Cúpula esvaziada e fracassada revela a tendência geopolítica da América Latina

"O mundo mudou de forma profunda. É inevitável que a China, a nova locomotiva econômica, tenha uma influência cada vez maior em nossa região", diz Marcelo Zero

www.brasil247.com -
(Foto: REUTERS/Daniel Becerril)


Por Marcelo Zero 

A Cúpula das Américas de Los Angeles pretendia ser o evento para dar um pontapé inicial na consolidação de uma nova hegemonia dos EUA na América Latina e no Caribe, após o “abandono” de Trump e ante a crescente influência da China na região.

Fracassou miseravelmente antes de começar. Como sempre, os EUA impuseram vetos políticos e ideológicos a países com governos que os desagradam.  

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Assim, Cuba, Nicarágua e Venezuela foram vetados unilateralmente pelos EUA. A desculpa esfarrapada foi a de sempre: esses países teriam governos autocráticos e promoveriam graves violações dos direitos humanos.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Curioso que essa tocante preocupação com democracia e direitos humanos não se aplica a países aliados dos EUA, como as ditaduras medievais do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Emirados Árabes, Bahrein etc.). Diga-se de passagem, Biden se prepara para visitar o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohamed bin Salman, aquele que mandou assassinar o jornalista dissidente Jamal Khashoggi, que morava nos Estados Unidos e trabalhava para o The Washington Post. Agora, no entanto, bin Salman é visto como “parceiro estratégico”, dada à necessidade de se produzir mais petróleo, um problema criado pelos EUA e por alguns parceiros europeus, em sua insana cruzada contra a Rússia.

Tampouco se aplica a aliados regionais dos EUA, como Colômbia, por exemplo. Nesse país, em 2021, foram assinados 138 ativistas de direitos humanos, por grupos armados que têm apoio do governo. Mesmo nosso país, o Brasil, tem um currículo lamentável em direitos humanos e vive hoje numa espécie de semidemocracia, tutelada pelo poder militar, sob a ameaça constante de se transformar numa nova ditadura tout court.  

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Entretanto, esses países foram convidados porque se submetem, de forma canina, aos desígnios geopolíticos do Império.  

Mas o fato concreto é esse veto dos EUA provocou a pronta reação de países como México, Guatemala, Honduras, El Salvador e Bolívia, por exemplo, que não enviaram seus chefes de Estado para a cúpula.  

Com isso, o principal tema de debate da cúpula, a migração, ficou inteiramente prejudicado, pois o México e os países da América Central são os principais exportadores de mão-de obra barata para os EUA. Mão-de-obra essa que é tratada aos pontapés pelo governo dos EUA, em clara violação de direitos humanos.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A eleição desse tema como o principal da cúpula revela bem qual a importância da América Latina para os EUA: nenhuma.  

O que importa realmente para os EUA, em relação à nossa região, são dois “problemas” que sempre são discutidos nas suas eleições: tráfico de drogas e migração irregular. Em relação especificamente ao Brasil, há o “problema” da preservação da Amazônia e da proteção dos povos originários, temas que têm ampla repercussão no Partido Democrata.

Nesse sentido, a Cúpula é muito mais dirigida para agradar o público interno dos EUA, do que para realmente concertar agendas regionais relevantes para todos os países.  Interesses próprios da América Latina nunca tiveram muita relevância nessas cúpulas imperiais.  

É preciso considerar, em tal contexto, que a América Latina sempre foi encarada, desde a época de Monroe, nos EUA, como um mero “quintal”. Uma região de influência geopolítica exclusiva, que tem se submeter às diretrizes do Departamento de Estado e aos desejos políticos dos grupos anticastristas da Florida, swing statedecisivo nas eleições presidenciais dos EUA.

A participação de Bolsonaro na Cúpula fracassada e esvaziada obedeceu também ao mesmo propósito geral de política interna.

Biden convidou Bolsonaro para um encontro bilateral com o intuito de evitar um esvaziamento ainda maior da cúpula. Já Bolsonaro, sejamos francos, foi à cúpula com a missão exclusiva de tirar uma foto com Biden para distribuir nas suas redes sociais. Pretende, com isso, mostrar ao público interno que não é um pária, uma espécie de zumbi político mundial.

Em vão. O encontro entre os dois foi algo patético. Protocolar. frio e tenso, o encontro não produziu mais que declarações genéricas e vagas, previamente acertadas pelo corpo diplomático. Os temas sensíveis que realmente importam na relação bilateral foram cuidadosamente evitados. Os dois levaram “colas” previamente preparadas pelas assessorias para saber o que dizer e evitar atritos.

Até mesmo a linguagem corporal revelou a distância pessoal e política entre os dois mandatários. Não ouve apertos de mão e Bolsonaro evitou olhar para Biden. Afinal, Bolsonaro só tem olhos para Trump, por quem professa explícito e devotado amor. Depois, o nosso capitão tentou consertar o estrago, aproximando-se sorridente a Biden, nos estertores da cúpula.  

Embora Bolsonaro diga que se “maravilhou” com Biden, é certo que o presidente norte-americano e o resto do mundo continuam a vê-lo como aquilo que ele realmente é: um governante medíocre, reacionário e ignorante, que nada tem a dizer de relevante nos foros mundiais, um político do qual todo o mundo quer distância. Não há cúpula capaz de sanear essa imagem consolidada e merecida de Bolsonaro, o qual, aliás, chegou atrasado para o discurso de encerramento e a foto oficial. Nosso presidente, como se sabe, não tem muito apreço pelo mundo do trabalho, pessoal e politicamente.

Ao contrário do que afirmaram algumas cabeças colonizadas, Bolsonaro nunca foi, não é e nunca será um estadista. E não o é porque não fala inglês. Não o é porque não consegue falar nada de significativo e interfere negativamente na agenda mundial. Lula não fala inglês, mas foi e é um estadista de nível planetário, porque fala coisas importantes para o mundo e intervém positivamente na agenda internacional. Lula é assete solução; Bolsonaro é estorvo e problema.

Independentemente dessas digressões sobre as relações bilaterais Brasil/EUA, o mais importante a ser destacado aqui é que a Cúpula fracassada e esvaziada revela tendência geopolítica inexorável. A América Latina não será mais apenas um quintal dos EUA. Pelo menos, não de forma monolítica.  

O mundo mudou de forma profunda, política e economicamente. É inevitável que a China, a nova locomotiva econômica, tenha uma influência cada vez maior em nossa região, até mesmo porque Beijing, ao contrário de Washington, não exige contrapartidas políticas e ideológicas para estabelecer laços de cooperação e de investimento. A Rússia, por sua vez, também tem, hoje, grande interesse em nossa região.

É natural, portanto, que muitos países do nosso entorno regional tenham interesse em diversificar suas parcerias estrangeiras, de modo a melhor promover seu desenvolvimento interno.  Foi o que o Brasil fez, com muito êxito, na época de Lula. No mesmo diapasão, a Argentina se prepara agora para ingressar no BRICS e desfrutar dos investimentos chineses que serão feitos no projeto estratégico da Nova Rota da Seda.  

Como dizia o poeta Cazuza, o tempo não para. Mesmo os EUA não são capazes de detê-lo. E Bolsonaro, que parou no tempo, mais especificamente na década de 70 do século passado, quando o Brasil vivia na ditadura de que ele tanto gosta, será uma vítima daquilo que Hegel dizia: a história mundial é uma corte de julgamento.  Não esquece e não perdoa.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Quero ser membro. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email