Cristovam Buarque: o traidor da educação

Por despeito e desonestidade, Cristovam desconsidera a revolução silenciosa que os governos de Lula e Dilma produziram na educação brasileira, único período histórico em que o setor foi considerado política pública estratégica para o desenvolvimento social, econômico, humano e cidadão neste País

Senador Cristovam Buarque (PDT-DF) concede entrevista. Foto: Ana Volpe/Agência Senado
Senador Cristovam Buarque (PDT-DF) concede entrevista. Foto: Ana Volpe/Agência Senado (Foto: Erika Kokay)

O senador Cristovam Buarque (PPS-DF) publicou na última terça-feira (22/5), no Correio Braziliense, artigo intitulado "Mesmos Compromissos" para tentar justificar ao eleitorado brasiliense a opção política que fez de lançar Izalci Lucas (PSDB) para o governo do Distrito Federal.

Cristovam tenta com isso justificar o injustificável e criar uma armadilha semântica para ludibriar os eleitores: quer vender a ideia de que mesmo se aliando às forças obscurantistas responsáveis pela ruptura democrática e a tomada de assalto do poder central da República, continua com os mesmos compromissos de um parlamentar progressista. Puro diversionismo!

Isso porque o senador encontra-se atualmente num limbo político, no qual não é visto com confiança nem pelas forças do atraso, muito menos pelo campo progressista, este último o maior crítico de sua atuação política e parlamentar.

Ocorre que sobra pouca margem para Cristovam fazer esse tipo de malabarismo falacioso, para não dizer intelectualmente desonesto, pois os fatos falam por si.

Desde que votou a favor do impeachment sem crime de responsabilidade que arrancou Dilma Rousseff do Palácio do Planalto, ele vem numa guinada crescente e sem retorno para os braços do rentismo e do fundamentalismo.

Em seu artigo, o senador coloca-se como paladino da moral e da ética. Tem a desfaçatez de apontar que a "pureza ética do bloco vermelho foi manchada", como se pudesse fazer tal afirmação e sair incólume, mesmo selando aliança com o PSDB, um dos partidos mais corruptos do Brasil.

Quando o assunto é "pureza ética", o pré-candidato de Cristovam ao Palácio do Buriti não fica de pé. Izalci acumula uma lista substancial de denúncias que vão desde a invasão de áreas públicas no DF, até o fato de ser réu no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo cometimento de crimes contra a fé eleitoral e falsidade ideológica.

Aliás, que moral tem Cristovam para estar nesse lugar de fala após colocar uma quadrilha no Palácio do Planalto e lançar um nome que é base de apoio de Michel Temer, o qual votou por duas vezes para impedir investigações do primeiro presidente da história a ser acusado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) de cometer crimes comuns no exercício do cargo?

Mas os despropósitos do não param por aí. Cristovam diz que "a perda de substância do bloco vermelho" se deu por não ter tido a capacidade de fazer as reformas estruturais de que o povo precisa, principalmente na educação.

Por óbvio, ele acredita que tais reformas estruturais foram feitas pelo governo ilegítimo de Temer, cujo ato mais simbólico é a aprovação da Emenda Constitucional 95, que congelou os gastos em políticas públicas pelos próximos 20 anos, mantendo inalteradas todas as despesas financeiras.

Embora tenha votado favorável a tal emenda, Cristovam insiste no slogan de "senador defensor da educação". Difícil é convencer alguém disso, uma vez que a EC 95 tornou-se o maior pesadelo da educação pública brasileira, a causa da gravíssima crise financeira que atinge as universidades públicas e os institutos federais.

Ao se abraçar com seu pré-candidato, o ex-reitor da Universidade de Brasília parece estar mesmo disposto a sepultar os ideais que deram origem a sua vida pública. Isso porque Izalci, ex-proprietário de escola particular no DF, é reconhecido como ferrenho defensor dos interesses privados na educação, em detrimento de um modelo público, gratuito e de qualidade.

É oportuno lembrar que o mesmo Cristovam que tem como bandeira a federalização do ensino básico, cujo objetivo seria o "governo federal adotar as crianças, manter as escolas e pagar o piso salarial dos professores", quer como governador o defensor do polêmico projeto de cheque-educação. Tal projeto possibilita que estudantes da rede pública com boas notas possam ser matriculados com descontos em escolas particulares.

Em nome de conveniências eleitorais, Cristovam abriu mão de suas próprias convicções para apoiar Izalci, autor do projeto Escola Sem Partido, apesar do senador inúmeras vezes ter se manifestado contrário a matéria. Chegou a classificar o projeto de "Escola com Censura", quando apresentou relatório rejeitando proposição de igual teor no Senado Federal.

Portanto, é evidente a existência de um abismo entre o discurso e a prática do senador, que tem feito da contradição a tônica de suas escolhas políticas.

Opositor contumaz das políticas educacionais adotadas pelos governos democráticos e populares de Lula e Dilma, Cristovam será o responsável por formular o programa de governo de Geraldo Alckmin (PSDB) para a educação.

Por despeito e desonestidade, Cristovam desconsidera a revolução silenciosa que os governos de Lula e Dilma produziram na educação brasileira, único período histórico em que o setor foi considerado política pública estratégica para o desenvolvimento social, econômico, humano e cidadão neste País.

São inúmeros os avanços produzidos no período, com destaque para as cotas nas universidades, as quais garantiram como nunca o acesso da parcela mais pobre da população, dos negros, dos indígenas e dos quilombolas ao espaço acadêmico, política que está ameaçada pelos brutais cortes de recursos promovidos pelo governo ilegítimo nas políticas de assistência e permanência.

Enquanto Temer e PDSB sucateiam o ensino público com o intuito de privatizá-lo, o padrão do financiamento público da era Lula e Dilma asseguraram crescimento real do orçamento da educação em 206%, descontada a inflação.

Ademais, foi o governo da presidenta Dilma que aprovou lei que destinou 75% dos royalties do petróleo e do Fundo Social do Pré-Sal para a educação, a mais importante fonte de financiamento do setor em médio e longo prazo. Com a retirada da Petrobras do Pré-Sal, projeto de autoria de José Serra, do PSDB, estima-se que o Fundo Social acumulou perdas de aproximadamente R$ 50 bilhões.

Cristovam pode até não reconhecer tais avanços, mas tem plena consciência de que a EC 95 é a grande responsável pelo desmonte do padrão de financiamento vivenciado nos governos de Lula e Dilma e a maior ameaça ao ciclo virtuoso de expansão, acesso e qualidade da educação brasileira.

Com uma boa dose de cinismo, Cristovam tenta sustentar sua posição dizendo que, "hoje, estar do 'lado certo' é estar com aqueles que, não importa a sigla partidária, defendem a ética no exercício do poder, colocam os interesses do povo e do público na frente dos interesses dos empresários, dos deputados e senadores, dos partidos e sindicatos".

É realmente triste o fim de quem considera que o "lado certo" da história é o daqueles que usurparam a democracia, os direitos e seguem com a intrépida marcha do retrocesso.

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