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Pedro Simonard

Antropólogo, documentarista, professor universitário e pesquisador

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Crivella, o amigo do rei

Ser amigo do rei é um salvo-conduto. Quem goza desse estatuto está salvo dos percalços da vida

Marcelo Crivella (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

No carnaval de 1973, a Portela defendeu o enredo Pasárgada, o Amigo do Rei em mais uma das magníficas fusões entre cultura popular e cultura erudita que o carnaval e as escolas de samba nos brindam ano a ano. Nesta fusão entre Manoel Bandeira do poema Vou-me embora pra Pasárgada (“...E quando eu estiver mais triste/Mas triste de não ter jeito/Quando de noite me der/Vontade de me matar/Lá sou amigo do rei...”) e o carnaval, o refrão do samba enredo cantava “auê, auê, auê eu sei/eu sei que sou o amigo do rei”. 

O verso do poeta trata de um personagem infeliz que vive em uma realidade triste que sonha em ir para Pasárgada curar seus males. Lá tem tudo de bom e nada de mal lhe acontecerá porque ele é “amigo do rei”.

Ser amigo do rei é um salvo-conduto. Quem goza desse estatuto está salvo dos percalços da vida. No Brasil contemporâneo, ser amigo do rei significa ter as instituições da República lhe protegendo. Aos amigos do rei tudo é permitido: roubar, matar, praticar rachadinhas, acabar com os biomas pantanal, floresta amazônica e cerrado. O amigo do rei pode trair o povo, favorecer os ricos, concentrar a riqueza.

No Brasil contemporâneo temos o rei e o vice-rei, obedecendo à uma hierarquia bem definida. O rei mora no estrangeiro, é um milionário que fez riqueza com especulação imobiliária. O vice-rei não é o Vasco da Gama, mas um capitão amigo das milícias e dos fundamentalistas cristãos. Um capitão que avisou que iria suprimir os direitos dos trabalhadores, perseguir a população LGBTQI+, os negros, desmontar o aparelho fiscalizador do Estado para poder acabar com o meio ambiente, concentrar renda, aumentar a pobreza, vender as riquezas nacionais, perseguir a cultura entre outras tantas medidas. O vice-rei bateu continência para a bandeira da metrópole e muita gente achou normal, outros acharam que ele estava brincando. Neste gesto ele deixou claro sua subserviência ao rei. Contudo, mesmo assim, apesar de todos os avisos dados, os súditos o escolheram vice-rei.

O vice-rei é pau mandado do rei e ser seu amigo é contar com sua benevolência e com a benevolência do rei. 

Wilson Witzel elegeu-se prometendo subserviência ao vice-rei. Tentou rebelar-se e contra ele foi aberto um processo de impeachment. O vice-rei, assim como o rei, não tolera rebeldia ainda mais de Witzel que ameaçou o vice-rei e sua família com investigações que os ligassem a intricadas tramas de corrupção, desmandos e assassinatos.

Quando o vice-rei foi escolhido, Marcelo Crivella já exercia a função de prefeito do Rio de Janeiro. O bispo espertalhão aproveitou a onda que colocou o vice-rei no poder, ajeitou sua prancha e, desde então, vem surfando a onda bolsonarista. Nada atinge Crivella e olha que não faltam escândalos que o liguem ao mau uso do dinheiro público e à contratação de cordeiros do rebanho da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) para funções gratificadas na prefeitura do Rio de Janeiro.

Crivella superou a abertura de um processo de impeachment por utilizar funcionários comissionados, “irmãos em Cristo”, para censurar o trabalho da imprensa no Rio de Janeiro, para censurar notícias que pudessem lhe desagradar. Os veículos de comunicação dedicaram páginas e mais páginas, horas de imagens e áudios para denunciar esta trama. Mais no reino do Brasil, tudo tem que passar pelas instituições e estas são facilmente corrompíveis. O resultado foi a rejeição da abertura do processo de impeachment contra Crivella.

A imprensa denunciou o chamado “QG da propina” e, entre outras coisas, acusa o prefeito desviar mais de um bilhão de reais da prefeitura do Rio de Janeiro para a IURD, empresa comandada por seu tio Edir Macedo. Isso gerou mais uma tentativa de abertura de processo de impeachment contra o bispo prefeito, mais um rejeitado pela Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. 

O vice-rei é apoiado pelos fundamentalistas pentecostais e para seus amigos e apoiadores fiéis como Crivella “nada lhes faltará”.

