Cunha e o dilema de Temer

O desenlace do affair Cunha se dará sob a influência de três fatores: a pressão externa; o crescente embaraço de parte da base governista mais preocupada com as aparências (PSDB e setores do próprio PMDB) e o receio do próprio Temer de que se torne mais evidente sua condição de gêmeo xifópago de Eduardo Cunha

Brasília- DF- Brasil- 10/03/2015- Vice-presidente Michel Temer se reúne com presidente da Câmara, Eduardo Cunha (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Brasília- DF- Brasil- 10/03/2015- Vice-presidente Michel Temer se reúne com presidente da Câmara, Eduardo Cunha (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) (Foto: Luciano Siqueira)

Eduardo Cunha perdeu por dois votos na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados. Uma novela que caminha para o fim - após oito meses de manobras e artimanhas - ou apenas um capítulo de uma sequência ainda imprevisível?

Na Comissão de Ética, foram decisivos os votos de dois parlamentares antes tidos como pró-Cunha - frutos diretos da pressão da sociedade e, em parte, das próprias contradições que emergem da base parlamentar governista.

No meio do caminho, rastros evidentes de Temer e seu núcleo político.

O presidente interino, na verdade, vê-se num dilema: ou lava as mãos diante da derrocada de Cunha, que pode ser cassado, preso e condenado, ou segue manobrando para preservar o mandato do seu principal aliado e fiador do chamado baixo clero da Câmara, numericamente de amplo predomínio em sua base de sustentação parlamentar.

Para a consumação da cassação do mandato de Cunha em plenário serão necessários 257 votos.

Cunha, acuado, ameaça levar consigo 150 deputados e um senador e dois ministros. Tem preferido não dizer de público o sentido real dessa ameaça: levaria para o buraco também presidente interino Michel Temer.

Entrementes, marcado pela ilegitimidade jurídica e política e enredado num poço de areia movediça, Temer acende uma vela ao seu Deus (o mercado financeiro) e ao diabo (a sua base partidária e parlamentar).

Como têm assinalado analistas da grande mídia que o apóia, ele faz um governo que vai e volta o tempo inteiro, em desgastante oscilação, enquanto ameaça os trabalhadores e a população mais pobre com cortes de conquistas e direitos.

Pode um presidente assim tão ilegítimo, confuso, incoerente e frágil dispensar o apoio de Cunha? Certamente não.

Concomitantemente, senadores golpistas pressionam para apressar o rito da Comissão Especial do impeachment, preocupados temendo que alguns senadores que antes votaram pela admissibilidade do processo agora possam mudar seu voto e, assim, faltem os 2/3 necessários para o afastamento definitivo da presidenta Dilma.

Em tais circunstâncias, o desenlace do affair Cunha se dará sob a influência de três fatores: a pressão externa, advinda principalmente do movimento democrático que resiste ao golpe; o crescente embaraço de parte da base governista mais preocupada com as aparências (PSDB e setores do próprio PMDB) e o receio do próprio Temer de que se torne mais evidente sua condição de gêmeo xifópago de Eduardo Cunha.

Da lama ainda resta uma esperança.

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