Como foi a primeira fase da operação militar russa na Ucrânia?

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REUTERS/Serhii Nuzhnenko (Foto: REUTERS/Serhii Nuzhnenko)


Desde 2014, quando a direita ucraniana realizou pela segunda vez um golpe de estado contra Yanukovich, grupos separatistas da região de Donbass e da Crimeia declararam independência em relação à Ucrânia. Luhansk e Donetsk, na região do Donbass, tornaram-se repúblicas independentes ao passo que a Crimeia foi anexada à Rússia. A população destas regiões é formada, em sua maioria, por russos étnicos. 

O governo ucraniano não reconheceu a independência e passou a travar uma batalha na região do Donbass, contra as repúblicas independentes. Para tanto, investiu em milícias privadas, como o conhecido batalhão neonazista Regimento Azov, regulamentado pelo Ministério do Interior da Ucrânia. Estimativas apontam que mais de quatorze mil civis morreram entre 2014 e 2022 no Donbass. As Forças Armadas da Rússia dizem ter descoberto um plano de ataque do exército ucraniano contra as repúblicas separatistas que geraria milhares de baixas civis e que a operação militar especial salvou estas vidas. O governo russo afirma que não começou esta guerra e que sua ação, ao contrário do que tem sido propalado pela mídia, está dando fim a ela. 

Após o início da operação militar russa, o governo ucraniano aceitou conversar sobre um possível acordo de paz e não demorou para o presidente ucraniano, Zelensky, anunciar que a Ucrânia não entraria para a OTAN. Recentemente manifestou a disposição de manter o status de neutralidade da Ucrânia. Nunca estivemos tão próximos do fim deste conflito. 

No dia 24 de fevereiro, após reconhecer as repúblicas separatistas, a Rússia entrou em território ucraniano e realizou bombardeios sobre alvos militares, embora a guerra também tenha vitimado civis. O mundo ficou surpreendido ao ver que o exército russo não limitou o seu ataque à região do Donbass. Bombardeios foram registrados em Kiev, o exército russo ocupou Chernobyl e direcionou um comboio de tanques de guerra para a capital. O governo russo, após anunciar o fim da primeira fase, explicou que tais ataques tinham o objetivo de auxiliar o movimento separatista em seu processo de independência, impedindo o exército ucraniano de atacar as repúblicas de Donetsk e Luhansk. Ao mover suas tropas para a região do Donbass, a Rússia corria o risco de sofrer com bombardeios vindos de Kiev e outras regiões do país. Por esta razão, o exército russo atacou bases militares e depósitos de armas em todo o país e manteve as tropas ucranianas ocupadas na defesa da capital e de cidades importantes como Odessa, enquanto garantia a ocupação efetiva do Donbass. Tal estratégia foi eficaz. Com um mês de guerra, a Rússia auxiliou os separatistas de Luhansk e Donetsk a exercerem o controle efetivo destas regiões. 

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Em Donetsk, a cidade que travou a batalha mais noticiada, e possivelmente a maior, foi Mariupol. Desde 2019, a Rússia, com o amparo da Human Rights Watch e da Anistia Internacional, denunciou que o Regimento Azov mantinha um campo de concentração no aeroporto desta cidade. Após batalhas que tiveram lugar neste aeroporto, o exército russo, vencedor, anunciou a libertação dos prisioneiros deste campo de concentração. A Ucrânia e a mídia ocidental acusam a Rússia de ter bombardeado um teatro nesta cidade, que estaria abrigando civis, incluindo crianças. Apesar de receberem várias denúncias, os jornais declaram que não conseguiram confirmar a informação por meios independentes. O governo russo afirma que não bombardeou o teatro e acusa o Regimento Azov de ter realizado o ataque para culpá-lo. Importante registrar que Mariupol estava sendo controlada pelo batalhão Azov e outros destacamentos das forças armadas ucranianas. A impressa também estava presente na cidade. No caso de um ataque realizado pelo exército russo, seria possível reunir provas que pudessem ser verificadas por meios independentes. Nesta mesma cidade, a Rússia reconheceu que atacou uma maternidade, no entanto, afirma que os civis haviam evacuado o local que, naquele momento, estava sendo ocupado pelo regimento Azov e outras unidades do exército ucraniano. Os jornalistas presentes no local não fizeram nenhum registro de vítimas fatais. Uma suposta ferida é uma conhecida blogueira ucraniana que a Rússia acusa de ter posado para as fotos. Os meios de comunicação ocidentais afirmam que as fotos não foram encenadas, pois, a  blogueira estava, de fato, grávida, e teve o filho no dia seguinte. No entanto, o fato da mulher estar grávida não impede que ela tenha participado de uma farsa. Cabe ressaltar que, dias antes do ataque, o exército russo já havia anunciado que a maternidade não abrigava mais civis. Ainda que pareçam tentar manipular a informação, os meios ocidentais reconhecem que a presença de civis não pôde ser confirmada por meios independentes. 

Desde o início dos acordos de paz, a Rússia deixou claras as suas exigências: O reconhecimento das repúblicas independentes, a anexação da Crimeia, a não adesão da Ucrânia à OTAN, a desmilitarização deste país e a desnazificação. A Rússia nunca propôs a queda do presidente e nem reivindicou outros territórios, além dos já citados. É possível observar que Kiev e Cherniviv foram cercadas, mas não ocupadas. A mídia ocidental atribui este fato à resistência ucraniana que teria dificultado o avanço dos russos, no entanto, é bastante provável que a ocupação não tenha ocorrido, porque não fazia parte dos objetivos da Rússia. Bombardeios ocorreram em Lviv e outras cidades próximas à fronteira com a Polônia, locais que estão a mais de quinhentos quilômetros das posições do exército russo. Um destes bombardeios se tornou muito conhecido, porque a posição da base militar provavelmente foi descoberta pelos russos por meio de fotos que voluntários (chamados de mercenários, pela Rússia) brasileiros publicaram em suas redes sociais, identificando a localização das tropas formadas por soldados estrangeiros. Em casos como esses, constata-se que o ataque não visava uma ocupação e sim o enfraquecimento do exército inimigo, provocando baixas e destruindo armas. 

Com a região do Donbass ocupada e o exército ucraniano enfraquecido, a Rússia se aproxima do objetivo de ver as repúblicas independentes reconhecidas. O governo da Ucrânia já não descarta o reconhecimento, mas, lamentavelmente, ainda não está disposto a conversar sobre a desnazificação. 

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