Conversando com o netos

(Foto: Divulgação)
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1.  Nos subterrâneos da sociedade.

Em minhas análises políticas tenho centrado meu interesse na sociedade civil, de onde sobem demandas e se articulam apoios. Ali se encontram movimentos sociais mais ou menos organizados; além dos clássicos, temos a emergência das novas reivindicações: mulheres, negros, índios, LGBT, etc. Elas vão articular conexões particulares com partidos políticos. Estes, pelo momento, são atualmente 33 legalizados. Uma minoria tem programas definidos, um bom número são agrupamentos de aluguel, para fins eleitoreiros ou para obter vantagens no loteamento de cargos.

De repente entra uma dúvida: a isso se reduz a sociedade? Não estaremos encolhendo nossa visão, deixando de lado toda uma parte da realidade? A Roda Viva no dia 18 de maio entrevistou Felipe Neto.  Primeira reação de muitos: quem será esse desconhecido e por que foi escolhido num programa que convida personagens notórios ? E aos poucos chegava a palavra clara, honesta e até modesta de um jovem que tem atrás de si, em diferentes espaços virtuais, oito milhões de inscritos e mais de dez bilhões de visualizações acumuladas. Conversando com meus netos, eles me levaram a conhecer um mundo enorme dos chamados influenters digitais, que se expressam há anos por You Tube, Instagram, ou pelo Twiter. Cada vez menos aparecem nos Face Books.São conhecidos comumente como blogueiros ou youtubers. Estão em contato com um número impressionante de seguidores. Seguidor não indica apoio, porém fazer acessos. Mas Felipe Neto é apenas o segundo em público. Outro, com o estranho nome de Whindersson Nunes, paraibano, tem 39,6 milhões de inscritos. Há assim um enorme número de redes virtuais, com mensagens que cobrem uma grande gama de interesses, textos satíricos (com um humor que, confesso, nem sempre consigo captar),  vendas de artigos, música, alimentação,etc.

Felipe Neto foi apresentado no programa da TV Cultura como empresário (aliás bem sucedido), ator, artista, comediante, escritor e filântropo. Autor de vários livros como “O mundo segundo Felipe Neto. Verdades hilárias da vida”, “A vida por trás das câmeras”, “Acredite se puder”...  Dirige-se principalmente a um público adolescente, com textos curtos e imagens significativas. Seu irmão, Lucas Neto, está orientado para um meio infantil. Não fugiu de polêmicas. Assim o guru da extrema direita, Olavo de Carvalho, o chamou, com ironia, “um adolescente promissor”. Revidou: “Na minha idade (32 anos) você dava cursos de astrologia e proclamava que a terra era o centro do universo”. Debateu também com o rígido  Marco Feliciano, pastor da igreja neo-pentecostal Catedral do Avivamento e deputado pelo PSC.

O fato é que Felipe Neto abriu um espaço que parecia  inexistente nesse meio de youtubers e blogueiros. No Roda Viva tomou uma  posição clara de crítica ao governo bolsonarista. Não vestiu camisa ideológica, nem se declarou de direita, esquerda ou centro, colocando-se por fora das identidades políticas tradicionais. Honestamente confessou ter votado em Bolsonaro, como fora crítico do PT e  favorável ao impeachment de Dilma. Um pensamento aberto, em revisão, que sabe não estar numa tomada de posição definitiva.

Através dele chegamos a tantos youtubers  e twiters sem presença ou visibilidade no campo tradicional da sociedade política. O mapa eleitoral não cobre esse vasto campo de opções e demandas. Mas outro blogueiro recentemente, Felipe Castanhari, também um dos precursores no uso do You Tube, em seu canal Nostalgia, com treze milhões de assinantes, acaba de declarar: “Não existe isso de não discutir política. Como não vamos discutir a maior ferramenta de transformação na sociedade?” (rede UOL, 2/7/20). É interessante ver a enorme quantidade de reações a essa afirmação, desde “debater política é perda de tempo”, até “todo ato é político”. O tema político aflora nesse enorme espaço dos youtoubers, nos twiters e no Instagram.

