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Sylvia Mello

Escritora

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Conversinha

Texto de ficção da escritora Sylvia Mello

Abuso infantil (Foto: Elza Fiuza/Arquivo Agência Brasil)

juiz:              seu nome?

menina:         maria imaculada dos santos

juiz:                  idade?

menina:         11

juiz:              você sabe por que está aqui?

menina:         não senhor

juiz:              não sabe?

menina:         não senhor

juiz:              você está sendo acusada de cometer um homicídio doloso

menina:         ah

juiz:              você sabe o que é um homicídio?

menina:         não senhor

juiz:              homicídio é o crime de tirar a vida de uma pessoa, matar, entende?

menina:         eu não matei ninguém não senhor

juiz:              você confirma que fez um aborto?

menina:         minha tia me levou num médico para eu não ter o bebê do meu                                padrasto 

juiz:              você sabia que interromper uma gravidez pode levar a 20 anos de prisão?

menina:         não senhor

juiz:              sua tia não lhe avisou que isso que você fez era crime?

menina:         o que eu fiz, moço?

juiz:              um aborto

menina:         não senhor. ela me falou que meu padrasto era um homem sem vergonha e que o que ele fez comigo todo dia desde que eu virei moça não   se faz

juiz:  um aborto

menina: que se ela soubesse o que acontecia enquanto minha mãe ia trabalhar no   salão e me deixava cuidando da casa, ela matava ele. Ela ficou muito brava

juiz:              isso não vem ao caso. você não sabia que estava praticando um crime e                  poderia ser presa?

menina:         não senhor. ainda não entendi por quê

juiz:              porque interromper uma vida é crime

menina:         vida de quem, a minha?

juiz:              não menina. preste atenção. a vida que você está interrompendo é a do feto

menina:         qual feto?

juiz:              o feto que você estava gerando 

menina:         aquilo que o meu padrasto plantou na minha barriga depois de correr atrás de mim toda tarde enquanto minha mãe trabalhava, né?

juiz:              nós não estamos falando do seu padrasto. estamos aqui para julgar o que você fez

menina:         e o que eu fiz, seu juiz?

juiz:              a senhorita está desacatando a minha autoridade?

menina:         desculpa seu juiz, mas não sei que palavra o senhor falou aí

juiz:              desacatando, está me desrespeitando

menina:         não é isso, não. tô confusa. quero entender o que estou fazendo aqui

juiz:              estamos aqui para falar de você e do que você fez

menina:         e o que eu fiz, seu juiz?

juiz:              você está respondendo à acusação de ter dado fim a uma vida

menina:         seu juiz, eu não mato nem as formigas que vivem entrando em casa atrás de um restinho de açúcar na pia. tenho pena, sabe? 

juiz:  mas matou

menina: não matei ninguém não. e achei bom da minha mãe ter se separado do meu   padrasto depois que minha barriga começou a crescer. não aguentava mais  olhar pra cara dele, ter que sentar no colo dele todo dia, mexer no, o senhor sabe, deixar ele me buzinar, me lambuzar

juiz:              basta senhorita. você  já passou dos limites. determino sua pena em 15 anos de reclusão. 

menina: 15 anos?

juiz:  da próxima vez que provocar um homem veja se toma pílula, use um preservativo

menina:             o que é preservativo, seu juiz?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.