Cristina destroça o lawfare e o Judiciário argentino

'Sua defesa é uma peça extraordinária, porque desmascara as acusações contra ela, revertendo-as em acusações contra o Poder Judiciário argentino e concluindo que: “Com essa Justiça, não pode haver democracia"', escreve o sociólogo Emir Sader

(Foto: Reuters UK)
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Por Emir Sader 

Cristina Kirchner é das dirigentes mais corajosas que a Argentina e a América Latina já tiveram. Ela foi – e continua sendo - covardemente, vitima de uma das versões mais absurdas do lawfare. 

Sua defesa é uma peça extraordinária, porque desmascara as acusações contra ela, revertendo-as em acusações contra o Poder Judiciário argentino e concluindo que: “Com essa Justiça, não pode haver democracia”. 

 Este absurdo processo – um entre tantos que ela sofre – é sobre uma política de dólar futuro do seu governo, quando tinha o atual governador da província de Buenos Aires, Axel Kiciloff, como seu ministro da Economia. Uma política que visava libertar a Argentina de uma das amarras que mais dificulta a economia do país de avançar, porque é ligada à dolarização herdada da crise de 2001/2002. 

 Os dois foram acusados de terem recebido vantagens para eles, para amigos e funcionários do governo, que teriam se enriquecido muito com aquela política. Uma denúncia feita no começo do segundo turno das eleições presidenciais de 2015, que favoreceram abertamente a Maurício Macri, candidato da direita, apoiado abertamente pelo Judiciário. 

 Que, não contente do escândalo que fizeram na mídia complacente, promoveram ações na casa da Cristina e na sede do Banco Central, em plena campanha eleitoral. Ações que tiveram um peso decisivo no segundo turno, que tinha o candidato da Cristina, Daniel Sciola, com vantagem pequena sobre Macri nas pesquisas para o segundo turno. 

 Acusações que se prolongaram ao longo do tempo não impediram que Cistina fosse eleita como senadora e Kiciloff fosse eleito como governador da província de Buenos Aires. Mas que reforçaram os clichês na mídia de que os peronistas são corruptos, de que Cristina é corrupta, clichês assumidos até por alguns setores de esquerda. 

 Pois bem. Macri ganhou as eleições e, ao contrário do que havia prometido na campanha eleitoral, fez uma grande desvalorização da moeda, de que Cristina foi sempre acusada de fazer, mas nunca o fez, pela consciência de como esse mecanismo financeiro recai duramente sobre os setores populares do país. 

 E, para espanto geral, em um levantamento do Judiciário, se concluiu que nem Cristina, nem Kiciloff, nem nenhum amigo ou funcionário do governo da Cristina, tinha comprado dólares e se beneficiado da politica de dólar futuro. Decisão tornada pública em 2020, cinco anos depois do lawfare e da vitória de Macri. Que, como presidente, promoveu uma desvalorização, de que se valeram assessores fundamentais do governo, para lucrar – justamente o que se havia acusado, sem fundamento à Cristina. Diante do silêncio e do beneplácito do Judiciário e da grande mídia argentinas. 

 Cristina segue respondendo por esse absurdo processo. Fez uma espetacular e corajosa defesa oral, em que reverte todas as acusações e faz pesar sobre o Judiciário graves responsabilidades de intervenção política, que levou a Argentina a sofrer quatro anos de retrocesso e novo endividamento com o FMI, de Mauricio Macri.   

 Esse é um dos processos de lawfare na Argentina, que recaem sobre Cristina, similares aos processos igualmente sem fundamento, que levaram o Lula à prisão e o impediram de ser eleito de novo presidente do Brasil no primeiro turno, em 2018, impedindo o país de sofrer a pior crise da sua história, com milhares de mortos diários, atraso na vacinação, depressão econômica e miséria social. 

 Os mesmos processos que recaem também sobre Evo Morales e sobre Rafael Correa, impedindo-os de se candidatarem à presidência dos seus países, mas incapazes de impedir que os candidatos apoiados por eles, triunfem, e desfaçam todas as politicas deletérias dos governos que restauraram as políticas neoliberais na Bolívia e no Equador. 

 Cristina faz uma defesa inquestionável do seu comportamento, destroça os argumentos dos processos contra ela e acusa o Judiciário argentino de, através do lawfare, da judicialização da política e de interferência antidemocrática na política argentina. Para concluir, como mencionei acima – tese defendida também pelo Presidente Alberto Fernandez – de que sem democratização do Judiciário, a Argentina nunca terá uma democracia plena.

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