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Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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Contar o Brasil para governá-lo: Fernando de Azevedo, o censo e a invenção da cultura nacional

A Primeira República deixou como herança um país profundamente desigual

Fernando de Azevedo (Foto: Ilustração )

Se, nas primeiras décadas do século XX, a Educação Física foi o campo inicial de intervenção de Fernando de Azevedo sobre o corpo e a formação social, a década de 1920 marcou uma mudança de escala decisiva em sua trajetória intelectual, que vai do indivíduo para a população, da escola para o Estado, da pedagogia para a organização simbólica da nação.
É nesse contexto que sua atuação no censo demográfico de 1940 se torna central para compreender o projeto de modernização cultural do Brasil.

Do corpo à população: uma mudança de escala

A Primeira República deixou como herança um país profundamente desigual, marcado pelo analfabetismo, pela precariedade sanitária e pela ausência de políticas públicas estruturadas. Com a Revolução de 1930 e o fortalecimento do Estado nacional, emergiu a necessidade de conhecer o país de forma sistemática.
A pergunta que se impunha era simples e poderosa. Afinal, quem somos como povo?
Respondê-la exigia abandonar interpretações impressionistas e recorrer a instrumentos científicos capazes de medir, classificar e interpretar a sociedade.
Fernando de Azevedo compreendeu que, sem dados e sem uma leitura de conjunto da população, não haveria política educacional, cultural ou social consistente.

O censo como tecnologia de Estado

O censo demográfico de 1940 representou uma inflexão na história administrativa e intelectual do Brasil. A escolha de Fernando de Azevedo para essa tarefa não foi casual. Inicialmente, o presidente Getúlio Vargas o convidou para coordenar o censo. Azevedo, no entanto, recusou a incumbência. Diante da recusa, Vargas o "intimou" a aceitar ao menos o papel de autor da Introdução. Era um encargo de enorme peso simbólico, pois seria o texto que daria o tom interpretativo oficial aos dados brutos. Esse gesto evidenciava que, para o Estado, a interpretação da nação era tão estratégica quanto sua mensuração. O precedente era claro. No censo de 1930, a introdução fora escrita por Oliveira Viana, intelectual que representava a visão da antiga oligarquia e do pensamento racialista. Ao substituir Viana por Azevedo, Vargas promovia uma mudança de guarda intelectual, sinalizando a transição de uma narrativa baseada em "raças" para uma focada em "cultura" e "educação", alinhada aos novos ideais de modernização e unidade nacional.

Pela primeira vez, o Estado produzia uma leitura abrangente de sua população, articulando estatística, geografia, história e sociologia.
Ao escrever a Introdução ao Censo de 1940, posteriormente publicada como A Cultura Brasileira, Azevedo não se limitou a apresentar números. Seu objetivo era interpretar o Brasil, situando a formação da população no interior de um processo histórico marcado por desigualdades regionais, heranças coloniais e fragilidades institucionais.
TiagoO censo passou, assim, a funcionar como instrumento de governo e como narrativa nacional.

Raça, eugenia e o deslocamento para a cultura

Até as primeiras décadas do século XX, o debate sobre a formação do Brasil esteve fortemente ancorado em interpretações racialistas. A miscigenação era frequentemente tratada como obstáculo ao progresso, e a eugenia aparecia como solução científica para os problemas nacionais.
Fernando de Azevedo não esteve imune a esse ambiente intelectual. No entanto, sua leitura do país promove uma transição relevante. Em lugar da raça como eixo explicativo central, ele passa a enfatizar a cultura, a educação e as condições históricas de organização da sociedade.
Esse movimento não significou a negação imediata do vocabulário eugenista, ainda presente no período, mas a sua progressiva reconfiguração. A população brasileira deixa de ser interpretada como um problema biológico e passa a ser compreendida como uma construção histórica e cultural, passível de transformação por meio da educação e das instituições.

A cultura como chave interpretativa da nação

É justamente nessa transição do biológico para o histórico que reside a originalidade de sua proposta. Em A Cultura Brasileira, Azevedo propõe uma concepção ampla de cultura. Ela não se restringe às belas-artes ou à produção intelectual erudita, mas engloba os modos de vida, as práticas educativas, a organização do trabalho, os hábitos sociais e as formas de sociabilidade.
Essa noção permite integrar corpo, população e instituições num mesmo horizonte analítico. O Brasil deixa de ser visto como um conjunto fragmentado de raças ou regiões e passa a ser pensado como uma totalidade histórica em formação. A cultura torna-se, assim, o eixo organizador da leitura do país.

Ciência, poder e projeto nacional

A crença na ciência como instrumento de racionalização da vida social atravessa toda a obra de Fernando de Azevedo. Produzir dados, classificá-los e interpretá-los era, para ele, condição necessária para a ação do Estado.
Essa confiança no saber técnico, no entanto, carregava limites. Ao privilegiar especialistas e intelectuais na condução do projeto nacional, sua proposta restringia a participação direta das camadas populares nos processos decisórios. Mais uma vez, aparecem as marcas da democracia liberal e do liberalismo reformista que caracterizam sua trajetória.
Ainda assim, o impacto de sua atuação foi decisivo para a consolidação de políticas educacionais e culturais no país.

Do censo à universidade

O censo de 1940 não encerra o projeto azevediano. Ele prepara o terreno para o passo seguinte, que é a institucionalização da ciência e da cultura no interior da universidade.
Se a Educação Física organizava o corpo e o censo organizava a população, a universidade seria o espaço de síntese desses esforços. Ela é o lugar por excelência da produção sistemática do conhecimento e da formação das elites intelectuais.
É a partir dessa lógica que se compreende o papel de Fernando de Azevedo na criação da Universidade de São Paulo, tema do terceiro e último artigo desta série.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.