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Bepe Damasco

Jornalista, editor do Blog do Bepe

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Copa do Mundo: o "me engana que eu gosto" de sempre da cobertura jornalística

O Brasil pode ser hexacampeão? Sim, tem tradição e camisa. Mas, em condições normais de temperatura e pressão, seria uma grande zebra

Copa do Mundo: o "me engana que eu gosto" de sempre da cobertura jornalística (Foto: Reuters/Mohamed Abd El Ghany)
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Os anos que antecederam à Copa do Mundo dos Estados Unidos, México e Canadá, que já começa no mês que vem, foram de uma bagunça jamais vista na preparação de uma seleção brasileira. Da sucessão de treinadores ao entra e sai de presidentes da CBF, o Brasil colecionou vexames dentro de campo, só obtendo a classificação porque, no modelo atual das eliminatórias sul-americanas, é quase impossível ficar fora.

Isso não impediu a CBF de transformar uma mera convocação de jogadores para a Copa, por parte do técnico italiano Carlo Ancelotti, em um espetáculo chatíssimo e cafona, como se o  panorama atual do futebol brasileiro justificasse comemoração antecipada. Tudo com uma cobertura midiática triunfalista e patética, na contramão do padrão real do futebol apresentado pela seleção.

O tratamento dado pela imprensa esportiva à polêmica em torno da convocação ou não de Neymar é uma agressão ao bom senso e à inteligência de quem acompanha futebol. Desde que, em 2017, trocou o Barcelona, um dos maiores clubes do mundo, pelo PSG, time do Catar com sede em Paris, na definição precisa do jornalista Paulo Vinícius Coelho, Neymar nunca mais fez jus nas quatro linhas à badalação midiática em torno do seu nome. Com vida noturna e social agitada, além de contusões e afastamentos em sequência, Neymar quando joga pelo Santos é uma caricatura do que  foi no passado e não consegue se destacar nem em jogos contra times que estão na zona do rebaixamento do Campeonato Brasileiro, que dirá em uma Copa do Mundo. 

Entretanto, a imprensa especializada participou ativamente do movimento de pressão pela convocação de Neymar. Lamentavelmente, Ancelotti acabou cedendo. Teve até claque em frente ao Museu do Amanhã festejando a inclusão do ex-craque na lista de convocados. Ancelotti vai pagar um alto preço por isso, já que, com certeza, a presença de Neymar no grupo será um fator permanente de instabilidade, seja pela gritaria dos incautos e puxa-sacos que cobrarão sua titularidade, seja por suas lesões em série. Aliás, mal foi convocado e já está contundido outra vez. 

A seleção brasileira atual, na minha opinião, deve colocar as mãos para o céu se conseguir chegar às quartas de final. Seleções como França, Argentina, Espanha e Portugal, para citar apenas as melhores, estão bem à frente da nossa. Aliás, lembro que na última vez que o Brasil jogou contra a Argentina tomou uma surra de 4 x 1. E ficou barato, porque os argentinos nitidamente tiraram o pé. Se não, teríamos outro 7 x 1. 

Mais uma vez a mídia retoma o discurso surrado das últimas copas, nas quais o Brasil foi eliminado precocemente. "Ah, nós temos jogadores que se destacam nos maiores times do mundo." E daí? Futebol é o esporte que demanda mais entrosamento e conjunto. E isso nós não temos. Sem falar que boa parte desses astros do futebol europeu, como Vinícius Júnior e Rafinha, não repetem na seleção a performance dos seus clubes. E ainda há os jogadores contundidos que, caso se recuperem, podem chegar a meia boca na Copa. A Argentina, que é a atual campeã do mundo, mantém o mesmo treinador e o elenco vitorioso há mais de cinco anos. Mas, pasme, em uma dessas mesas redondas diárias  da TV ,a maioria dos debatedores cravou que a Argentina não é favorita se encarar o Brasil. Desliguei o aparelho imediatamente.

Sabemos que o interesse comercial da imprensa, especialmente do Sistema Globo, que detém os direitos de transmissão, está por trás do ufanismo divorciado dos fatos que dá o tom da cobertura  neste período pré-copa e que só tende a crescer até a bola rolar dia 11 de junho. Repare a enxurrada de comerciais de TV forçando a barra para criar um clima de expectativa otimista pela conquista do hexa que já inunda a programação. 

No entanto, custa manter um mínimo de senso crítico, cautela e pés no chão em relação às reais possibilidades da seleção? É demais cobrar algum respeito ao bom jornalismo, que como dizia o saudoso jornalista Mino Carta deve ser fiel à verdade factual? E quando acontece o pior, como em 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022, fazem cara de tacho e só então resolvem fazer as críticas mais óbvias. É como se, diante do fracasso, os nossos repórteres e comentaristas bradassem: "Esqueçam tudo que eu disse."

Fora o caso de Neymar, vários jogadores escolhidos estão em má fase, ou não estão jogando bulhufas. Alguns, que são quase ex-jogadores em atividade, foram chamados por Ancelotti, enquanto outros ótimos jogadores, como o centroavante João Pedro, do Chelsea da Inglaterra, que fez 15 gols na atual edição da Premier League, foram esquecidos.

Porém, o tribunal da mídia já decidiu que não se deve questionar as escolhas do mister italiano, batendo na tecla de que" é com esse grupo que vamos e ponto final." Pode anotar: só na hora em que a vaca for para o brejo, eles se lembrarão dos erros da convocação. 

Moral da história: nem sempre as melhores seleções conquistam Copas do Mundo. É que não se trata de um campeonato de pontos corridos, que costuma premiar os times mais fortes e regulares, mas sim de um torneio eliminatório, de tiro curto. Não é uma maratona, mas uma corrida de 100 metros rasos. Uma expulsão, um pênalti mal marcado ou um dia de azar podem mandar favoritos de volta para casa mais cedo. O Brasil pode ser hexacampeão? Sim, tem tradição e camisa. Mas, em condições normais de temperatura e pressão, seria uma grande zebra.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.