Vamos descobrindo a presença de novas gerações com seus códigos próprios e socializações que nem sempre somos capazes de captar perfeitamente. Mas não se reduzem aos jovens; há ali membros de outras idades. E fica a pergunta no ar: um bom número de artigos, análises, propostas e denúncias políticas chegam até lá?

Num passado recente, em junho de 2013, houve um momento  de trágicos desencontros. Naquela ocasião, começando por São Paulo, um público basicamente jovem se lançou  às ruas a partir de uma demanda específica: o Movimento pelo Passe Livre (MPL). O governo nacional (Dilma do PT) e  o paulista (Alckmin do PMDB)  não deram o devido valor a esse dinamismo emergente. É verdade que Dilma, sem sucesso, tentou timidamente uma aproximação. Para uns, eram apenas manobras desestabilizadoras da oposição, para outros, reivindicações menores. Tratando-se de um movimento sem lideranças, a política tradicional não conseguia identificar dirigentes com quem dialogar. Esse dinamismo que subia nas bases populares, ainda selvagem, não foi suficientemente levado a sério pelos setores políticos no poder E então foi capturado logo adiante por dirigentes da  direita neoliberal, o Movimento Brasil Livre (MBL), que surgiu meses depois (novembro de 2014), em oposição agressiva aos governos. Isso colaborou para que este último se fizesse visível no cenário da vida nacional.

2.Frentes amplas no horizonte imediato

Vai crescendo uma unanimidade diante deste governo irresponsável, por partidos de esquerda, centro, direita moderada, até certo ponto, veremos adiante, nas grandes mídias (ler os últimos editoriais em O Globo, Folha de São Paulo ou Estadão).

Começaram a surgir manifestos e mobilizações. Assim, em 30 de maio, Estamos juntos, encabeçado por artistas e intelectuais,  com a assinatura de Flavio Dino (PC do B), Luiza Erundina (PSOL), Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Fernando Hadddad (PT), até um Lobão que rompeu com o bolsonarismo . Ali podemos ler: “Somos mais de dois terços da população e invocamos que partidos, seus líderes e candidatos agora deixem de lado projetos individuais de poder em favor de um projeto comum de país... Como aconteceu no movimento Diretas Já, é hora de deixar de lado velhas disputas em busca do bem comum... Temos ideias e opiniões diferentes, mas comungamos dos mesmos princípios éticos e democráticos”.

Na mesma data outro texto, Basta, de cerca de 700 advogados. Ali se denunciava que o presidente cometeu graves crimes de responsabilidade no exercício do cargo.

Outro manifesto, Somos 70%, a partir de pesquisa do Datafolha que mostrou  que 70% dos entrevistados consideravam o presidente péssimo, ruim ou regular”: ali assinaram desde comunicadores como Xuxa, deputados como Marcelo Freixo (PSOL) ou Jandira Feghali (PC do B). Marcelo Auler vê os três textos como um todo.

Um fato importante foi a entrada, na oposição ao governo, de mobilizações Fora Bolsonaro, vindas das torcidas tradicionais do futebol. Ocuparam um espaço deixado vazio por alguns partidos ou movimentos sociais tradicionais, enredados em discussões internas e indecisões. Ali estão os corintianos Gaviões da Fiel, torcidas de  São Paulo, Palmeiras e Santos. Ocuparam pacificamente a avenida Paulista e foram atacados por grupos bolsonaristas armados. Mas a mobilização não se reduziu a São Paulo, no Rio de Janeiro torcida rubro-negra se manifestou. O presidente da Associação Nacional das Torcidas Organizadas do Brasil, Sandro Gomes, chamou a uma mobilização em outros estados.