A incompetência de Crivella apresenta sua conta à população da cidade do Rio de Janeiro. Após significativa queda nos índices de contaminação e morte por Covid-19, Crivella, o inepto, relaxou as medidas de controle da pandemia. Abriu as praias, as academias, os bares e outras atividades com capacidade reduzida. Praia com capacidade reduzida!! Tem que ser muito incompetente, néscio ou mal intencionado para acreditar que isto daria certo em uma cidade onde a praia e o mar fazem parte do imaginário de cada um dos seus cidadãos. No caso do prefeito, fica clara a má intensão. Dependente do apoio político de Jair Bolsonaro, Crivella busca, cada vez mais, declarar e certificar sua submissão ao capitão vice-rei. Ele sabe que quanto mais subserviente ele se mostrar, mais benesses do vice-rei ele conseguirá, sobretudo uma forte blindagem contra as acusações que pairam sobre ele na gestão da máquina pública municipal do Rio de Janeiro. Bolsonaro quer o fim da quarentena. Crivella, então, o obedece.

Hoje, 19 de setembro, a imprensa noticia que a média móvel de mortes por Covid-19 subiu em dois estados, o Rio de Janeiro entre eles. Ninguém surpreendeu-se com esta notícia, pelo contrário, ela já era esperada pela grande maioria dos cariocas que ainda conseguem manter discernimento e sua capacidade crítica. 

Não há unidade no combate à pandemia entre o governo do estado e a prefeitura da capital. Com o aumento dos riscos causados pela pandemia, o governo do estado prorrogou até 6 de outubro a suspensão da realização de eventos com a presença de público, como shows e atividades desportivas, além da permanência nas praia. Crivella, o Imune, o amigo do vice-rei, contra todas as recomendações científicas e do bom senso, autorizou a volta do público aos jogos de futebol, respeitando a capacidade de 1/3 dos estádios. O argumento cínico utilizado pelo alcaide foi que as praias estão cheias e com pessoas nos estádios existirão menos pessoas nas parias. Segundo o genial prefeito “a fiscalização é mais difícil de ser feita nas praias, onde mais pessoas estão desrespeitando as regras de distanciamento e de proteção. Já no estádio, segundo o prefeito, o controle será mais rigoroso”. 

O prefeito mostra que conhece muito pouco da cultura carioca. Já tinha brigado com o carnaval, que injeta bilhões de dólares na economia do Rio de Janeiro, e agora mostra não entender nada de praia e de futebol. Tradicionalmente, os jogos de futebol iniciam-se no Rio de Janeiro após às 16 horas por causa do calor. Isso significa que o carioca vai à praia pela manhã e ou sai da praia mais cedo para ir ao futebol ou vai direto da praia para os estádios.

O argumento do prefeito para a liberação do público nos estádios é tosco, estúpido e em um país sério seria seguido por uma série de censuras de outras autoridades e poderia até resultar em um processo de impeachment. Nada disso ocorreu porque Crivella é um fiel amigo do vice-rei e, por extensão, do rei.

As pesquisas eleitorais divulgadas até este momento mostram que a popularidade de Crivella vem caindo e trazem um rasgo de esperança com a candidatura de Benedita da Silva, deputada federal pelo PT, aproximando-se da de Crivella, ameaçando tirar do bispo prefeito o segundo lugar na intensão de votos dos cariocas. Se unidas, as duas candidaturas de esquerda – Benedita da Silva pelo PT e Renata Souza pelo PSOL – ultrapassariam a de Crivella e ocupariam a segunda posição na corrida eleitoral. Mas a esquerda tem que ficar atenta e não se esquecer que Crivella é amigo do vice-rei que joga sujo, que elegeu-se graças à fraude eleitoral planejada pela Cambridge Analytica juntamente Steve Bannon. Não pode esquecer-se que o Qanon deve fazer sua estreia eleitoral em 2020, nas eleições presidenciais estadunidenses e nas eleições brasileiras.

É preciso estar atento e forte já avisou os ex-“liberalóide” Caetano Veloso. 

Derrotar o bispo prefeito e, por extensão, o vice-rei e o rei seria uma prova de força e um sério limite às pretensões eleitoreiras de Bolsonaro. 

A campanha eleitoral aproxima-se rapidamente. Esperamos que a esquerda tenha aprendido a dominar a internet e as redes sociais e possa utilizá-las para derrotar a extrema-direita.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.