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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Como uma frase de Russell mudou o destino de Wittgenstein

Uma pergunta brutal, uma frase decisiva: Russell reconheceu o gênio em Wittgenstein e selou, sem alarde, o rumo da filosofia e do século XX

Representação de Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein (Foto: Gerada por IA/DALL-E)

“Por favor, diga-me se sou um completo idiota ou não.” Assim, sem rodeios, Ludwig Wittgenstein abordou Bertrand Russell ao final de seu primeiro trimestre em Cambridge. O jovem austríaco, até então estudante de engenharia em Manchester, descobrira nos fundamentos da matemática uma paixão mais urgente que turbinas e cálculos de resistência. Indagado sobre quem dominava aquele campo, recebeu como resposta um nome: Bertrand Russell. E foi a ele que se dirigiu com a questão brutal.

Russell, já renomado por seu trabalho lógico e pela coautoria com Alfred North Whitehead no Principia Mathematica, não soube responder de imediato. Pediu ao pupilo excêntrico que, nas férias, escrevesse algo de cunho filosófico. Wittgenstein, obediente e febril, entregou-lhe um manuscrito no início do trimestre seguinte. Russell leu a primeira frase e decretou: “Não, você não deve tornar-se aeronauta. Deve ser filósofo.”

Assim nasceu, em gesto simples, um dos destinos intelectuais mais intensos do século XX.

A anedota preservada no Last Philosophical Testament é mais que curiosidade biográfica: revela um momento de passagem entre mestre e discípulo. Russell, que prezava a clareza como forma ética de vida, via na filosofia uma missão pública. Pacifista, denunciou a carnificina da Primeira Guerra e combateu o totalitarismo em todas as suas formas.

Em 1950, receberia o Nobel de Literatura pela força ensaística com que combinava precisão lógica e intervenção social. Sua crença era firme: a filosofia deveria oferecer ao mundo transparência e argumentos testáveis, em defesa da democracia e da convivência civilizada.

Wittgenstein, por sua vez, não se via como acadêmico tradicional. Filho de magnatas da siderurgia vienense, renunciou à herança e viveu de modo quase ascético. Lutou na guerra como soldado raso, trabalhou como professor em vilas austríacas, exerceu ofícios manuais. Sua filosofia nunca se separou dessa dimensão existencial. No Tractatus Logico-Philosophicus, quis traçar os limites do mundo e da linguagem: o que pode ser dito com clareza pode ser pensado; o que não pode, deve ser silenciado.

Mais tarde, renegou parte dessa visão. Nas Investigações Filosóficas, compreendeu o sentido como prática, jogo, uso social da linguagem. A filosofia deixou de ser espelho lógico para tornar-se exercício de compreensão dos modos de vida.

A história da frase única é, portanto, alegoria de uma transmissão. O mestre soube reconhecer, sem inveja, a grandeza que o ultrapassaria. O discípulo, inseguro, recebeu o selo de uma confiança que se tornaria exigência para a vida inteira. Não era apenas um “não seja aeronauta”: era um chamado para habitar a linguagem, enfrentar o silêncio, reconstruir a filosofia a partir de dentro.

Num tempo de excesso de palavras descartáveis, a lembrança é pedagógica. Há frases que decidem destinos. Russell mostrou que a clareza é virtude pública. Wittgenstein ensinou que a linguagem é a casa do ser.

Entre ambos, a filosofia do século XX encontrou nova respiração.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.