Vários de nós temos insistentemente pedido por uma Frente Ampla. Diante da heterogeneidade de novas manifestações de oposição que começam a ocupar as ruas, surge a pergunta: Frente Ampla com quem? Flávio Dino, por exemplo, propõe um amplo diálogo com forças distintas em defesa da democracia, com lideranças da esquerda até, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso. Nesse mesmo sentido propuseram Luiz Eduardo Soares ou Marcelo  Freixo (PSOL). Diante disso, há vozes dissonantes. Ciro Gomes aparece como livre atirador, atacando em várias direções. Em reunião recente do PT, Lula advertia pelo perigo de alianças muito heterogêneas, pedindo cautela e declarando que várias delas não levavam em conta a classe trabalhadora. Parece-nos ouvir o antigo líder sindical e menos o ex-presidente que fez as mais amplas alianças, com Sarney ou Maluf, Barbalho ou Temer.

Uma pergunta se impõe: basta substituir um presidente irresponsável, cada vez mais histriônico? Realmente, quem manda e desenha as políticas reais? Não seria assim também importante enfrentar o projeto ultraliberal de Guedes? E desocultar o papel ambíguo de Moro, até ontem no governo e hoje uma alternativa de uma direita tão perigosa como a de Guedes?

Vejamos o caso de Moro. Pelas informações, entre outras, de Intercept Brasil, aparece a ligação antinacional de Moro com o FBI, quando aquele, no Ministério da Justiça, abriu as portas para esse órgão americano. Mas inclusive em seus tempos como juiz em Curitiba, pelo menos desde 2017, eram claros os contatos com o FBI, com agentes presentes em interrogatórios de delatores que estavam fechando acordos. Moro é um desses personagens que foi preparado para colocar o direito a serviço de interesses políticos dominantes nacionais e internacionais. Vai ficando claro que a operação Lava Jato foi armada em boa parte para tirar Lula de cena, num primeiro momento candidato quase imbatível.  É só lembrar a apresentação grotesca do procurador Deltan Dalagnol que, sem provas, armou um organograma que colocava Lula no centro de um grande processo de corrupção. E nos debates revelados por Intercept, vemos Moro, que deveria intervir no final do processo em sua condição de juiz, já desde o início orientando os procuradores na direção de incriminar Lula e, inclusive, declarando que acusações contra FHC deveriam ser postas de lado, para concentrar-se no que para ele era o essencial. As ridículas indicações de um triplex que Lula nunca visitou, presenças menores de seus netos num sítio, eram possíveis e fracos indícios, não provas, para uma condenação anunciada. Quando a Intercept foi publicando diálogos incriminadores de Moro, este tirou cinco dias de licença e desapareceu, ao que tudo indica indo aos Estados Unidos buscando juntar dados para sua preservação. Ao mesmo tempo, setores da grande mídia e da mídia alternativa insistiam sem cessar, até pela difusão  de fake news, na consolidação de um antipetismo e um antilulismo.

Os ataques da grande mídia contra Bolsonaro poupam Moro e inclusive o insinuam como o grande xerife da luta anticorrupção, numa versão atualizada do que foram, nos anos cinquenta, a UDN e Carlos Lacerda, usando o pretexto de possíveis corrupções de um construído “mar de lama”,  que levou Getúlio ao sacrifício.

Surge uma enganosa alternativa: em outras palavras, devemos combater um presidente incapaz ou denunciar uma política antinacional? Alguns partidos de esquerda, na indecisão, não estão sendo capazes de responder a este desafio.

