Cândido Vaccarezza avatar

Cândido Vaccarezza

Dr. Cândido Vaccarezza é um médico e político formado pela Universidade Federal da Bahia e atualmente mora em São Paulo. Ele tem especializações em ginecologia e obstetrícia, saúde pública e saúde coletiva. Durante a pandemia, foi diretor do Hospital Ignácio P Gouveia, referência para o tratamento de Covid na Zona Leste de São Paulo. Como político, ele participou da luta pela democracia no Brasil na década de 1970 e foi deputado estadual e federal pelo PT. Além disso, ele também foi líder na Câmara do Governo Lula e Dilma e secretário de esporte e cultura em Mauá. Reg

41 artigos

HOME > blog

Crime hediondo, a barbárie, um pai mata dois filhos

Vamos cuidar das nossas famílias, dos nossos amigos, das pessoas que amamos e vamos combater o ódio

Thales Machado (Foto: Reprodução)
“O furto, o estupro, o rapto pútrido // O fétido sequestro // O adjetivo esdrúxulo em U // Onde o cujo faz a curva // O cu do mundo, este nosso sítio.”

O crime ocorrido em Itumbiara, Goiás, na noite do dia 8 de fevereiro, o filicídio seguido de suicídio, foi mais horroso e mais bárbaro do que descreve Caetano Veloso em sua marcante música contra a persistente barbárie que atravessa os milênios da vida dos homo sapiens. Evoluímos assustadoramente. Cada vez mais, em novas tecnologias, evoluímos de forma impensável na melhoria da qualidade de vida, evoluímos na organização política e social das nações, mas não nos livramos de barbaridades como a que cometeu o até então tido como homem decente, o criminoso e suicida Thales Machado.

Thales, homem “bem posto” na sociedade, genro e secretário do governo do prefeito Dione, pai de Miguel, 12 anos, e de Benício, 8 anos, pré-candidato a deputado, casado com a senhora Sara há 15 anos, por ciúme, machismo, ego ferido, ou seja lá o que for, matou a tiros os seus dois filhos e se matou com a mesma arma. Viu, naquele instante, que os filhos ainda agonizavam, mas iam morrer, não prestou socorro. Antes de cometer o suicídio, postou na sua rede social uma mensagem tentando desmoralizar a esposa, chamando os filhos de anjos, pedindo perdão ao sogro, a Nossa Senhora, a Jesus Cristo e, como desconfiava que não teria lugar no céu, escreveu que não sabia para onde ele iria; então consumou o autoextermínio, conforme termo técnico.

Segundo as pessoas que conheciam a vida íntima do casal, eles apenas viviam na mesma casa, era um casamento de fachada, como se costuma dizer. Ele não queria se separar porque teria uma campanha pela frente ou talvez por outro motivo e, inclusive, tudo indica que teve um caso anteriormente. A vida íntima deles não importa, nada justifica um crime bárbaro como este. As principais vítimas são os dois filhos, crianças que tinham muitas décadas de vida pela frente e que poderiam contribuir muito com a sociedade, outra vítima é a senhora Sara. Uma mãe ou um pai que já perdeu um filho precocemente, sabe o tamanho da dor que jamais desaparecerá. Perdi uma irmã no auge da sua vida, aos 48 anos, vi o sofrimento do meu pai até a sua morte e vejo o sofrimento da família e, em particular, da minha mãe. Este é um sofrimento que a Senhora Sara carregará até o final dos seus dias, ela precisará de muito apoio e da solidariedade dos amigos. Não a conheço, mas externo a ela e aos familiares das duas crianças minhas condolências.

Vejamos a tragédia Thales; imaginem o sofrimento dos seus pais, parentes e amigos; imaginem o cenário do enterro… Mesmo sem entender o que se passou na cabeça de Thales nos últimos dias, ou nas últimas semanas, pois o crime pareceu planejado, queria punir a mulher, se isso, optou pelo crime vicário, o fato de ser pai não contava, os filhos eram dele, não podiam viver com a mãe, propriedade mesmo… Lembrei-me de um livro que li aos 15 anos, de Khalil Gibran: “vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma”. E se Thales teve um surto ou uma manifestação psicótica? Não parece, não sou psiquiatra, mas apesar da manifestação na sua mensagem traduzir um distúrbio de afetividade, ele justifica ao dizer que “todos sabem como sou intenso e verdadeiro e não iria conseguir viver mais com essas lembranças”. A despeito de ter consciência do sofrimento que iria deixar para sempre em seus pais, parentes, amigos, para o próprio sogro, prefeito que queria fazê-lo deputado, parentes e amigos de seus filhos, além da turbulência que iria causar na sociedade, o que importava, para ele, era a sua intensidade. É muito triste e horrível tal situação, mesmo assim ele também é uma vítima do seu caráter e das suas próprias circunstâncias.

Por falar em horrível, mas denunciador da barbaridade que permeia nossa sociedade, não vou citar, mas está às vistas na internet um número expressivo de comentários jocosos, depreciadores e até criminosos a receber apoios e likes, é medonho. Isto chama a atenção para todos nós que vivemos, e viveremos, independentemente da nossa vontade, em sociedade com regras que conduzem para nos distanciar da barbárie.

Vamos cuidar das nossas famílias, dos nossos amigos, das pessoas que amamos e vamos combater o ódio, as disputas excludentes por motivos torpes. Os que viverão depois de nós merecem viver melhor e em harmonia.

Finalizo com uma explicação para as motivações que levaram ao suicídio de Thales, já que não considero como principal a hipótese de surto psicótico. Arrisco, sem muita precisão, a tomar emprestado conceitos de Émile Durkheim, depois da situação posta e de ter matado os filhos, com sua intensividade. Thales percebeu que não existia mais lugar para ele no planeta, numa combinação do suicídio fatalista, pois a regulamentação da sociedade não lhe possibilitava mais nenhum lugar a não ser a prisão, e do suicídio anômico, pois com a confusão moral e a falta de sentido para continuar na vida, ele deve ter pensado “pare o mundo que eu quero descer”, como não existia esta possibilidade se matou.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados