Cuba, Irã e a obsessão americana por mudar regimes
Trump amplia pressão sobre Cuba e reacende tradição intervencionista dos EUA contra governos considerados hostis à sua hegemonia
A nova ofensiva de Donald Trump contra Cuba surge em um momento de crescente instabilidade internacional e reafirma uma tradição histórica profundamente enraizada na política externa dos Estados Unidos: a tentativa recorrente de pressionar, isolar e enfraquecer governos considerados incompatíveis com seus interesses estratégicos. Mais do que uma disputa bilateral com Havana, a retomada das sanções e ameaças revela a persistência de uma lógica intervencionista que atravessa décadas — da Guerra Fria às guerras contemporâneas — frequentemente legitimada em nome da democracia, mas marcada por bloqueios econômicos, ingerências políticas e graves consequências sociais para populações inteiras.
A ofensiva mais concreta ocorreu em 1º de maio de 2026, quando Trump assinou uma nova ordem executiva ampliando significativamente as sanções econômicas contra a ilha. A medida foi apresentada como parte de uma estratégia de “pressão máxima” sobre o governo cubano.
Ao longo dos primeiros meses de 2026, a escalada ganhou dimensão maior por meio de declarações públicas de Trump e de integrantes de seu governo, especialmente o secretário de Estado Marco Rubio. Em janeiro, Trump afirmou que Cuba deveria “fazer um acordo antes que seja tarde demais”, enquanto Washington passou a pressionar terceiros países para restringirem exportações de petróleo destinadas à ilha.
Em fevereiro, Trump chegou a sugerir uma espécie de “friendly takeover” (“tomada amigável”) de Cuba, declaração que provocou forte repercussão internacional e alimentou temores de uma escalada ainda maior.
A retórica voltou a subir de tom em maio, após movimentações diplomáticas e de inteligência envolvendo Havana. O diretor da CIA, John Ratcliffe, declarou que Cuba “não poderia mais servir de refúgio seguro para adversários dos EUA”, vinculando a ilha a preocupações estratégicas envolvendo China, Rússia e Irã.
Mais do que um episódio isolado envolvendo Cuba, a nova escalada americana recoloca em evidência uma característica histórica da política externa dos Estados Unidos: a crença de que Washington possui legitimidade para pressionar, isolar ou enfraquecer governos considerados hostis aos seus interesses.
Essa lógica atravessa décadas. Esteve presente nas intervenções na América Latina que contribuíram para ditaduras militares sanguinárias, reapareceu nas guerras do Oriente Médio após o 11 de Setembro e continua hoje por trás da pressão simultânea exercida contra Cuba, Venezuela e Irã.
O ponto central raramente é apenas democracia. Frequentemente trata-se de geopolítica, influência estratégica, controle regional e demonstração de poder.
Cuba e a política permanente de asfixia
No caso cubano, Trump retoma uma política de asfixia econômica que fracassou historicamente em seus próprios objetivos declarados. Após mais de sessenta anos de bloqueio, Cuba não colapsou politicamente. O embargo tampouco produziu democratização. O que produziu foi sofrimento econômico prolongado e dificuldades cotidianas para a população da ilha.
Ainda assim, Washington insiste.
Os Estados Unidos mantêm relações estratégicas com diversos regimes autoritários quando isso interessa aos seus objetivos geopolíticos ou energéticos. Mas Cuba continua sendo tratada como alvo prioritário de uma cruzada ideológica permanente, especialmente útil para mobilizar setores da extrema direita americana e parte do eleitorado da Flórida.
A questão cubana toca diretamente no direito de soberania dos países latino-americanos e na resistência histórica da região a qualquer forma de tutela externa.
Venezuela e os limites da pressão máxima
A mesma lógica apareceu recentemente na Venezuela.
Trump transformou Nicolás Maduro em peça central de sua retórica hemisférica, apoiando sanções e iniciativas explícitas de mudança de regime. As sanções aprofundaram o colapso econômico e agravaram a crise social venezuelana.
Independentemente das críticas legítimas ao governo Maduro, a experiência venezuelana mostrou novamente os limites das políticas de asfixia externa.
Na prática, sanções prolongadas raramente produzem estabilidade democrática. Produzem empobrecimento, polarização, nacionalismo defensivo e radicalização geopolítica.
O Irã e a exportação da lógica intervencionista
A escalada contra o Irã reproduz a mesma lógica de mudança de regime que marcou outras intervenções americanas nas últimas décadas.
O governo de Benjamin Netanyahu sustenta há anos que o Irã representa ameaça existencial à segurança israelense. Em determinados setores políticos americanos e israelenses consolidou-se a percepção de que apenas uma profunda transformação interna iraniana — ou mesmo a queda do regime — resolveria definitivamente o equilíbrio estratégico regional.
