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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Cuba sob pressão máxima

Cuba enfrenta dificuldades severas, mas preserva uma identidade coletiva que insiste em transformar escassez em partilha e sobrevivência em humanidade

Díaz-Canel, Presidente de Cuba (Foto: Granma)

Em Havana, a noite deixou de ser apenas um intervalo entre dias — tornou-se, para milhões, um território de incerteza onde a luz pode simplesmente não voltar.

Nestes idos de março de 2026, Cuba não enfrenta apenas uma crise econômica: enfrenta uma espécie de compressão histórica em que passado, isolamento e escolhas estruturais se encontram no cotidiano de quem improvisa a sobrevivência.

E, ainda assim, sob esse peso, ecoa uma tradição humanista difícil de apagar. Está nas canções de Silvio Rodríguez e Pablo Milanés, na memória coletiva eternizada pelo Buena Vista Social Club, e na herança intelectual de José Martí — autor de frases como “ser culto é o único modo de ser livre” e “pátria é humanidade”. Essa mesma matriz atravessava o pensamento de Armando Hart, cuja presença intelectual ainda reverbera em espaços como a Casa de las Américas, onde, em meados dos anos 1990, defendia cultura como eixo de dignidade e não como ornamento de Estado. Participei de duas mesas com Hart. Estava ali o pensador robusto com o olhar grávido do futuro. Ele faz falta nos dias atuais.

Ao longo das décadas, vozes externas também reconheceram esse traço. O escritor colombiano Gabriel García Márquez, laureado com o Nobel de Literatura, referia-se à vitalidade cultural cubana como uma forma de resistência simbólica rara no mundo contemporâneo.

O economista Joseph Stiglitz, Nobel de Economia, já destacou em diferentes ocasiões que indicadores sociais de saúde e educação em Cuba alcançaram níveis comparáveis aos de países desenvolvidos, apesar das restrições externas. E o filósofo francês Edgar Morin, atento às crises da modernidade, apontou a experiência cubana como um exemplo de complexidade social onde cultura, solidariedade e sobrevivência se entrelaçam.

Essa realidade não surgiu de forma abrupta. Ela se insere em uma trajetória iniciada após 1989, quando a queda do Muro de Berlim e, sobretudo, o colapso da União Soviética, em 1991, retiraram de Cuba seu principal parceiro econômico.

O país mergulhou no chamado “Período Especial”, uma crise profunda marcada por escassez, racionamento e retração econômica severa. A resposta foi uma reconfiguração parcial: abertura ao turismo internacional, busca por divisas externas e investimento estratégico em biotecnologia e saúde. Ainda assim, a dependência estrutural e a limitação de mercados permaneceram.

O embargo norte-americano, formalizado em 1962 após a Revolução de 1959 e a nacionalização de empresas estrangeiras, constitui outro eixo permanente dessa equação. Inicialmente parcial, tornou-se total ao longo da década de 1960, proibindo relações comerciais diretas entre os dois países e restringindo transações financeiras e logísticas.

Ao longo de mais de seis décadas, essa política foi mantida e ampliada por sucessivas administrações, sendo condenada reiteradamente por ampla maioria dos países nas Nações Unidas, que a consideram contrária ao direito internacional.

Em 2026, os efeitos desse bloqueio assumem contornos ainda mais tangíveis. O próprio Ministério da Saúde cubano reconhece que o sistema está próximo do colapso, com impacto direto sobre milhões de pessoas com doenças crônicas e interrupções em tratamentos oncológicos e serviços essenciais. A escassez de combustível compromete desde ambulâncias até a coleta de lixo, criando um ambiente onde a crise econômica transborda para o cotidiano mais básico.

A partir de 21 de janeiro de 2025, com o início do segundo mandato de Donald Trump, a política norte-americana endureceu significativamente. As pressões passaram a atingir não apenas Cuba diretamente, mas também países que mantêm relações comerciais com a ilha, sobretudo no fornecimento de petróleo. Em 2026, Washington chegou a ameaçar tarifas contra qualquer nação que exportasse combustível para Havana, ampliando o alcance extraterritorial das sanções.

Esse movimento ganhou dramaticidade com o enfraquecimento da Venezuela, historicamente principal fornecedora de petróleo a Cuba. A interrupção desse fluxo agravou a crise energética e expôs a vulnerabilidade estrutural da ilha. O episódio do sequestro político de Hugo Chávez complicou enormemente a situação da nação caribenha. O apoio venezuelano era vital para o equilíbrio cubano. Em 2026, a perda efetiva dessa sustentação energética torna visível uma dependência construída ao longo de décadas.

Paradoxalmente, mesmo sob pressão, Cuba mantém uma das mais amplas redes de cooperação médica internacional já registradas. Desde os anos 1960, cerca de 605 mil profissionais de saúde cubanos atuaram em 165 países, levando atendimento a regiões frequentemente negligenciadas pelos sistemas globais.

Em 2025, aproximadamente 24 mil médicos estavam distribuídos em 56 nações, e esse serviço chegou a representar 46% das exportações do país e cerca de 6% do PIB. Trata-se de uma diplomacia da saúde que combina solidariedade, estratégia econômica e presença internacional. Esse esforço já foi reconhecido por figuras como Jimmy Carter, que elogiou publicamente a capacidade médica cubana, e pelo ex-secretário-geral da ONU Ban Ki-moon, que destacou o papel dos médicos cubanos em crises sanitárias globais, como o combate ao ebola na África Ocidental.

Ainda assim, essa mesma política passou a ser alvo de pressões externas recentes, com tentativas de desmobilização dessas missões sob diferentes argumentos. A redução dessas operações não afeta apenas a economia cubana, mas também sistemas de saúde frágeis em diversas partes do mundo, que dependem diretamente desses profissionais.

No interior da ilha, porém, a realidade é mais silenciosa e concreta. Não é necessário recorrer a discursos ideológicos para compreender o cotidiano cubano.

Ele se revela na rotina de famílias que reorganizam o dia em função da eletricidade intermitente, na busca por alimentos básicos, na decisão difícil de emigrar. Há uma espécie de economia da improvisação, onde criatividade substitui recursos escassos e solidariedade compensa falhas estruturais.

O traço mais persistente, contudo, talvez seja a resiliência social. Em meio às limitações, mantém-se uma cultura de partilha e apoio comunitário que atravessa gerações. Essa capacidade de adaptação não elimina as dificuldades — apenas as torna suportáveis.

E é justamente aí que reside a tensão central de Cuba em 2026: resistir deixou de ser apenas uma virtude e passou a ser uma condição permanente.

A história recente mostra que a ilha sobreviveu a choques externos sucessivos — do fim do bloco soviético às oscilações do apoio venezuelano.

O presente, no entanto, indica um ponto de inflexão. A crise energética, o endurecimento das sanções e a contração econômica simultânea colocam Cuba diante de um desafio mais amplo: não apenas continuar resistindo, mas redefinir, com urgência, as bases de sua própria sustentabilidade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.