Corona vírus: A Solução Francesa vs. A Solução Cubana

Se tem uma lição que a esquerda brasileira precisa aprender com Cuba neste momento, é que a mobilização dos trabalhadores pelos trabalhadores, é a única saída viável para conter a pandemia

Emmanuel Macron com a polícia
Emmanuel Macron com a polícia (Foto: Reuters)
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Por Leonardo A. Nunes Soares Filho

O ano de 2021 começou com um aumento dos casos de Covid-19 em escala mundial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), foram registradas 9.921 mortes por Covid-19 durante o primeiro dia de 2021. Dessa forma, o total de vítimas fatais da doença em todo o planeta sobe para 1.815.433, segundo os dados da OMS. 

No entanto, o número de mortos não é o único dado preocupante. Apenas durante o 1º dia de janeiro foram registrados, segundo a OMS, 470.046 novos casos de infecção pela Covid-19, jogando o número total de já infectados para 82.356.727 pessoas.

Por conta disso, em todo o mundo já se anunciam novas medidas restritivas, como na França, onde o toque de recolher foi imposto, a partir deste sábado, em 15 departamentos franceses. Por volta de 6 milhões de pessoas não poderão deixar suas casas depois das 18h, horário local, salvo exceções. Ademais, no restante do país o toque de recolher se mantém, a partir das 20h. 

O que parece contrariar as medidas do Estado francês são os números de novos contaminados que não param de subir. Com quase 20.000 casos diários, número muito acima da meta de 5.000 infectados, o Estado francês estuda endurecer ainda mais a repressão. Como anunciou o porta-voz do governo francês, Gabriel Attal, na sexta-feira. "Se a situação se deteriorar ainda mais em certos territórios, tomaremos as decisões necessárias".

No entanto, é importante notar que mesmo antes da pandemia de Covid-19, o mundo inteiro e, em especial os países do centro capitalista, passavam por uma tormenta política e econômica. A França, em especial, foi o núcleo explosivo de um movimento conhecido como “coletes amarelos”, que apesar de sua ambiguidade política, era inegavelmente uma expressão popular de anseios também populares, que iam de encontro frontal com o “establishment” político francês. 

A quarentena na França não começou com o Covid-19, começou com um outro vírus: o vírus da mobilização popular. As mesmas medidas foram tomadas para enfrentar ambas as “patologias”: fiquem em casa e só saiam quando necessário, evitem o contato uns com os outros. A diferença está na questão do trabalho, se antes todos trabalhavam, agora os setores mais abastados fazem suas atividades remotamente, em quanto que o pobre deve se expor para garantir os “serviços essenciais”. Afinal, o “fique em casa” é só para quem pode.

A utilização dos instrumentos repressivos do Estado como resposta a crise sanitária não é uma coqueluche francesa, muito pelo contrário, em todo o mundo (incluindo o Brasil) se observou a utilização extensiva da polícia, quando não do exército, para conter a “massa inculta” que se recusa a ficar em suas casas. 

Até mesmo a “esquerda” brasileira apoiou a utilização da repressão como forma de contenção popular para “salvar vidas”, como no caso da obrigatoriedade das vacinas, medida abertamente apoiada por políticos de partidos como o PDT e PCdoB. Ou seja, a “esquerda” que se auto intitula como tal, que tem como base essa “massa inculta” que deve ser contida pelo Estado burguês brasileiro, foge de sua responsabilidade em organizar e educar o povo frente a pandemia. Ao contrário de apontar a realização de mobilizações de ajuda muta, greves por melhores condições sanitárias de trabalho, entre outras questões que deveriam compor um programa popular emergencial, encastelam-se em suas casas e vociferam com qualquer um que faça o inverso. E pior, delegam a responsabilidade ao Estado burguês de decidir o que é melhor para a população, sem exigir também a participação das organizações populares nas tomadas de decisão de uma crise global. Até mesmo os sindicatos, organizações de luta dos trabalhadores, estão com suas sedes fechadas, mesmo que a categoria ainda esteja trabalhando. De fato, o “fique em casa” é a política da esquerda brasileira. 

