Cultura em chamas

"Desde o primeiro momento, o atual projeto político riscou o fósforo e atirou-o na gasolina, assistindo ao desabrochar do fogo purificador, tal e qual o nazifascismo sempre fez queimando livros", escreve o jornalista e Emiliano José

(Foto: Reprodução)
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Por Emiliano José 

À minha frente um livro de Michael Löwy sobre as teses em torno do conceito de história de Walter Benjamin: Aviso de incêndio. Tudo a ver. Benjamin é autor iconoclasta, marxista capaz de colocar em xeque noções consagradas, como a do progresso ininterrupto, a humanidade caminhando inexoravelmente na direção da solução dos seus problemas via o desenvolvimento incessante das forças produtivas. Ou identificar civilização e barbárie, ou o fascismo como inovação da barbárie. Ele insistia: os adversários do fascismo, inspirados pela ideologia do progresso, o subestimam, e não desenvolvem instrumentos teóricos capazes de compreendê-lo. Continua atual, porque seguimos desafiados a compreender a emergência de novos formas de fascismo, como aquele surgido no Brasil a partir da eleição de 2018.

Claro: nada será como antes. Não voltamos aos anos 1930. Inegável, no entanto, as similitudes com o nazifascismo por parte do atual governo federal. Os seus dirigentes e o presidente de modo especial vivem a proclamar tal identificação. Uma das proximidades, a atitude de destruir para depois edificar outra ordem. Ou enquanto destrói, desenvolver a nova ordem. A destruição segue, enquanto a nova política econômica vai se afirmando, a partir da radicalização da dinâmica neoliberal extremada. Desde o golpe de 2016 contra a presidenta Dilma, há um projeto nítido de destruição.  

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Michel Temer foi o abre alas: não é possível desconhecer isso. Preparou de modo consciente a chegada da nova ordem. Bolsonaro o tornou transparente, deixando de lado meios-termos. Disse com todas as letras: primeiro destruir. Nos EUA, simbolicamente, março de 2019, fez essa profissão de fé. Não é preciso esforço para constatar a coerência programática dele. E nem cabe relacionar os inúmeros feitos destrutivos. É uma política arrasadora. Volto a Walter Benjamin: já podemos ver um amontoado de escombros, a crescer até o céu. Não foi possível às forças de esquerda conter essa voracidade.

Nesse projeto, a cultura foi desde o início alvo preferencial. No sentido político-ideológico. No material, físico. E isso representa indisfarçável identificação com o nazifascismo. Os integrantes da tropa de choque do governo atuam como o personagem da peça antinazista de Hanns Jost, encenada em 1933, ano da assunção de Hitler ao poder: Quando ouço alguém falar em cultura, saco o meu revólver.A frase foi depois atribuída a Herman Göring, chefe da Gestapo, braço direito do Füher, embora originalmente não o seja. Ou esbravejam como o general franquista José Millan-Astray na Universidade de Salamanca, em 1936, diante do bravo reitor Miguel de Unamuno: Morte aos intelectuais! Viva a morte!

 Desde o primeiro momento, o novo projeto político, e aqui, insista-se, inclua-se sempre Michel Temer, a cultura foi compreendida como inimigo a ser combatido implacavelmente. De preferência, destruído. Tocar fogo, reduzi-lo a cinzas. Do ângulo da nova ordem, alguma razão tinha. A cultura brasileira, amplo senso, colocou-se desde o primeiro momento contra o projeto bolsonarista – nunca vacilou. Salvo um ou outro, uma ou outra, poucos artistas, cujas tendências favoráveis ao nazifascismo encontraram espaço para vazão a suas inclinações, sem grande repercussão.  

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Assim, estava dado, desde o primeiro momento, o aviso de incêndio. Não quero imaginar tresloucados tocando fogo no Museu Nacional. Nem pensar em incendiários da Cinemateca, não obstante saiba do hábito do nazifacismo por incêndios – só lembrar o do Reichstag, de fevereiro de 1933, essencial para a chegada de Hitler ao poder. Essa destruição de nossa memória é inegavelmente fruto de uma política deliberada, voltada à ideia de apagar os feitos da cultura, sua natureza emancipatória, eliminar os rastros da criatividade, da elaboração de tantos sonhos, esperanças desenvolvidas ao longo de 80 anos, se tomamos o exemplo dos primeiros passos da Cinemateca. Necessário reter essa noção. Os incêndios não surgem do nada. São frutos maduros de uma política – simples assim.  

Desde o primeiro momento, o atual projeto político riscou o fósforo e atirou-o na gasolina, assistindo ao desabrochar do fogo purificador, tal e qual o nazifascismo sempre fez queimando livros, e a Fundação Palmares está descartando centenas da coleção da instituição.  

O incêndio na Cinemateca de 29 de julho desse ano de 2021 foi construído por uma política. Nesse dia 8 de agosto, completa um ano do abandono da instituição pelo governo federal, com a demissão de todo o seu corpo técnico, o que obviamente colocou em risco todo o acervo documental, a memória, a história do cinema brasileiro, parte essencial de nossa cultura.   

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Tornaram-se cinzas arquivos da Embrafilme, de 1969 a 1990. Do Instituto Nacional de Cinema, de 1966 a 1975. Do Conselho Nacional de Cinema, de 1976 a 1990, entre tantos, isso de acordo com manifesto divulgado pelos trabalhadores da Cinemateca. Estes, há mais de um ano, haviam denunciado publicamente a possibilidade de incêndio.  

Perderam-se, ainda, no fogo, parte do acervo da Pandora Filmes, cópias de filmes brasileiros e estrangeiros em 35mm. E parte do arquivo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – produção discente em 16mm e 35mm, além de parte do acervo de vídeo do jornalista Goulart de Andrade. O manifesto é uma síntese não só do incêndio, mas da política de terra arrasada do governo federal em relação ao cinema brasileiro, e, como insisto, política de terra arrasada, destrutiva, da cultura brasileira.  

Esse aviso de incêndio, feito desde o primeiro momento pelo fascismo, não era, não é metafórico. Deve, de um lado, robustecer em todas as forças democráticas a indignação e a disposição de luta em defesa da cultura, resistência a essa voracidade destrutiva. E, de outro, intensificar a luta para derrotar esse projeto político, incendiário, e garantir o reinício de um projeto democrático-popular, capaz de garantir os direitos das maiorias, nesse caso o essencial direito à cultura e à preservação da memória da Nação.  

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