Contrastantes momentos de transição na Argentina, entre Macri que se vai e Cristina e Alberto que chegam

A Argentina voltará a ser protagonista importante para América Latina, com suas raízes peronistas, uma memória histórica pelos 30 mil desaparecidos, uma forte organização sindical e popular

(Foto: Agustin Marcarian)
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Faltando poucos dias para a retirada de Macri da presidência e a posse no dia 10 de dezembro de Alberto Fernández e Cristina Kirchner, não somente se respira um clima de alegria, vozes e esperanças nas ruas e praças argentinas, mas ecoam na mídia contrastantes pronunciamentos de dois polos de poder opostos que provaram suas forças no pleito eleitoral de 27 de outubro, resultando num expressivo “Não” ao devastador projeto neoliberal do macrismo.

Macri, a poucos dias da sua retirada, falou em cadeia nacional de TV, por uns 45 minutos, numa ladainha propagandística de balanço de governo, estilo campanha eleitoral, carregado de mentiras e imagens de um país perfeito, ignorando completamente o estado catastrófico em que deixa a Argentina: a dívida externa, o esvaziamento do Estado, o empobrecimento de 40,8% da população (6 de cada 10 crianças são pobres), 9% de indigentes, 159 mil desempregados desde 2015, inflação anual de 54,6%, tarifaços impagáveis, enfim, tudo o que já se sabe. Mas, a que responde esse discurso com o selo marqueteiro da mentira, senão a preparar a oposição midiática, perante as dificuldades do próximo governo de Alberto desafiado por um país destruído que, segundo Macri, deixa-o impecável? Como se dissera: “endividei o país com o FMI, por culpa da herança maldita do peronismo-kirchnerismo! Agora, deixo a casa perfeita para que continuem, mas serão incapazes!”.

Isso mostra como insistirá manipulando consciências com a ajuda do poder hegemônico midiático. Macri não terá mais acesso à cadeia nacional de TV, mas os seus sócios do Clarin, La Nación e TN estão intactos. Seguramente, Alberto e Cristina terão muito a fazer para recuperar a “Lei dos Meios de Comunicação” (Ley de Medios) e muito mais; a TV Pública, a Telam,  a Telesul no sinal aberto,  etc...

Enquanto Macri lê semelhante discurso transbordando irrealidades na rede nacional de TV, Cristina Kirchner, dias antes, respondendo a um dos tantos processos sem provas contra ela nos últimos anos (o do direcionamento das obras públicas na Província de Santa Cruz), fez um magistral depoimento de mais de 3 horas, com a verdade exposta frente ao tribunal TOF2, sem ter a cobertura televisiva ao vivo requerida pelos seus advogados. Não obstante, graças às redes sociais, suas palavras contundentes ecoaram mundo afora: “Havía que condenar um governo: o de Néstor Kirchner. Havia que trazer de volta o FMI. E para isso havia que convencer que quem lhes pagou, quem nos desendividou, era um ladrão. É por isso que eu estou sentada aqui.” ...“Este tribunal é o tribunal do “lawfare” e seguramente tem a condenação escrita. Não me interessa! Eu elegi a História. A História me absolveu e me absolverá. E vocês (disse, dirigindo-se com os olhos aos promotores e juízes), a História seguramente os condenará!” Palavras eloquentes no final