Um caso de sucesso

Em quanto os EUA amargavam um ano novo com vinte milhões de infectados e quase trezentos e cinquenta mil mortes, Cuba, ainda no início de 2020, demonstrava como lidar com uma crise sanitária em escala global. Desde de março do ano passado, milhares de estudantes de medicina percorrem os rincões mais distantes do país em busca de possíveis casos do temido vírus. 

Na ilha caribenha, as autoridades de saúde questionam a população procurando por sintomas respiratórios que indiquem a presença do Covid-19. Os casos suspeitos são registrados imediatamente.

 "Não me sinto sobrecarregada ou estressada, porque sei que temos um sistema de saúde muito amplo", revelou Bárbara García, uma camponesa de 70 anos em entrevista à Agence France-Press (AFP). Por sua vez, os casos suspeitos são recomendados o isolamento e os casos mais graves são imediatamente encaminhados aos hospitais responsáveis.

A mobilização estudantil, dos trabalhadores da saúde e da população em geral se mostrou o grande aliado contra a pandemia. A educação popular através das organizações da classe foi a ferramenta utilizada para garantir o sucesso da experiência cubana, garantindo que os trabalhadores da saúde e estudantes estejam de prontidão para atuar e que a população tome as medidas necessárias e procure os centros de saúde para atendimento dos casos mais graves. Hoje a ilha colhe os resultados de suas escolhas políticas: 

sao paulo cuba

Os dados são referentes ao dia 03/01/2021, recolhidos pela universidade de medicina Johns Hopkins, localizada em Baltimore, no estado de Maryland. Em comparação direta com a cidade de São Paulo, Cuba apresenta números infinitamente inferiores no campo dos infectados e no número de mortos, todo esse processo acompanhado por instituições internacionais, inclusive estadunidenses. 

Saídas e Lições 

Não foi necessário obrigar os cidadãos a tomarem vacinas sob ameaça dos fuzis, ou instaurar toque de recolher, muito menos declarar estado de emergência, como feito na França em 17 de outubro e em outros Estados pelo mundo a fora. Bastou a organização dos trabalhadores e estudantes em uma verdadeira democracia popular, que consegue priorizar os interesses do povo, como uma saúde pública de qualidade, para que Cuba fosse capaz de lidar com a pandemia. Se até mesmo uma pequena ilha do caribe que sofre a mais de 60 anos com o embargo estadunidense e de seus aliados consegue lidar com a pandemia, o que torna impossível as potências mundiais contornarem tal problema? E pior, além de não resolverem a questão aproveitam da pandemia para recrudescerem seus regimes e apertar a coleira nos direitos do povo, alegando que a decisão é meramente “científica”.

O avanço da Covid-19 demonstra claramente duas questões de extrema importância: se por um lado as grandes e pequenas economias burguesas se mostram incapazes de conciliar os interesses da classe dominante e a saúde dos trabalhadores; por outro esses mesmos governos utilizam-se da pandemia para restringir a liberdade do povo em um momento delicado para o modo de produção capitalista, que respira com ajuda de aparelhos desde a crise mundial de 2008.

Duas opções claras se abrem após o ano de 2020, uma envolve um Estado policial que oprime o povo sobre os ditames da burocracia do Estado Burguês e que claramente falhou na contenção do vírus; e outra que envolve um Estado controlado pela maioria da população, cujo os recursos políticos e econômicos estão voltados para os interesses do povo e que é capaz de controlar a pandemia porque seu próprio povo está ativamente mobilizado para esta luta.

Apenas um Poder vinculado diretamente ao povo tem os interesses deste mesmo povo em primeiro plano. Se tem uma lição que a esquerda brasileira precisa aprender com Cuba neste momento, é que a mobilização dos trabalhadores pelos trabalhadores, é a única saída viável para conter a pandemia. E que não haverá “fé na ciência” que possa nos salvar das garras da classe dominante brasileira e seu desdém pela vida desta gente caiçara.

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