Como será a prorrogação?

"Será com uma diferença não muito diferente da do primeiro turno, com emoção, mas com um favoritismo que Lula não deve perder", analisa Emir Sader

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(Foto: Alan Santos/PR | Ricardo Stuckert/PT)


Lula definiu o segundo turno como uma prorrogação? O que significa isso? Que não se trata de um novo jogo, que começa zero a zero. É uma extensão, com alguns arranjos, do que foi o primeiro turno.

No primeiro turno, os dois candidatos que passaram ao segundo turno, somados, tiveram 91% dos votos: Lula 48%, Bolsonaro 43%. Se pode supor, assim, que estão disponíveis para aderir a algum dos dois candidatos, apenas 9% dos votos. Considerando que a diferença entre eles é de 5%, Bolsonaro teria que conquistar mais da metade desses votos. Cerca de 7% desses votos foram obtidos por Simone Tebet e por Ciro Gomes. Ela já se definiu para apoiar o Lula no segundo turno. O PDT, partido de Ciro, também, embora a adesão dele tenha sido ambígua.

Nesses termos, o favoritismo do Lula se mantém, como é confirmado pela primeira pesquisa do segundo turno, em que ele tem uma vantagem de 10 pontos, contando apenas os votos válidos. Ele cresceria cerca de 6 pontos em relação ao resultado do primeiro turno, enquanto Bolsonaro cresceria 3.

Mas a política não é a aritmética. Está mais para a álgebra, com incógnitas a serem decifradas. Assim que saiu o resultado do primeiro turno, com o Lula não conseguindo triunfar no primeiro turno, o clima mudou. A depressão passou do campo do governo para o da oposição, que lutava para não perder no primeiro turno.

Passado o primeiro momento de uma espécie de ressaca cívica, a correlação de forças para o segundo turno foi ficando mais clara. Como efeito do aumento dos votos previsto para o Bolsonaro, governadores que não se arriscavam a aderir publicamente a ele, quando a perspectiva de vitória do Lula no primeiro turno era provável, e que deixavam aberta a possibilidade até de aderir ao Lula, assumiram o apoio ao Bolsonaro. 

Lula recebeu também apoios previsíveis, como os de FHC, do PDT e de outros partidos, assim como de Simone Tebet.

Dados esses arranjos, qual é a perspectiva provável para o segundo turno. Bolsonaro e seus adeptos não propõem praticamente nada para um eventual segundo mandato dele. Seus discursos e as fakenews difundidas com robôs – com a complacência escandalosa do TSE – se limitam praticamente a difundir os riscos que o país correria, caso Lula voltasse a governar o Brasil. Contam não com diminuir o nível de rejeição – em torno de 50% de Bolsonaro – mas de tentar elevar o do Lula – em torno de 39%. 

Lula trata de levar o debate e a contraposição entre os dois candidatos para o plano programático, comparando o que foi seu governo e o que é o desastroso governo de Bolsonaro. O surpreendente aumento da votação final de Bolsonaro revela o sucesso relativo dos mecanismos de atuação do bolsonarismo, que conseguiu diminuir a distância que as pesquisas apontavam a favor de Lula, de mais de 10% para 5%. Apesar do péssimo governo de Bolsonaro, 43% da população votou por um novo mandato para ele. Revela como as posições da extrema direita tem um enraizamento na sociedade brasileira, que merecem uma discussão mais a fundo. 5% desse total provavelmente vieram dos eleitores do Ciro, que baixou de 8% para 3%, com seu discurso antipetista convencendo uma parte dos seus eleitores, que exerceram o voto útil da direita.

Lula manteve sua votação, prevista pelas pesquisas, sempre acima de 45%, chegando a 48,5%, a apenas 1,5% da vitória no primeiro turno. Com as adesões políticas que já recebeu, mas o bom desempenho do Lula no segundo turno – entre debates, programas de televisão e concentrações - Lula mantém o favoritismo para ganhar.

Pelos primeiros dias do segundo turno, - contando com o beneplácito e a lentidão do TSE para atuar -  vai ser uma guerra de propaganda, de fake news, o grande instrumento de Bolsonaro. Em que as mentiras terão que ocupar uma parte do tempo e das energias da oposição, para rebater e desmentir as fake news. 

O mapa eleitoral do primeiro turno é muito parecido com o da campanha de 2014, em que Dilma perde para o Aécio por 2/3 a 1/3 no Sul e no Sudeste do país, mas triunfou para ganhar no Nordeste com mais de 70% dos votos. Foi impressionante a votação de Bolsonaro em um estado como São Paulo, por exemplo, assim como a de Lula em todo o Nordeste. É outro tema para uma análise mais profunda. Mas agora se operará com um mapa que não se alterará muito no segundo turno.

Será um final com uma diferença não muito diferente da do primeiro turno, com emoção, como foi em 2014, mas com um favoritismo que Lula não deve perder ao longo da prorrogação.

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