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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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Cuba, Venezuela e o retorno da Doutrina Monroe no século XXI

Hoje é Cuba. Ontem foi a Venezuela. Amanhã pode ser qualquer país cuja orientação política contrarie interesses estratégicos

Bandeiras da Venezuela e de Cuba (Foto: Reuters/Jorge Silva)

O recente editorial do The Washington Post afirma que a pressão de Washington sobre Cuba “está funcionando” e que os Estados Unidos deveriam aproveitar sua “extraordinária alavancagem” para impor mudanças dramáticas na ilha. A formulação soa quase técnica — como se se tratasse apenas de estratégia diplomática — mas carrega uma premissa profundamente perturbadora: a ideia de que uma potência estrangeira possui legitimidade para sufocar economicamente outra nação até produzir uma mudança política.

Antes de qualquer julgamento ideológico sobre o regime cubano, impõe-se uma pergunta mais fundamental:

quem concedeu aos Estados Unidos o direito de decidir o destino histórico de outro povo?

Essa questão não diz respeito apenas a Cuba. Diz respeito ao próprio significado da ordem internacional.

O precedente que redesenha limites

Se ainda restavam dúvidas sobre a disposição de Washington de agir unilateralmente no hemisfério, janeiro de 2026 ofereceu um episódio emblemático: uma operação organizada pelos Estados Unidos resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua companheira, após meses de planejamento logístico e infiltração.

Mais do que um evento extraordinário, trata-se de um marco inquietante nas relações internacionais contemporâneas. A remoção coercitiva de um chefe de Estado — independentemente do juízo que se faça sobre seu governo — redefine os limites do aceitável.

Pode-se criticar Maduro. Pode-se condenar sua condução econômica. Pode-se discordar de seu sistema político.

Mas a questão central não é Maduro.

É o precedente.

Quando uma potência se arroga o direito de capturar governantes estrangeiros e influenciar diretamente a reorganização política de outro país, a autodeterminação deixa de ser princípio e passa a ser mera retórica diplomática.

E precedentes, na história internacional, nunca permanecem isolados.

Cuba: uma crise real — mas não neutra

Cuba vive hoje uma das fases econômicas mais difíceis desde o fim da União Soviética. A economia acumula cerca de 10% de retração desde 2019, enquanto receitas em moeda forte caíram aproximadamente 30%. Apagões prolongados, escassez de combustível e dificuldades no transporte urbano tornaram-se parte do cotidiano.

Há causas internas — e negá-las seria intelectualmente desonesto. Baixa produtividade, rigidez institucional e dependência de importações limitam a capacidade de reação da economia.

Mas a crise tampouco pode ser compreendida fora do ambiente de forte pressão externa.

A interrupção do petróleo venezuelano — consequência direta da operação americana — agravou dramaticamente a fragilidade energética da ilha. Washington passou ainda a ameaçar medidas contra países que continuassem fornecendo combustível.

O resultado é tangível: racionamento, paralisação de serviços e deterioração das condições de vida.

Ainda assim, os Estados Unidos anunciaram ajuda humanitária de alguns milhões de dólares — gesto que revela uma contradição difícil de ignorar. Ajuda emergencial raramente compensa políticas que contribuem para produzir a própria emergência.

Segundo autoridades cubanas, as sanções já custaram bilhões de dólares em apenas um ano, enquanto o país produz menos da metade do combustível de que necessita levando a um severo estrangulamento econômico

A longa sombra da Doutrina Monroe

Para compreender o significado mais profundo desses movimentos, é preciso recuar quase dois séculos.

Em 1823, a Doutrina Monroe estabeleceu o princípio de que a América Latina constituía uma área de interesse estratégico dos Estados Unidos. Formalmente, tratava-se de impedir novas intervenções europeias. Na prática, inaugurava-se uma lógica de tutela hemisférica.

Ao longo do século XX, essa racionalidade justificou intervenções diretas e indiretas — da América Central ao Cone Sul — quase sempre sob o argumento da estabilidade, da segurança ou da defesa da liberdade.

O que se observa hoje não é uma repetição mecânica do passado, mas algo talvez mais sofisticado: a substituição da ocupação militar clássica por instrumentos econômicos, financeiros e energéticos de coerção.

Menos visível.

Mais eficiente.

Igualmente poderoso.

A captura de um presidente latino-americano e o uso do abastecimento energético como ferramenta de pressão sinalizam que essa lógica não pertence ao passado.

Ela está sendo atualizada.

Império em declínio tende a agir com mais dureza

A história oferece uma regularidade desconfortável: potências em processo de erosão relativa raramente se tornam mais cautelosas. Frequentemente tornam-se mais assertivas.

Isso não significa que os Estados Unidos deixaram de ser a principal potência global — longe disso. Significa, porém, que sua capacidade de organizar consensos diminuiu.

Quando a liderança perde força, a coerção tende a ocupar seu lugar.

Nesse sentido, a política para Cuba e Venezuela pode ser lida como parte de um movimento maior: menos hegemonia baseada em legitimidade, mais poder exercido pela pressão.

Não é o comportamento de um império confiante.

É o comportamento de um império que percebe a dispersão gradual do poder mundial — um império em decadência.

O risco para a América Latina

Normalizar esse tipo de intervenção cria um precedente particularmente perigoso para países médios e periféricos.

Se dificuldades econômicas ou déficits democráticos passarem a funcionar como justificativa implícita para ações externas, poucas nações estarão verdadeiramente protegidas.

Hoje é Cuba.

Ontem foi a Venezuela.

Amanhã pode ser qualquer país cuja orientação política contrarie interesses estratégicos.

O problema, portanto, não é apenas moral.

É sistêmico.

Trata-se do tipo de ordem internacional que está sendo construída.

A pergunta que o editorial evita

Criticar regimes é legítimo. Defender reformas é legítimo. Aspirar a sociedades mais abertas também é.

Mas nenhuma dessas posições responde à questão essencial:

desde quando o sofrimento econômico de uma população se tornou instrumento aceitável de política externa?

Democracia imposta pela escassez não é democracia — é coerção.

Se a autodeterminação dos povos ainda possui algum significado no século XXI, cabe aos cubanos — e somente a eles — decidir o país em que desejam viver.

Não a Washington.
Nem a qualquer conselho editorial.

Porque quando o direito de escolher o próprio destino deixa de pertencer aos povos, o que entra em crise não é apenas um regime.

É a própria ideia de soberania.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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