Cotidiano às vésperas da eleição

Além da intolerância e do ódio contra o PT, o que surpreende é a absoluta falta de critério por boa parte dos eleitores para avaliação da realidade econômica e social no Brasil

Com o botton da candidata Dilma colado a camisa, peço à atendente do caixa um café. Estou em Curitiba, num shopping localizado em um dos bairros mais sofisticados da cidade. Enquanto aguardo, ela me olha e pergunta. "Vota na Dilma?". Digo que sim e questiono em quem ela vai votar. Sem responder, apenas afirma "não voto nela de jeito nenhum". Insisto em saber o porquê. Evasiva, diz que "todos são ladrões". Tento argumentar, mas sua ignorância política é tamanha que a conversa não vai adiante. Só consegui saber sua idade: 19 anos.

Há menos de dois metros, um segurança ouve o diálogo e intervém. "Ela é muito jovem e não conhece o passado". Tenta mostrar a ela que no governo Fernando Henrique Cardoso o salário mínimo era "muito inferior a US$ 100" e que uma vitória tucana agora seria muito ruim para o Brasil. "Trabalhei na Universidade Positivo durante o governo FHC até há poucos meses. Lá pude constatar como os mais pobres tiveram oportunidade. Graças ao ProUni, jovens sem condições financeiras para pagar uma faculdade privada sentavam ao lado dos ricos para estudar" testemunha.

Com ar professoral, segue dando lições de economia. "O apoio dos bancos ao candidato do PSDB significa que os juros vão aumentar. Já viu banco apoiar de graça? Isso vai refletir aqui no shopping...". Depois, volta-se a jovem e diz que "até a venda do cafezinho pode diminuir". Nos despedimos com um sorriso, um cumprimento e cada qual segue seu caminho.

Horas antes, estive com minha mulher e filha em uma praça da capital paranaense para ouvir a presidenta Dilma Rousseff. Minha filha reencontra um amigo e ex-colega da faculdade de Jornalismo – a mesma que o segurança do shopping havia trabalhado. Ele justifica o voto à candidata do PT "pois graças ao ProUni" conseguiu se formar e agora cursa a segunda faculdade. Diz-se surpreso com alguns dos atuais colegas que escolheram votar no tucano sob o argumento que o mercado de trabalho está concorrido. "Digo a eles" prossegue o jovem jornalista "que de fato está concorrido porque o ProUni permitiu que os mais pobres possam estudar. Assim, cresce a oferta de profissionais. Mas isso é muito bom para nós e para o Brasil" concluiu.

Além da intolerância e do ódio contra o PT, o que surpreende é a absoluta falta de critério por boa parte dos eleitores para avaliação da realidade econômica e social no Brasil. O tema recorrente é a corrupção e o PSDB, blindado pela mídia que divulga apenas o que melhor convier, posta-se como um clube de vestais na defesa da ética e da moralidade. O governo FHC, principalmente em seu segundo mandato – aliás, os votos que garantiram a aprovação da emenda à reeleição no Congresso foram comprados a peso de ouro - foi uma sucessão de escândalos durante o processo de privatização. Basta citar a venda dos bancos estatais, das empresas de telecomunicações e da Vale do Rio Doce. A diferença é que hoje as denúncias são apuradas.

O mensalão mineiro apodrece nas gavetas da justiça de Minas Gerais; a CPI para apurar o propinoduto que envolve as compras de trens e a manutenção do metrô em São Paulo e incrimina a alta cúpula do tucanato paulistano será instalada após as eleições. Diante de tanta corrupção, construir um aeroporto na propriedade de parente com dinheiro público torna-se algo insignificante. A mídia esconde o que convêm. A fatura vem depois.

Para conhecer o Brasil atual basta sair de casa e ir até a esquina. Aquele que deseja saber um pouco mais pode se dirigir a periferia de qualquer cidade brasileira, principalmente as de pequeno porte. Não é preciso debruçar sobre os complexos estudos de macroeconomia ou avaliar gráficos estatísticos. Nas ruas o tráfego é lento porque os carros estão por todos os lados. O setor de construção civil, tanto de engenharia como comercial, tem sua capacidade instalada praticamente esgotada pelo excesso de demanda. A economia vive um momento de quase pleno emprego. É só caminhar pelas calçadas e ler as centenas de anúncios de empregos afixadas nas portas comerciais.

Na educação, vale comparar dados que envolvem estudantes de curso superior. Entre 1930 e 2002, o número de universitários no Brasil alcançou a 3,5 milhões. Nos últimos doze anos, atingiu a casa de 7,5 milhões. Tudo isso sem contar os programas sociais que devolveram a mais de 30 milhões de brasileiros o mínimo de dignidade como moradia, trabalho e o direito de sonhar com dias melhores.

O projeto econômico do PSDB prevê, conforme afirmou o futuro ministro da economia, Armínio Fraga, o fim dos bancos públicos – Caixa Econômica, Banco do Brasil e BNDES seriam privatizados. Com isso, corre-se o risco dos projetos sociais transformarem-se em pó. Segundo a própria presidenta Dilma Rousseff, a prestação da casa própria no programa Minha Casa, Minha Vida que custasse hoje R$ 80,00, ao ser transferido para um banco particular e cobrado os juros de mercado, passaria para R$ 940,00.

Nessa eleição, o Brasil vai decidir por duas propostas distintas. De um lado, a continuidade do projeto social que fez o País avançar como em nenhum outro momento de sua história. Sem dúvida que o governo necessita aprimorar e modernizar suas estruturas públicas. Temos lacunas imensas nas políticas de saúde, na segurança pública e na educação. Aliás, governar é avançar sempre. No outro lado, um projeto elitista – sim, elitista, discriminatório, sem preocupação social e voltado aos interesses do grande capital - que visa, entre outras medidas já anunciadas por Fraga, diminuir o salário mínimo e promover alterações na CLT. Só isso bastaria para temer os desdobramentos sociais que invariavelmente virão ao reboque.

A decisão pelo futuro do Brasil e dos brasileiros depende do voto de cada eleitor.

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