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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Confúcio antecipou o modelo chinês atual?

Sem ter escrito uma só linha, Confúcio moldou a China por séculos e ainda orienta decisões atuais, da burocracia estatal à postura cautelosa diante de conflitos

Bandeira da China. Foto: Reuters

— Se o governante é correto, o povo o seguirá sem que precise ordenar; se não é correto, ainda que ordene, ninguém obedecerá.

A frase, preservada nos Analectos, não soa como conselho — é uma sentença política direta, sem ornamento. E foi com esse tipo de formulação, precisa e exigente, que Confúcio (551 a.C.–479 a.C.) atravessou 72 anos tentando persuadir governantes de um ponto específico e desconfortável: a autoridade não nasce da força, mas da integridade; um Estado não se sustenta por decretos, mas pela conduta de quem o lidera. Não foi ouvido em vida. Tornou-se incontornável na história.“Confúcio” é uma adaptação latina criada por missionários jesuítas no século XVI a partir de Kong Fuzi, “Mestre Kong”. Não é apenas um nome próprio, mas um título que define função e lugar: alguém que ensina pela prática, pela repetição e pela coerência. Essa dimensão pedagógica ajuda a entender por que sua obra central não foi escrita por ele. Os Analectos — do grego analekta, “coisas selecionadas”, “fragmentos reunidos” — são uma compilação de diálogos e ensinamentos preservados por discípulos após sua morte. Não formam um tratado linear. São cenas curtas, respostas a perguntas concretas, intervenções feitas no calor das circunstâncias.

Confúcio nasceu no estado de Lu, atual província de Shandong, durante o Período das Primaveras e Outonos, aproximadamente entre 770 a.C. e 476 a.C. — equivalente, no calendário cristão, aos séculos VIII ao V antes de Cristo. Era um tempo de fragmentação política, disputas constantes entre principados e progressivo enfraquecimento das normas que organizavam a vida coletiva. Seu pensamento emerge desse cenário: não como especulação abstrata, mas como tentativa de reorganizar o mundo a partir do comportamento humano.

Sua biografia ajuda a compreender a dimensão de sua proposta. Confúcio aceitou alunos independentemente de origem social, desde que demonstrassem disciplina intelectual — um gesto que contrariava a rigidez hierárquica de seu tempo. Atuou também na administração pública e chegou ao cargo de ministro da Justiça em Lu. Tentou aplicar suas ideias, exigindo rigor moral da elite dirigente. Foi isolado. Abandonou o cargo e passou mais de uma década percorrendo diferentes estados, oferecendo seus ensinamentos a governantes. Nenhum o acolheu.

Há um eixo conceitual decisivo em seu pensamento: o li, frequentemente traduzido como “ritual”. Para Confúcio, não se tratava de formalidade vazia, mas de uma gramática do comportamento. Rituais, protocolos, gestos repetidos — tudo isso organiza o indivíduo e, por extensão, a sociedade.

A forma não é superficial; é pedagógica. Talvez seja exatamente aqui que se encontra uma chave para compreender o comportamento chinês contemporâneo: a valorização de cerimônias, procedimentos formais e protocolos não é mero apego estético, mas continuidade de uma tradição que associa forma à construção do caráter.

Nos Analectos, essa lógica aparece de forma incisiva: “Guiar pelo castigo produz conformidade; guiar pela virtude produz consciência.” E ainda: “Aprender sem refletir é inútil; refletir sem aprender é perigoso.” Não são frases de efeito. São princípios operacionais.

Essa matriz foi institucionalizada durante a dinastia Han (206 a.C.–220 d.C.), quando o confucionismo se tornou a base oficial do Estado. Foi nesse período que se consolidaram os exames imperiais — um sistema meritocrático que, por mais de mil anos, funcionou como principal porta de entrada para o serviço público chinês. Não era apenas uma seleção técnica, mas uma avaliação profunda de formação moral e intelectual baseada nos clássicos. Em termos atuais, guarda semelhança com concursos públicos modernos — no Brasil, por exemplo, o Concurso Nacional Unificado —, mas com alcance estrutural muito mais abrangente: definia quem governaria o império.

Esse legado não desapareceu com a Revolução de 1949. Após décadas de rejeição, especialmente durante a Revolução Cultural, o pensamento confuciano foi gradualmente revalorizado. Deng Xiaoping (1904–1997), responsável pelas reformas iniciadas em 1978, raramente citava Confúcio, mas operava dentro de uma lógica compatível com sua tradição: mudança gradual, estabilidade como prioridade e rejeição de rupturas desordenadas.

