Paulo Henrique Arantes avatar

Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

409 artigos

HOME > blog

Créditos de carbono são a captura financeira da agenda climática

A preservação deixa de ser um dever coletivo e passa a ser um instrumento de especulação e marketing verde

Créditos de carbono são a captura financeira da agenda climática (Foto: Agência Brasil )

A emenda de Hugo Motta sobre créditos de carbono, seu questionamento no Supremo Tribunal Federal, o possível favorecimento à família Vorcaro, as reais intenções do deputado que preside a Câmara, as implicações morais do fato e seus desdobramentos legais poderão, positivamente, lançar luz sobre a face mais importante disso tudo: a utilidade real dos créditos de carbono como iniciativa de preservação ambiental.

É ótima a propaganda dos créditos de carbono como ativos de conservação ambiental, mas não há consenso sobre o tema, e mais: os argumentos contrários são bem mais convincentes.

Uma empresa poluidora que adquire créditos de carbono fica automaticamente autorizada a emitir mais CO2. O ganho ambiental residiria no fato de que o dinheiro pago pelos créditos será usado para financiar projetos de preservação e recuperação do meio ambiente. Trata-se, portanto, de uma licença para poluir.

Ambientalistas críticos referem-se ao dispositivo como uma “compensação contábil” pela poluição do ar. Difícil contestá-los.

Ao substituir a obrigação de reduzir emissões por uma compensação financeira, o mecanismo inverte a lógica da política ambiental: em vez de forçar a transformação do modelo produtivo, ele acomoda interesses econômicos e posterga decisões estruturais. A crise climática deixa de ser tratada como um limite físico do planeta e passa a ser administrada como um problema de mercado, sujeito a preços, contratos e narrativas convenientes.

Além disso, grande parte do mercado de créditos de carbono é marcada por fragilidade técnica. Projetos são certificados com base em premissas questionáveis, reduções infladas e promessas futuras difíceis de verificar. Emissões reais, imediatas e mensuráveis são “compensadas” por reduções hipotéticas, muitas vezes reversíveis ou inexistentes.

Os créditos de carbono constituem a captura financeira da agenda climática. Grandes emissores preservam sua margem de lucro enquanto transferem a responsabilidade ambiental para territórios periféricos, convertendo florestas, comunidades e bens comuns em ativos negociáveis. Nesse contexto, a preservação deixa de ser um dever coletivo e passa a ser um instrumento de especulação e marketing verde.

Sem cortes obrigatórios de emissões, fiscalização rigorosa e limites claros, os créditos de carbono tendem a servir mais para legitimar a inação climática do que para enfrentá-la.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.