CPI da Pandemia, Pacheco e o tribunal da história

"O apavorado do Alvorada é cão sem dente que late sem condições de morder. Sabe que sua batata está assando e que terminará sendo punido por todos os crimes que cometeu na condução da pandemia", escreve a doutoranda em História pela UFMG Carla Teixeira

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(Foto: Chico Batata/Divulgação | Marcos Corrêa/PR)


A recente decisão do ministro Luís Roberto Barroso, determinando que o Senado Federal instale a CPI da Pandemia – responsável por apurar os crimes cometidos pelo Governo Federal e o ministério da saúde na crise sanitária de Manaus, cuja falta de oxigênio e insumos resultou na morte de dezenas de pessoas num único dia – inflamou os ânimos em Brasília e colocou contra a parede o plano de morte idealizado por Bolsonaro e seus capangas.

Alguns apontam uma suposta interferência do Judiciário no Legislativo, através da determinação de abertura da CPI, o que não se configura, tendo em vista que a decisão apenas fez valer o que diz o regimento interno do Senado, garantindo o direito da minoria convocar uma CPI desde que conte com 27 assinaturas de pares. A atual requisição possui 31 subscrições e seguiu até ontem na gaveta do presidente da casa, Senador Rodrigo Pacheco (DEM/MG), apesar da pressão de senadores favoráveis às investigações e apurações das responsabilidades sobre os crimes da pandemia.

Pacheco é conhecido por sua característica moderada, conciliadora e mediadora. Desde que assumiu a presidência do Senado, mostrou-se disposto a dialogar com o governo e com todas as forças e organizações da sociedade para viabilizar a compra de vacinas e o devido enfrentamento à crise. Todo o seu discurso se mostrou fantasioso, chocando-se violentamente com a realidade: o Brasil é o campeão em número diário de mortes, o Comitê de Crise, criado em Brasília com ausência de governadores e prefeitos, não trouxe qualquer resultado e o cronograma de vacinação segue sendo desrespeitado pelo ministério da saúde que a cada dia diminui o número de doses previstas.

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Após a determinação de Barroso, Pacheco voltou a defender que não via necessidade para a implantação de uma CPI, pois esta poderia caracterizar o completo fracasso do país no enfrentamento da crise sanitária e ainda ser convertida em palanque para as eleições de 2022, atrapalhando os esforços de união e coesão necessários ao combate à covid-19. O Senador ignora completamente que, sob o comando de Bolsonaro – que desde o primeiro momento decidiu rivalizar com cientistas, governadores e prefeitos ao se recusar a seguir as medidas sanitárias e liderar a crise –, o país já fracassou no combate à pandemia.

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A contaminação está fora de controle enquanto os números de doentes e mortos apenas crescem. A ANVISA, tutelada por Bolsonaro, segue impondo empecilhos à aprovação de vacinas e não há qualquer perspectiva de que o número de óbitos irá diminuir nas próximas semanas. Pacheco também ignora que o Presidente da República já está em campanha para sua reeleição e que utilizou compromissos oficiais para aglomerar e desrespeitar determinações sanitárias de restrição social e uso de máscaras – expedidas por governadores e prefeitos de todo o país. Desde o primeiro momento, o presidente da República constituiu uma fonte permanente de desagregação ante qualquer esforço da sociedade no enfrentamento à pandemia. Após centenas de milhares de cadáveres e o completo desastre econômico, apenas Pacheco acredita que é possível diálogo e união com Bolsonaro. Talvez por ingenuidade, talvez por oportunismo político.

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Em recente entrevista ao Roda Viva, ao ser questionado sobre a abertura da CPI da Pandemia, Pacheco repetiu o conhecido discurso ao dizer que não é hora de apontar culpados e que caberá ao tribunal da história julgar o momento que passamos. Recusar-se a apontar culpados, diante da crise atual, é assumir atestado de culpa e errar, no mínimo, por conivência e/ou omissão. Esperar pelo julgamento da história é pura artimanha, quase cinismo. O tribunal da história demanda tempo, geralmente o suficiente para que os culpados morram e não tenham de pagar, em vida, pelos crimes que cometeram. Então faz sentido Pacheco e outros, que se associaram ao genocida por emendas, cargos e apoio político, esperarem pelo julgamento da história.

Mas a sociedade não concorda, o Senado e o STF também não. Os crimes estão sendo cometidos diariamente e o país cobra por esclarecimentos. A CPI poderá revelar a inação do Governo Federal para conter a prevista crise de oxigênio e a recusa na compra de vacinas, assim como a ação direta do ministério da saúde na distribuição do “kit covid”, com medicamentos sem eficácia contra a covid, agravando a crise sanitária com o surgimento de doenças oriundas da automedicação praticada pela população. Bolsonaro ameaça com Forças Armadas e, agora, com o impeachment do ministro Barroso. O apavorado do Alvorada é cão sem dente que late sem condições de morder. Sabe que sua batata está assando e que terminará sendo punido por todos os crimes que cometeu na condução da pandemia. Por isso se debate. Quem se debate é afogado.

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