O problema é que a história recente do Oriente Médio demonstra precisamente os riscos dessa visão. Iraque, Líbia, Afeganistão e partes da Síria tornaram-se exemplos dramáticos dos efeitos produzidos por guerras de desestruturação estatal e tentativas externas de reorganização política.
Em muitos casos, regimes autoritários foram substituídos não por estabilidade democrática, mas por fragmentação institucional, extremismo e crises humanitárias devastadoras.
Ainda assim, a tentação intervencionista persiste.
Trump compartilha exatamente essa visão de mundo: a de que pressão máxima, sanções econômicas, isolamento diplomático e demonstrações militares podem redesenhar regiões inteiras segundo os interesses estratégicos americanos.
Israel, hegemonia e política de força
O alinhamento entre Trump e Netanyahu reforça esse processo.
A guerra e a escalada regional acabam sendo apresentadas como instrumentos legítimos de contenção geopolítica, enquanto negociações frequentemente são tratadas como demonstração de fraqueza.
Mas guerras raramente obedecem aos cálculos de quem as inicia.
O próprio Trump parece ter percebido recentemente os riscos econômicos e geopolíticos de uma escalada maior contra Teerã. A ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz, alta explosiva do petróleo, inflação global e desorganização dos mercados revelou os limites concretos da política de confrontação permanente.
Ainda assim, a retórica continua.
E ela se conecta diretamente à dificuldade crescente dos Estados Unidos em aceitar a emergência de um mundo menos subordinado à sua hegemonia.
América Latina e a memória das ditaduras
Na América Latina, a lembrança histórica desse intervencionismo permanece viva.
Ao longo do século XX, Washington apoiou direta ou indiretamente golpes militares, ditaduras e estruturas repressivas em diversos países da região. Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Guatemala, Nicarágua e El Salvador carregam até hoje cicatrizes produzidas por esse período.
A Operação Condor talvez tenha sido o símbolo máximo dessa engrenagem repressiva continental articulada sob a lógica da Guerra Fria.
Por isso, quando Trump volta a reforçar punições, isolamento e pressão sobre países considerados hostis aos interesses americanos, grande parte do Sul Global não enxerga apenas um debate diplomático contemporâneo.
Enxerga a continuidade de uma tradição intervencionista profundamente associada à erosão de soberanias nacionais.
Um mundo que já não aceita tutela
O mundo mudou profundamente desde o auge da hegemonia americana no pós-Guerra Fria. A ascensão da China, o fortalecimento dos BRICS+ e a reorganização do Sul Global tornam cada vez mais difícil sustentar a lógica unilateral que marcou a política externa americana durante décadas.
Talvez seja exatamente isso que explique parte da agressividade crescente de Washington. Quanto mais a hegemonia americana encontra limites, mais determinados setores políticos parecem recorrer à coerção, às sanções e à política de força para preservar influência global.
Mas existe um ponto que precisa ser afirmado com clareza.
Criticar o intervencionismo americano não significa relativizar autoritarismos ou negar violações de direitos humanos. Não há qualquer compromisso democrático possível com repressão política, censura, tortura ou perseguição a opositores — em Cuba, no Irã, na Venezuela ou em qualquer outro lugar do mundo.
A soberania nacional não pode servir de desculpa para autoritarismos. Mas a democracia também não pode continuar sendo usada seletivamente como pretexto para guerras, bloqueios e mudanças de regime.
A história da América Latina ensinou duramente o preço dessa hipocrisia.
Em nome do combate ao comunismo e da suposta defesa da liberdade, ditaduras militares foram apoiadas enquanto torturavam, assassinavam e faziam desaparecer milhares de latino-americanos.
Democracias foram destruídas. Instituições foram corroídas. Gerações inteiras viveram sob medo, censura e violência de Estado.
O continente conhece profundamente esse trauma histórico.
Por isso, qualquer tentativa de relativizar intervenções externas travestidas de promoção democrática precisa ser condenada e enfrentada com firmeza.
Democracia não nasce de bloqueios econômicos.
Democracia não nasce de bombardeios.
Democracia não nasce da fome imposta por sanções.
A defesa da democracia precisa ser coerente ou deixa de ser defesa da democracia.
Isso significa rejeitar simultaneamente tanto o autoritarismo interno quanto o intervencionismo externo.
Depois de tudo o que a América Latina viveu no século XX, existe uma conclusão que não deveria mais admitir ambiguidades:
Ditadura nunca mais.
Nem patrocinada internamente.
Nem apoiada externamente.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