A ex-presidenta (por duas gestões), nova vice-presidenta eleita, e advogada de formação, acusou explicitamente um setor da Justiça Federal, por exemplo, o aí presente, do TOF2, de ter sido um “auxílio inestimável” do governo Macri para executar o “lawfare”, perseguir politicamente os líderes, ex-funcionários e empresários do governo de Néstor. Cristina Kirchner, sem papas nas línguas, denunciou que há “procuradores e juízes que são instrumentos delitivos, ao cometer delitos fazendo uso da faculdade que lhes confere a constituição para garantir o estado de direito”. Ao mesmo tempo, denunciou jornalistas, servidores de uma mídia cúmplice do “lawfare” que difundem falsas notícias, ou escutas ilegais, delatores premiados, fora de um processamento jurídico legal, a serviço do poder executivo para demonizar não somente indivíduos, mas um inteiro projeto político. Com extrema sagacidade jurídica e competência política, Cristina desmontou em palavras a matriz extraterritorial originária do “lawfare”, os mesmos esquemas das falsas campanhas “anticorrupção”, de enquadramento de familiares, dos power-points sobre “quadrilhas” e “associações ilícitas” do kirchnerismo; tal e qual realizado contra o PT no Brasil, e agora, desmoronando-se  com a absolvição de Lula e Dilma na 12a. Vara do Distrito Federal.
Neste contexto, é interessante notar os pronunciamentos do futuro presidente Alberto Fernández, prévios ao dia 10, além da sua nomeação quase completa do quadro de ministros, chefe de gabinete, de executivos do Estado, embaixadores e líderes do governo de Frente de Todos, composto de  vários defensores da linha estatizante, militantes políticos do peronismo e do radicalismo, incluindo várias mulheres, diferentemente da escolha de empresários e lobistas do governo Macri. Entre todos há três filhos e um neto de desaparecidos: Wade de Pedro (ministro do interior), Cecília Todesca (vice-chefa de Gabinete), Victoria Donda (Instituto Nacional contra a discriminação, xenofobia e racismo), Juan Cabandié (ministro de ambiente e desenvolvimento sustentável). Em várias entrevistas, o eleito presidente, tem reiterado a prioridade de sua meta para a redução da fome, da indigência e do desemprego, deixando claro que os compromissos da dívida com o FMI estarão subordinados a essa meta prioritária, e não à imposição externa de reajustes. Em entrevista concedida ao canal C5N, Alberto aclarou que o orçamento para 2020 aprovado pelo governo Macri não serve, e que em março-abril será alterado. Sessões extraordinárias do Congresso e alguns decretos presidenciais de emergência, logo após a posse, estão na ordem do dia. Aclarou a importância que terá no seu governo o Conselho Econômico e Social, e as medidas a tomar para des-dolarizar as tarifas de energia. Ao mesmo tempo, ao reunir-se com 40 dirigentes sindicais de várias categorias, declarou gratidão por todo o movimento operário. Em outra entrevista radial à Página 12 disse crer nos consensos, mas ser consciente de que é representante do povo que o votou; e que “atrás de cada direito há centenas de mortos. Renunciar aos direitos é a única coisa que não podemos fazer”. “Macri me deixou um túnel; retornei à época de Néstor, sem Néstor, mas tenho Cristina”.  Sobre a questão regional e latino-americana, diz que atualmente a Bolívia tem uma presidenta de fato (enquanto Macri a chama de presidente eleita) e que só dialogará com quem seja eleito. Ao mesmo tempo, crê na integração latino-americana, não considerando tão negativo o contexto regional, atribuindo as manifestações no Chile, no Equador e na Colômbia como uma situação crítica ao neoliberalismo, valorizando o papel de López Obrador na reativação da CELAC.

A decisão de Cristina enfrentar e caracterizar o “lawfare” deverá ter eco no realinhamento da Justiça a que se propõe o novo presidente Alberto, experto professor em Direito que já prometeu atuar para reformar esta “Justiça que atua como gueto de juízes e procuradores”, de modo que “sejam honestos e dignos”, acabando com esse poder de pressão que exerceu Macri sobre o Judiciário, tendo 100 denúncias contra si. Novas águas já parecem rolar na área judicial, pois Laura Alonso, chefa do chamado “Escritório governamental anticorrupção” está sendo processada por encobrimento de agravados do governo Macri; da mesma forma, o ex-ministro da energia Aranguren, ex-acionista da Shell, promotor dos tarifaços de gás e luz, acusado de operar no governo em função de seus interesses privados. 

Na área militar também, com a nomeação de Agostin Rossi, da Unidade Cidadã, ex-ministro da defesa, no mesmo momento em que é absolvido o ex-general César Milani, comandante do segundo governo de Cristina Kirchner, perseguido também pelo lawfare, podem conduzir as Forças Armadas a respeitar a democracia, a constituição e a defender a soberania nacional. Disse este general ao ser absolvido: “Como já disse nas minhas intervenções anteriores, não acredito num exército a serviço de interesses estrangeiros, que servem apenas a grupos de poder concentrados, alheios aos grandes interesses nacionais. Apesar de todas as difamações, calúnias e insultos, e a detenção injusta que sofri por dois anos e meio, como resultado do ataque sistemático dos poderes factuais, estou de pé, eles não vão me quebrar. Acredito ainda em uma grande pátria, justa, livre e soberana, onde também existem juízes justos e honrados.”

A Argentina voltará a ser protagonista importante para América Latina, com suas raízes peronistas, uma memória histórica pelos 30 mil desaparecidos, uma forte organização sindical e popular, e uma década de governo peronista não tão distante, que deverá tirar lições dos erros e limitações do “progressismo” para avançar e defender-se. Não é casual que já na ante-sala de um novo governo peronista, mova-se tanta solidariedade com Evo Moráles e o povo boliviano; uma delegação de mais de 40 representantes de movimentos sociais, juristas, e sindicalistas foram à Bolívia e, sob ameaças, recolheram provas de bárbaras repressões, torturas, desaparecimentos, e violações aos direitos humanos por parte do governo golpista. Leia

Enfim, dia 10 de dezembro, Alberto Fernández e Cristina Kirchner estarão oficialmente, junto a líderes políticos e representantes sociais da Frente de Todos, líderes internacionais, no Congresso da Nação, iniciando uma nova etapa de lutas para recuperar a Argentina e seu povo vitimados pelo terremoto do neoliberalismo da era Macri. Serão recebidos por centenas de milhares vindos de todo o país na Praça de Maio, provavelmente mais do que os 700 mil que despediram com lágrimas 4 anos atrás à ex-presidente Cristina, com a promessa de lutar para “Voltar, vamos voltar!”.

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