalismo para que os jovens tenham referências da profissão que vão exercer, assim como a entrevista de segunda-feira para mostrar a eles o que não devem fazer.

A primeira regra é que repórter nunca se deve achar mais importante do que o entrevistado para fazer beleza na televisão.

E vida que segue.


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