A forma como a China percebe o tempo ajuda a compreender essa estratégia. Uma anedota frequentemente atribuída a Zhou Enlai (1898–1976), primeiro-ministro chinês, ilustra essa perspectiva: ao ser questionado sobre o impacto da Revolução Francesa de 1789, respondeu que ainda era cedo para avaliar. Independentemente da precisão literal da frase, ela expressa uma mentalidade concreta: processos históricos são medidos em séculos.

Nas décadas seguintes, essa reaproximação tornou-se mais explícita. Hu Jintao (1942–) introduziu a noção de “sociedade harmoniosa”, conceito diretamente ligado à tradição confuciana. Xi Jinping (1953–), em discurso na UNESCO em 2014, afirmou: “As civilizações tornam-se mais ricas por meio do intercâmbio e do aprendizado mútuo.” Não é retórica casual. É uma formulação que se ancora na ideia de equilíbrio e continuidade.

Essa base ajuda a interpretar o comportamento chinês em cenários internacionais recentes. Na guerra entre Rússia e Ucrânia, Pequim evita alinhamentos absolutos. Nas tensões envolvendo o Irã e o Estreito de Ormuz, privilegia estabilidade e previsibilidade. Não se trata de indecisão. Trata-se de uma estratégia que rejeita desorganizações abruptas e privilegia continuidade.

Há, no entanto, uma confusão recorrente no Ocidente que exige esclarecimento. O confucionismo não é uma religião no sentido clássico. Não possui um deus central, não apresenta uma teologia estruturada nem propõe salvação transcendental. Trata-se de um sistema ético e filosófico. Ainda assim, existem templos dedicados a Confúcio e cerimônias formais realizadas em sua homenagem, como as celebrações em Qufu, sua cidade natal, especialmente no aniversário tradicionalmente marcado em 28 de setembro.

Essa aparente contradição se resolve quando se compreende a natureza desses espaços. Não são templos de adoração a uma divindade, mas locais de reverência cultural e memória ética. Funcionam como centros de preservação de valores. Da mesma forma, os Analectos não são tratados como escritura sagrada nos moldes da Bíblia, do Alcorão ou do Kitáb-i-Aqdas. São textos de estudo, reflexão e formação — profundamente respeitados, mas não objeto de culto.

Antes mesmo dos meus 20 anos, iniciei uma linha de investigação que me acompanharia pela vida inteira: mergulhar nas nove religiões monoteístas, examinar seus livros sagrados, situar cada uma no seu tempo histórico e medir o impacto real que produziram nas civilizações e nos homens que as seguiram. Em alguns momentos, cheguei a cogitar incluir o confucionismo nesse conjunto. Bastava avançar um pouco mais na análise para recuar com firmeza: fazê-lo seria repetir um erro recorrente no Ocidente, que insiste em tratá-lo como religião no sentido formal — quando, na essência, trata-se de outra coisa, mais próxima de uma engenharia ética do comportamento humano.

O Ocidente leu Confúcio com interesse e limitações. Voltaire (1694–1778) o admirava como exemplo de moral racional sem dependência religiosa. Hegel (1770–1831), por sua vez, considerava seu pensamento prático, mas pouco sistemático. Ambas as leituras revelam mais sobre a tradição europeia do que sobre o próprio Confúcio, cuja preocupação central nunca foi construir sistemas, mas corrigir condutas.

Talvez a melhor metáfora para o compreender não seja grandiosa, mas precisa. Seu pensamento funciona como uma estrutura invisível que sustenta um edifício. Não aparece nas fachadas, não chama atenção, mas, sem ela, tudo colapsa. É uma engenharia silenciosa da ordem.

E é justamente aí que sua atualidade se impõe com mais força. Em um mundo marcado por decisões precipitadas, ciclos curtos de poder e lideranças que confundem visibilidade com autoridade, Confúcio exige outra cadência: tempo, disciplina e coerência.

Os Analectos não oferecem conforto fácil nem respostas prontas; estabelecem um campo de exigência contínua. Cada frase desloca o leitor para um território de responsabilidade pessoal que não admite atalhos. Não há a quem delegar essa tarefa.

E talvez seja esse o ponto mais exigente de sua herança: Confúcio não acreditava em transformações externas sem correção interna. Em um cenário global atravessado por guerras prolongadas e disputas energéticas que redesenham alianças, essa exigência ganha peso concreto.

Ele não convenceu os governantes de seu tempo. Mas construiu, com fragmentos de fala preservados por outros, uma das estruturas mais duradouras da história humana — uma ideia de ordem que continua a influenciar decisões, de forma persistente, no coração de uma das maiores potências do mundo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.