Talvez devamos pensar em dois tempos, não necessariamente sucessivos, mas com urgências diferentes. Como tem sido sinalizado, estamos em guerra contra uma terrivel pandemia. Ela está no centro das preocupações, em nome da defesa da vida. É a grande prioridade em termos de salvação nacional. E temos diante de nós uma conjuntura assassina deste governo diante do corona vírus. Isso leva a exigir que seja deposto em nome da saúde da população. O presidente é cada vez mais perigoso, em suas aparições públicas tresloucadas, negando o isolamento e querendo distribuir a granel  uma cloroquina que os cientistas  consideram sem uso testado e inclusive, em muitos casos, com efeitos secundários perigosos. Ei-lo dirigindo-se cada manhã a um pequeno grupo de apoiadores incondicionais, possivelmente arregimentados, sem nenhum distanciamento físico, que bradam palavras de ordem muitas delas golpistas, atacando o STF ou o Legislativo, amplificadas logo em Twiters de seus filhos e seguidores mais fieis. Até a cavalo galopou diante do palácio do Planalto, contra todas as orientações de sua própria política de saúde. Ele representa uma terrível ameaça e é certamente responsável pela difusão e crescimento da pandemia entre nós, já colocando o Brasil no segundo lugar das estatísticas de morbilidade e mortalidade. Seu próprio admirado Trump acaba de fechar as fronteiras para o Brasil. Que dirão o inepto chanceler e o tosco Eduardo Bolsonaro, que levou com orgulho um gorro com o nome do presidente americano? Está aqui a prioridade urgentíssima, participar na derrubada deste presidente irresponsável. Com  isso se contará inclusive com bolsonaristas arrependidos e com blogueiros e youtubers que, aos poucos, vão tomando consciência dos perigos mortais do corona vírus.  Uma frase de Bolsonaro é terrível na sua frieza e insensibilidade: "A gente lamenta os mortos, mas é o destino de todo o mundo". 

Diante de uma forte mobilização, os “300” fascistoides  armados de Sara Winter e outros grupelhos de extrema direita, certamente recuarão apesar de suas basófias e gritos de guerra. Tivemos um exemplo no caso  dos integralistas, que cresciam aparentemente fortes de 1932 a 1938, com desfiles agressivos à la Mussolini, bandeiras com o sinal de um sigma totalitário e gritos pseudo-nacionalistas de Anauê. Foram postos a correr com incrível rapidez.

Saberemos articular uma frente de salvação nacional, diante da pandemia e de um presidente criminosamente irresponsável? A resposta na sociedade começa a ser mais eloqüente do que cálculos políticos timoratos. Trinta e sete pedidos de impeachment vegetam nos corredores do legislativo. Uma forte mobilização pode tirá-los da modorra legalista.

Mas faz-se necessária logo depois, também, a denúncia de um sistema neoliberal que intentará, inclusive, continuar num possível pós-Bolsonaro. Não nos enganemos, os editoriais violentos de O Globo, Folha de São Paulo ou Estadão, não tocam nas políticas de Guedes ou nas orientações de Moro. Ao contrário, são inclusive pela queda do presidente, se este se for desgastando, para preservar suas orientações econômicas e suas alianças políticas nacionais e internacionais. Terão a seu lado amplos setores da economia dominante e apoios externos.

Mas  nesses dois casos, queda de Bolsonaro e denuncia do sistema neoliberal, as alianças também deveriam ser relativamente amplas, ainda que as primeiras mais inclusivas. Para enfrentar um sistema econômico e uma política internacional entreguista, que tentarão subsistir num pós-Bolsonarismo, deverá haver uma aliança talvez um pouco mais estreita, com um eixo na defesa de nossos interesses nacionais, seguindo porém num pluralismo de alianças, como indicam Tarso Genro (PT) ou Flávio Dino (PC do B). 

Uma Frente nacional, popular e democrata se faz indispensável, na linha das várias manifestações e manifestos indicados acima.

Outro momento distinto e posterior são as alianças eleitorais de 2022. As lições amargas de 2018 podem ajudar. Tivemos a postura inflexível do PT, mantendo a candidatura de Lula até a undécima hora, sabidamente inviável, enfraquecendo Haddad, como opção de último momento. Dificuldades de alianças mantiveram, além disso, no primeiro turno, Ciro, Marina e Alkmin correndo isolados,  com outros oito candidatos.

Tiveram diante deles  um candidato de extrema direita, um obscuro deputado com 12 anos no baixo clero,  pontuais declarações em favor dos tempos da ditadura ou quando, naquela vergonhosa sessão da Câmara que permitiu seguir com o impeachmenr de Dilma, fez a escandalosa homenagem ao torturador  Brilhante Ustra. Teve na ocasião a resposta imediata e contundente de Jandira Feghali (PC do B) e uma cusparada profilática de Jean Wyllys (PSOL).

Numa terceira parte deste texto, enviado posteriormente, trataremos de descobrir como foi possível a “invenção” de Jair Messias Bolsonaro.

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